Tuesday, August 9, 2011

Multietnia super-heróica



Ivan Lessa
Colunista da BBC Brasil
Desde garoto que super-herói para mim e os de minha geração sempre
foram multiétnicos. A começar por onde poderiam ser encontrados.
Nos "gibis", ou histórias em quadrinhos, as HQ, num tempo feliz que
passou quando ainda não haviam inventado o pretensioso e tolíssimo
"romance gráfico". O simples fato de ir até ao jornaleiro da esquina
dar mil réis ou mil e quinhentos e pedir o mais recente Globo Juvenil,
Gibi Mensal ou Guri já dava o tom multi-étnico.
Afinal de contas o que queria dizer "gibi", aquele pretinho que se
escondia parcialmente atrás da letra inicial das revistinhas da Globo?
Continua lá no Houaiss: garoto negro, negrinho, publicação infanto-
juvenil em quadrinhos.
Vivíamos, mal sabendo, uma avançada multietnia sem nos darmos conta.
Não sei como era no resto da América Latina ou no mundo, mas desconfio
que, nesso setor, fomos pioneiros. Além do mais, era tudo em branco e
preto e os diálogos e as legendas eram feitas em composição (isso
encarecia um produto que tinha de ser barato) e não cuidadosamente
desenhadas como nos originais atuais. Era a Idade de Ouro da HQ e
feliz de quem dela participou. "Gibi" debaixo do braço, pelada na rua
ou na praia, cinema poeira de tarde. Oi, vida boa, sô!
Mais: os superheróis ainda não tinham esse cacoete de ficarem sentados
no parapeito de um edifício e ficar matutando existencialismos,
ultrapassados há meio-século. O Príncipe Submarino, o Tocha Humana, o
Capitão América, agora mesmo redivivo com sucesso no cinema, toda essa
gente, mais um zilhão de outros que no momento não me ocorrem (a cada
dia que passa menos coisas me ocorrem), tinham mais que fazer, mais
vilões a combater do que ficar enimesmando truísmos tolos.
Os super-heróis falavam português mais que razoável, pois eram bem
traduzidos, que o digam quem adaptou Pafúncio e Marocas, Praxedes
Porcalhão e o Pinduca (no original um insosso Henry) e pai e mãe que
proibiram os filhos de ler "gibi" não estavam com nada, eles que se
virassem, e muito mal, com o jornal do dia, 250 gramas de manteira e a
alta-cultura dos poemas de J.G. de Araujo Jorge e outras sandices.
Duas coisas que deveriam mas nunca me invocaram: por que é que uma boa
parte dos super-heróis tinha sempre um garoto para – sejamos francos –
só atrapalhar as coisas? Tocha Humana com seu Centelha, Batman e
Robin, Capitão América e Bucky e por aí afora. Nossas mentes jovens,
mantidas sãs em pleno Estado Novo graças às HQ, nunca enxergaram
maldade nesse tipo de relacionamento de adultos fantasiados e de
máscara na face com infanto-juvenis também vestidos em trajes que, em
retrospecto, alguns maldosos chamariam de "provocantes".Hoje em dia,
minha Nossa!, seria caso de polícia ou coisa pior. Caso de chamar o
Pinguim, o Caveira Vermelha, esses grandes e subestimados vilões para
darem um corretivo nos super-heróis acompanhados de "dimenor"
travestido.
A outra coisa que me passou completamente despercebida e, já que me
recuso a penitenciar-me, foi não notar, não ligar para a total
ausência de super-heróis negros ou latinos. Haviam negros, sem dúvida.
Só que sempre em trabalho serviçal. Como o caso de Lothar do Mandrake
(embora mantivesse a dignidade de sua ascendência africana mediante o
uso de roupas típicas de sua tribo ou o que fosse) e, essa me chateia
um pouco, o Ébano do grande, do esplêndido Will Eisner, criador do
Espírito, pouco super e muito herói.
Eisner, a uma certa altura, tentou transformar o Ébano num garoto
ruivo e sardento, mas o que a gente queria mesmo era o Ébano original.
Essa distração, minha e da “turma da rua”, hoje, covardemente, preferi
atribuir ao Estado Novo, Filinto Muller, Getúlio Vargas, e os outros
grandes super-vilões que jamaís, nem mesmo Dick Tracy, conseguiu botar
para ver o sol nascer quadrado (uma frase típica de HQ).
Leio agora, nos jornais, que vem aí, ainda neste verão, lançado pela
sempre inovadora (que muitas vezes acaba em besteira) editora Marvel
um Homem-Aranha metade negro, metade hispânico. Dois coelhos de uma só
cajadada, diria o Coringa em meio a gargalhadas. O repórter Peter
Parker, o Homem-Aranha original, de filmes, HQ e espetáculos azarados
no teatro, não vai se aposentar. Apenas ceder para uma parte da
coleção alternativa da Marvel, a Ultimate Imprint, os serviços de
Miles Morales. Quer dizer, é feito a dívida americana e os
retardatários direitos civis que só agora chegaram aos "gibis". É só
por um pouquinho, pra ver no que dá. Na moita, na moita, uma pequena
segregaçãozinha super-retardatária, hem "seu" Stan Lee?
Eu continuo esperando o relançamento do único super-herói que, em fins
da década de 30, morreu: o Cometa. Sim, seu irmão continuou seu embate
contra as felonias deste mundo cruel. Chamava-se O Vingador e não
confundir, por favor, com uma série radiofônica que atendia, ou se
ligava, pelo mesmo nome no final da tarde.
Em todo caso, Miles Morales, entre, a casa é sua, fique à vontade.
Fonte:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/08/110808_ivanlessa_ji....

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