Tuesday, July 12, 2011

Tese mostra que efeitos cômicos desaparecem em quadrinhos presentes em livros didáticos.


O inglês sem humor


Tese mostra que efeitos cômicos desaparecem em quadrinhos presentes em livros didáticos.

Isabel Gardenal

A análise discursiva dos quadrinhos de humor que compõem seis livros didáticos de inglês, adotados por professores da rede de ensino do Estado e produzidos por autores brasileiros, revelou que este tipo de abordagem tendeu a apagar os seus efeitos cômicos. Predominou, nesses materiais, uma concepção de língua enquanto código, um sistema de sinais autônomos, sem relação com o contexto linguístico e cultural em que os quadrinhos são produzidos. "O conteúdo demasiadamente estruturalista e gramaticalista não permite que a subjetividade do aluno seja tocada. Para ele, a tendência é encarar este texto como um a mais", mostrou a linguista Ilka de Oliveira Mota em sua tese de doutorado, defendida no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) sob orientação da professora Maria José Coracini, do Departamento de Linguística Aplicada.
Alguns fatos pontuais foram observados pela pesquisadora durante a análise. Primeiramente, ela acentuou uma importância capital na constituição identitária de alunos e professores. "São materiais importantes a serem analisados, uma vez que estão fortemente presentes no contexto didáticopedagógico. Daí a necessidade de analisar o seu modo de significação no espaço escolar."
As contribuições de Freud sobre o campo da comicidade foram fundamentais para a pesquisa. Conforme o psicanalista, neste campo irrompem aspectos existenciais e questões subjetivas, culturais, históricas, sociais e políticas. Estes, pertencentes ao campo da comicida-de, operam nos textos quadrinizados que, para além dos quadrinhos, incluem as tirinhas e as histórias. "Tal campo é muito importante no processo ensinoaprendizagem de qualquer língua", declara a linguista.
Pelo que observou Mota, os textos quadrinizados foram, de certa forma, tratados nos livros como mera brincadeira, "não como um exercício intelectual". Ela explica, apoiada em Freud, que, no campo da comicidade, jogam ainda questões relativas ao intelecto, às forças libidinais, à agressividade, ao inconsciente. Neste sentido, o campo da comicidade é atravessado por técnicas e procedimentos semelhantes ao inconsciente. "É um texto denso do ponto de vista psicanalítico e discursivo. Todavia tal densidade não é levada em conta na abordagem dos quadrinhos, portanto da comicidade", comenta a linguista, que é professora de inglês há pelo menos dez anos.
Uma outra questão relevante levantada pela pesquisa foi a constatação de que houve, na abordagem dos quadrinhos, primazia do verbal sobre o nãoverbal, "sendo que esta é tão envolvente quanto a outra na produção dos sentidos, embora não considerada nesses quadrinhos", expõe. "O nãoverbal é totalmente ignorado e subsumido pelo verbal, por conta, talvez, da cultura grafocêntrica deveras pautada no signo verbal. Assim sendo, esta pesquisa ajudou a problematizar o tratamento que se dá a este plano."
Desse tipo de abordagem podem resultar várias consequências. Além do apagamento do humor, há também o apagamento do prazer cômico. De acordo com a pesquisadora, é preciso mudar essa abordagem e, com ela, a concepção de língua adotada. "É preciso, pois, uma abordagem que leve em conta os aspectos culturais, históricos, políticos que constituem esse tipo de texto", afirma Ilka. Além disso, continua a pesquisadora, é necessária a consideração do jogo estabelecido entre os planos verbal e o nãoverbal conjuntamente, jogo este fundamental para a produção dos efeitos cômicos. O tipo de abordagem vista nos livros em questão impossibilita que aluno se inscreva como sujeito no processo de leitura dos quadrinhos.
Além do mais, na tese de doutorado sublinhouse o valor de se dar aos conteúdos um tratamento mais cuidadoso. Freud dizia que o cômico, mesmo produzindo o riso em algumas situações, não deixava de ser sério. É uma outra possibilidade de aprendizado, mesmo porque o aluno não irá aprender apenas língua, no sentido em que a escola comumente vem concebendo. "Pensamos a língua na sua relação constitutiva com a cultura, a história, o social, o inconsciente. Sem considerar essa relação na abordagem da língua, a comicidade que caracteriza os quadrinhos tende a ser apagada."
O campo da comicidade também é atravessado por processos estéticos, semelhantes ao funcionamento do inconsciente. "Tratase de um campo que traz em seu bojo uma relação muito peculiar com os sentidos; é uma elaboração especial em que jogam o deslocamento e a condensação", destaca Mota. Mas esta é uma perspectiva discursiva. "Falo de uma perspectiva teórica que me permite pensar o humor desta forma, via Análise do Discurso na interface com a teoria freudiana". Ilka acredita que a inovação está justamente em retomar Freud a fim de compreender a densidade que permeia o campo da comicidade.
Especificidades
As atividades pedagógicas com base nos quadrinhos geralmente giram em torno de perguntas conteudistas, como: "o quê?", "por quê?", "quando?", "quem?". Com isso, o aluno não precisa pensar muito para responder. "Essas práticas didáticopedagógicas, aliás, não levam em consideração o aluno como sujeito constituído histórica e culturalmente. É como se ele não fosse capaz de inferir sentidos, estabelecer relações." Muitas práticas encontradas nos livros didáticos pesquisados fazem com que o aluno vá ao quadrinho apenas para localizar informações pontuais, sem compreender os efeitos cômicos.
Em um dos livros analisados, todas as unidades iniciamse com um quadrinho. Acima dos quadrinhos, há o nome do conteúdo gramatical a ser estudado. Para exemplificar, a pesquisadora mostrou uma dessas unidades: reflexive pronouns (pronomes reflexivos). O modo como o quadrinho está disposto na página impressa - justaposto ao enunciado reflexive pronouns - direciona o aluno a ir em busca do conteúdo a ser ensinado.
Na sequência, há itens gramaticais e algumas frases que não têm nenhuma relação com o quadrinho. Ao contrário, acentuam os pronomes reflexivos. O mesmo funcionamento se dá com as demais unidades. "É possível observar que a língua nos contextos dos livros didáticos de inglês pesquisados é concebida como uma estrutura fechada nela mesma", atesta a linguista. "A ideia era que o aluno reconhecesse os aspectos gramaticais sim. Afinal não defendemos que não deva aprendêlos. Ocorre que, discursivamente, a gramática não deve ser trabalhada como um fim como se fosse "a" língua. Se assim for, o texto quadrinizado não faz sentido no ensino de línguas."
A presença de quadrinho de humor em livros didáticos de inglês parece servir apenas como um chamariz. Produzse a falsa ilusão de que somente a presença de quadrinhos é capaz de motivar o aluno. Conforme a pesquisadora, isso não basta. É preciso uma abordagem que toque a subjetividade do aluno. "O tipo de abordagem encontrada resulta em uma inversão: o texto de humor transformase em um verdadeiro texto de horror, porque o olhar do aluno é conduzido apenas para determinados conteúdos gramaticais. A brincadeira com a língua(gem), a duplicidade de sentidos, a linguagem chistosa, etc., são desconsideradas pela abordagem", reconhece. "Como resultado, há um duplo apagamento: o apagamento do humor e do prazer cômico, já que do campo da comicidade é de se esperar a produção do prazer, segundo Freud."
Freud e o campo da comicidade
Freud reconheceu a comicidade como um campo complexo, propondo três subdivisões: o cômico, o chiste e o humor. A despeito delas, os quadrinhos são um tipo de texto em que essas subclasses se mesclam. Desse modo, tais quadrinhos vêm mostrar que não há uma linha rígida separando o cômico, o chiste e o humor, assegura Mota.
Segundo a distinção estabelecida por Freud, o cômico é caracterizado pelo excesso de gasto. "Ele atua semelhante a um defeito sobre o qual se coloca uma lente de aumento. Um exemplo típico é a caricatura", conta a linguista. "Nos textos quadrinizados, o cômico é um dos elementos do campo da comicidade mais recorrentes em quadrinhos, manifestandose inclusive no próprio traçado". A pesquisadora sinaliza que este tipo de texto também apresenta aspectos chistosos, que envolvem brincadeiras com a língua.
De outra ponta, expõe ela, o humor é caracterizado pelos afetos ou pelo que é dolorido ao ser humano. O prazer é produzido a partir de afetos que normalmente seriam penosos. É o caso de um homem que vai para a forca. No caminho, ele faz uma piada: "começamos bem a semana". Por meio do humor, o sujeito confronta a morte, a desafia, relata.
A diferença entre o cômico, o chiste e o humor é indelével. Um ponto em comum os une - o prazer. Nos livros pesquisados, o tipo de abordagem observada não dá vazão para o prazer. Há o apagamento dos aspectos cômicos e, por conseguinte, do prazer cômico, garante Mota.
Um fato curioso, investigado pela linguista, foi compreender que alguns livros trazem tanto textos quadrinizados que circulam socialmente, como o Pato Donald, de Walt Disney, como também textos produzidos por profissionais contratados para fazerem criações exclusivas. "E tudo o que figura ali acaba sendo pedagógico."
Num dos quadrinhos, Mota percebeu um tipo de comicidade forçada. Foi o caso doParadise Coffee (Paraíso do Café). Uma frase presente em um cartaz deste local teria sido o motivador da comicidade: the most gooder coffee who you have ever had, ou seja, "o melhor café que você já teve". Há um erro do ponto de vista gramatical no enunciado the most gooder. O correto seria the best coffee. "Dificilmente um falante nativo escreveria the most gooder."
A seguir, na mesma cena, o que se vê é um leitor irritado que escreve no próprio cartaz, ao circundar the most: "so good that it passes over the tongue", ou seja, "é tão bom que atropela a língua". Segundo a linguista, o personagem principal da cena parece vestir a máscara de um verdadeiro professor ortodoxo de língua. "É a imagem que o cartunista faz de língua ou do que é ser um bom falante." O interessante foi que o objetivo da atividade pedagógica era ensinar o pronomeWho(quem).
A etapa de seleção demandou um bom tempo de Mota. Contudo, já o fato de ser quadrinho foi um dos critérios que ela empregou para a sua escolha, procedendo a análises da materialidade linguística e imagética.
A análise se deu em três momentos. O primeiro analisou os quadrinhos justapostos a questões de interpretação de texto. Observando o seu funcionamento, a pesquisadora notou que as questões eram constituídas dentro de um universo lógico pragmático, com perguntas como: o quê?, qual dos dois? onde? quem? Como acentua a pesquisadora, os quadrinhos jogam com as duplicidades de sentidos, enquanto nas questões produzidas pelos autores dos livros didáticos não existia oposição. Contudo, o livro didático fez a sua disjunção. "As questões didáticopedagógicas tendem a desambiguizar aquilo que é ambíguo por excelência", diz Mota.
A segunda parte pôs vista nos livros cujas unidades iniciavam com quadrinhos, justamente para dar aquele efeito de que o livro é "descolado", inovador e divertido. Só que a abordagem foi totalmente pautada na língua enquanto código. O que se teve, mais uma vez, foi o apagamento do humor e do prazer cômico.
A última parte aborda aqueles livros que usam os quadrinhos no final da unidade, os quais produzem um efeito de intervalo. "Agora é hora da gente se divertir". Mota, ao tomar contato com o livro do professor, para verificar se o autor do livro didático falava alguma coisa sobre este tipo de texto, observou que os aspectos linguageiros que tecem o quadrinho de humor não foram levados em conta, tanto que nem foi inserido nada relacionado a esse tipo de texto nas instruções para o professor. "Depreendese que esse é um espaço do aluno. É como se o texto quadrinizado marcasse a hora do recreio, não do aprendizado."

Fonte: Jornal da UNICAMP – http://www.unicamp.br/
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