Saturday, July 2, 2011

Selvageria e genialidade na Cidade Eterna



Livro de Robert Hughes analisa história de Roma, mostrando como a cidade passou de capital imperial a centro do cristianismo

Nenhuma cidade, diz Robert Hughes, “esteve mais arraigada na ferocidade desde seus primórdios que Roma”. A intimidante e agressiva cidade-estado se transformou na capital do maior império da Europa, e depois se tornou o centro do cristianismo ocidental. Como era de se esperar, Roma funcionou como um ímã para homens (e, ocasionalmente, mulheres) de ambição, despreocupados com o uso da violência para obtenção de seus fins.

Roma teve uma infinidade de líderes, que não hesitaram em recorrer à brutalidade para governar a cidade, entre eles Tarquínio, o Arrogante, que acreditava que a melhor maneira de administrar a cidade era decapitando seus principais cidadãos; e Valente, cujo expurgo dos pagãos foi descrito por um cronista do século IV como “uma selvageria monstruosa”. Como Hughes narra em seu novo livro “Rome: A Cultural, Visual and Personal History” (“Roma: Uma História Cultural, Visual e Pessoal”), “por toda a cidade, homens eram feridos e arrastados para os cadafalsos e açougues”.

Mais de um milênio mais tarde, a cidade estava sob o comando do insano Papa Sisto V, defensor de uma espécie de política de tolerância zero do século XVI, que condenava às galeras aqueles que não praticassem o Sabá. Seu curto período de cinco anos à frente do papado exemplifica um tema recorrente na história de Roma: a interligação da brutalidade com a criatividade abundante. Foi ele o responsável pela criação de muitas das ruas da cidade e das amplas praças nas quais seus sucessores construíram as igrejas e fontes barrocas que têm sido o orgulho da cidade desde então.

Se a história de Roma é monumental, a tarefa de contá-la não poderia ser diferente. Um relato que se estende por quase três mil anos, e é essencial para a civilização ocidental, requer um autor erudito, capaz de escrever sem fazer com que seus leitores sucumbam a uma versão literária da Síndrome de Stendhal. Felizmente, o australiano Hughes, é bem-sucedido na maior parte de sua obra.

O livro de Hughes tem como ponto alto, o período da construção da Basílica de São Pedro, “que levou 120 anos para ser construída, e sobreviveu a 20 papas”. Essa é a era de Bramante, Michelangelo, o “terrível Papa” Júlio II, e do excêntrico mestre barroco Guido Reni. Foi também o período da passagem de Caravaggio pela cidade, cuja violência e genialidade estavam em sintonia com a história romana. “Saturnino, rude e afeminado, ele arrasou a etiqueta da Roma do início do Seicento como um tubarão em uma rede”, escreve Hughes.

Em determinado momento, há a sensação de que o autor se esgotou na enorme riqueza de seu material. Roma, diz ele, “faz com que você se sinta pequeno, e foi criada para isso. Mas também faz com que você se sinta grande, porque as partes mais nobres foram criadas por membros de sua espécie. Ela lhe mostra o que você não consegue se imaginar fazendo, o que é um dos inícios da sabedoria”.

Fonte:
http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/selvageria-e-genialidade-na-cidade-eterna/

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