Tuesday, August 16, 2011

E se Obama fosse africano?


mia couto

e outras interinvenções
Ensaios
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A editora optou por manter a grafi a do português de Moçambique.
Capa
Rita da Costa Aguiar
Foto de capa
© Eric Bouvet/ vii Network/ Corbis (dc)/ LatinStock. Camarões, 2010.
Revisão
Huendel Viana
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)
Couto, Mia.
E se Obama fosse africano? : e outras interinvenções / Mia
Couto — São Paulo : Com panhia das Letras, 2011.
isbn 978-85-359-1936-3
1.  Ensaios  2. Literatura moçambicana (Português) i. Título.
11-06927    cdd-869.4
Índice para catálogo sistemático:
1. Ensaios : Literatura moçambicana em português     869.4
Se obama fosse3A PROVA.indd   4 Se obama fosse3A PROVA.indd   4 7/5/11   9:15 AM 7/5/11   9:15 AMÍndice
NOTA INTRODUTÓRIA  ........................................................ 7
O guardador de rios
LÍNGUAS QUE NÃO SABEMOS QUE SABÍAMOS  .......................... 11
Intervenção na Conferência Internacional
de Literatura WALTIC, Estocolmo
OS SETE SAPATOS SUJOS ...................................................... 25
Intervenção no ISCTEM, Maputo
RIOS, COBRAS E CAMISAS DE DORMIR  .................................... 49
Intervenção no ciclo Biologia na noite,
Universidade de Aveiro
SONHAR EM CASA  ............................................................. 61
Intervenção sobre Jorge Amado, São Paulo
O INCENDIADOR DE CAMINHOS ............................................ 69
Intervenção no Congresso Literário Literatura
de viagem, Matosinhos
O PLANETA DAS PEÚGAS ROTAS ............................................ 77
Intervenção no Encontro sobre Pessoa
Humana, abertura da Conferência no
Millenium BIM, Maputo
QUEBRAR ARMADILHAS ....................................................... 95
Intervenção no Congresso de Leitura COLE,
Quebrando armadilhas, Brasil
Se obama fosse3A PROVA.indd   5 Se obama fosse3A PROVA.indd   5 7/5/11   9:15 AM 7/5/11   9:15 AMENCONTROS E ENCANTOS — GUIMARÃES ROSA ........................ 107
Intervenção na Universidade de Minas Gerais,
Brasil
DAR TEMPO AO FUTURO  .................................................... 121
Intervenção na inauguração de uma empresa
seguradora, Angola
O FUTURO POR METADE  ..................................................... 133
Intervenção nas celebrações do escritor Ibsen,
Maputo
AS OUTRAS VIOLÊNCIAS  ..................................................... 139
Intervenção no Segundo Fórum Humanista,
Maputo
A ÚLTIMA ANTENA DO ÚLTIMO INSECTO
— VIDA E OBRA DE HENRI JUNOD ........................................ 147
Intervenção na Conferência de Homenagem
a Henri Junod, Maputo
DESPIR A VOZ  .................................................................. 163
Intervenção no debate Não matem a cultura,
não matem Craveirinha, Maputo
LUSO-AFONIAS — A LUSOFONIA ENTRE VIAGENS E CRIMES ......... 173
Intervenção na Universidade de Faro
O NOVELO ENSARILHADO  ................................................... 189
Intervenção no Congresso Literatura e memória de
guerra da Universidade Politécnica de Moçambique,
Maputo
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? ............................................. 197
Artigo publicado no jornal Savana, Maputo
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Línguas que não sabemos que sabíamos*
Num conto que nunca cheguei a publicar acontece
o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença,
pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narra-
ção, ela o faz parar:
— Não, assim não. Eu quero que me fale numa
língua desconhecida.
— Desconhecida? — pergunta ele.
— Uma língua qu e não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!
O marido se interroga: como se pode saber falar
uma língua que não existe? Começa por balbuciar
umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a
si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à-vontade
nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se
canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher
está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo
(*) Intervenção na Conferência Internacional de Literatura
WALTIC, Estocolmo, junho de 2008.
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sorriso. Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmú-
rios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memó-
ria. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos
liga ao que havia antes de estarmos vivos.
Na nossa infância, todos nós experimentámos este
primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruí-
mos do momento divino em que a nossa vida podia
ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um
destino. James Joyce chamava de “caosmologia” a
esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita,
qualquer que seja o continente, qualquer que seja a
nação, a língua ou o género literário.
Eu creio que todos nós, poetas e fi ccionistas, não
deixamos nunca de perseguir esse caos seminal. Todos
nós aspiramos regressar a essa condição em que estivemos tão fora de um idioma que todas as línguas
eram nossas. Dito de outro modo, todos nós somos
impossíveis tradutores de sonhos. Na verdade, os sonhos falam em nós o que nenhuma palavra sabe dizer.
O nosso fi to, como produtores de sonhos, é aceder
a essa outra língua que não é falável, essa língua cega
em que todas as coisas podem ter todos os nomes. O
que a mulher doente pedia é aquilo que todos nós
queremos: anular o tempo e fazer adormecer a morte.
Talvez se esperasse que, vindo de África, eu usasse
desta tribuna para lamentar, acusar os outros e isentar
de culpas aqueles que me são próximos. Mas eu prefi -
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ro falar de algo em que todos somos ao mesmo tempo
vítimas e culpados. Prefi ro falar do modo como o mesmo processo que empobreceu o meu continente está,
afi nal, castrando a nossa condição comum e universal
de criadores de histórias.
Num congresso que celebra o valor da palavra, o
tema da minha intervenção é o modo como critérios
hoje dominantes desvalorizam palavra e pensamento
em nome do lucro fácil e imediato. Falo de razões comerciais que se fecham a outras culturas, outras línguas, outras lógicas. A palavra de hoje é cada vez mais
aquela que se despiu da dimensão poética e que não
carrega nenhuma utopia sobre um mundo diferente.
O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir
diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos
dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os africanos voltaram a ser os “outros”, os que vendem pouco e os que
compram ainda menos. Os autores africanos que não
escrevem em inglês (e em especial os que escrevem em
língua portuguesa) moram na periferia da periferia, lá
onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio.
Caros amigos:
As línguas servem para comunicar. Mas elas não
apenas “servem”. Elas transcendem essa dimensão
funcional. Às vezes, as línguas fazem-nos ser. Outras,
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como no caso do homem que adormecia em história
a sua mulher, elas fazem-nos deixar de ser. Nascemos
e morremos naquilo que falamos, estamos condenados à linguagem mesmo depois de perdermos o corpo. Mesmo os que nunca nasceram, mesmo esses
existem em nós como desejo de palavra e como saudade de um silêncio.
Vivemos dominados por uma percepção redutora
e utilitária que converte os idiomas num assunto técnico da competência dos linguistas. Contudo, as línguas que sabemos — e mesmo as que não sabemos
que sabíamos — são múltiplas e nem sempre capturáveis pela lógica racionalista que domina o nosso
consciente. Existe algo que escapa à norma e aos có-
digos. Essa dimensão esquiva é aquela que a mim,
enquanto escritor, mais me fascina. O que me move é
a vocação divina da palavra, que não apenas nomeia
mas que inventa e produz encantamento.
Estamos todos amarrados aos códigos colectivos
com que comunicamos na vida quotidiana. Mas quem
escreve quer dizer coisas que estão para além da vida
quotidiana. Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor
tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa
solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitámos tão pouco.
Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país.
Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros.
Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da
terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens,
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nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os
mortos, perdi contacto com os antepassados que nos
concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que
faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que
me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas
certezas. Nesse território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável.
Moçambique é um extenso país, tão extenso quanto recente. Existem mais de 25 línguas distintas. Desde o ano da Independência, alcançada em 1975, o
português é a língua ofi cial. Há trinta anos apenas,
uma minoria absoluta falava essa língua ironicamente
tomada de empréstimo do colonizador para negar o
passado colonial. Há trinta anos, quase nenhum mo-
çambicano tinha o português como língua materna.
Agora, mais de 12% dos moçambicanos têm o português como seu primeiro idioma. E a grande maioria
entende e fala português inculcando na norma portuguesa as marcas das culturas de raiz africana.
Esta tendência de mudança coloca em confronto
mundos que não são apenas linguisticamente distintos. Os idiomas existem enquanto parte de universos
culturais mais vastos. Há quem lute para manter vivos
idiomas que estão em risco de extinção. Essa luta é
absolutamente meritória e recorda a nossa batalha
como biólogos para salvar do desaparecimento espé-
cies de animais e plantas. Mas as línguas salvam-se se
a cultura em que se inserem se mantiver dinâmica.
Do mesmo modo, as espécies biológicas apenas se
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salvam se os seus habitats e os processos naturais forem preservados.
As culturas sobrevivem enquanto se mantiverem
produtivas, enquanto forem sujeito de mudança e
elas próprias dialogarem e se mestiçarem com outras
culturas. As línguas e as culturas fazem como as criaturas: trocam genes e inventam simbioses como resposta aos desafi os do tempo e do ambiente.
Em Moçambique vivemos um período em que encontros e desencontros se estão estreando num caldeirão de efervescências e paradoxos. Nem sempre as
palavras servem de ponte na tradução desses mundos
diversos. Por exemplo, conceitos que nos parecem
universais como Natureza, Cultura e Sociedade são de
difícil correspondência. Muitas vezes não existem palavras nas línguas locais para exprimir esses conceitos.
Outras vezes é o inverso: não existem nas línguas europeias expressões que traduzam valores e categorias
das culturas moçambicanas.
Recordo um episódio que sucedeu comigo. Em
1989, fazia pesquisa na Ilha da Inhaca quando desembarcou nessa ilha uma equipa de técnicos das
Nações Unidas. Vinham fazer aquilo que se costuma
chamar de “educação ambiental”. Não quero comentar aqui como esse conceito de educação ambiental
esconde muitas vezes uma arrogância messiânica. A
verdade é que, munidos de boa-fé, os cientistas traziam malas com projectores de slides e fi lmes. Traziam, enfi m, aquilo que na sua linguagem designavam por “kits de educação”, na ingénua esperança de
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que a tecnologia é a salvação para problemas de entendimento e de comunicação.
Na primeira reunião com a população surgiram
curiosos mal-entendidos que revelam a difi culdade de
tradução não de palavras mas de pensamento. No pó-
dio estavam os cientistas que falavam em inglês, eu,
que traduzia para português, e um pescador que traduzia de português para a língua local, o chidindinhe.
Tudo começou logo na apresentação dos visitantes
(devo dizer que, por acaso, a maior parte deles eram
suecos). “Somos cientistas”, disseram eles. Contudo, a
palavra “cientista” não existe na língua local. O termo
escolhido pelo tradutor foi inguetlha que quer dizer
feiticeiro. Os visitantes surgiam assim aos olhos daquela gente como feiticeiros brancos. O sueco que dirigia a delegação (e ignorando o estatuto com que
acabara de ser investido) anunciou a seguir: “Vimos
aqui para trabalhar na área do Meio Ambiente”.
Ora, a ideia de Meio Ambiente, naquela cultura, não
existe de forma autónoma e não há palavra para designar exactamente esse conceito. O tradutor hesitou
e acabou escolhendo a palavra  Ntumbuluku, que
quer dizer várias coisas mas, sobretudo, refere uma
espécie de Big Bang, o momento da criação da humanidade. Como podem imaginar, os ilhéus estavam
fascinados: a sua pequena ilha tinha sido escolhida
para estudar um assunto da mais nobre e elevada metafísica.
Já no período de diálogo, o mesmo sueco pediu à
assembleia que identifi casse os problemas ambienSe obama fosse3A PROVA.indd   17 Se obama fosse3A PROVA.indd   17 7/5/11   9:15 AM 7/5/11   9:15 AM18
tais que mais perturbavam a ilha. A multidão entreolhou-se, perplexa: “Problemas ambientais?”
E após recíprocas consultas as pessoas escolheram
o maior problema: a invasão das machambas
1
 pelos  tinguluve, os porcos do mato. Curiosamente, o
termo tin guluve nomeia também os espíritos dos falecidos que adoeceram depois de terem deixado de
viver. Fossem espíritos, fossem porcos, o consultor
estrangeiro não se sentia muito à vontade no assunto
dos tinguluve. Ele jamais havia visto tal animal. A assembleia explicou: os tais porcos surgiram misteriosamente na ilha, reproduziram-se na fl oresta e agora
destruíam as machambas.
— Destroem as machambas? Então, é fácil: vamos
abatê-los!
A multidão reagiu com um silêncio receoso. Abater espíritos? Ninguém mais quis falar ou escutar fosse
o que fosse. E a reunião acabou abruptamente, ferida
por uma silenciosa falta de confi ança.
Já noite, um grupo de velhos me veio bater à porta.
Solicitavam que chamasse os estrangeiros para que o
assunto dos porcos fosse esclarecido. Os consultores
lá vieram, admirados pelo facto de lhes termos interrompido o sono.
— É por causa dos porcos selvagens.
— O que têm os porcos?
— É que não são bem-bem porcos...
(
1
) Terrenos agrícolas para produção familiar.

Fonte:
http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13116.pdf

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