Sunday, July 10, 2011

Reinventando o jornalismo


Novos modelos de publicações se proliferam enquanto organizações buscam novas fontes de receitas

10/07/2011 | Enviar | Imprimir | Comentários: nenhum | A A A
Na manhã de 3 de setembro de 1833, um novo tipo de jornal foi posto à venda nas ruas de Nova York. Com sua mistura de reportagens criminais e histórias de interesse humano, o Sun era voltado para o público de massa, e seu editor, Benjamin Day, fez dele um jornal barato: vendido por 1¢, seu preço era apenas 1/6 do de outros jornais. Em dois anos, oSun já vendia 15 mil cópias diárias
Em retrospecto, esse foi um momento transformador, pois introduziu um novo modelo na indústria. Ao invés de depender das vendas, os jornais passaram a depender principalmente dos anunciantes. Foi algo imensamente importante para todos os envolvidos: leitores pagavam pouco por suas notícias, publicitários conseguiam atingir grandes públicos, e os jornais puderam contratar repórteres profissionais ao invés de dependerem de amadores.
Esse modelo funcionou bem por um certo tempo, mas foi derrubado pela era da internet, na qual leitores voltaram suas atenções para outras mídias, sendo rapidamente seguidos pelos anunciantes. “O público é maior do que nunca, incluídas todas as plataformas”, diz Larry Kilman, da Associação Mundial de Jornais. “O problema não está no público, está nas receitas”. Provedores de notícias por todo o mundo passaram a cobrar por conteúdo na web e nos celulares, e também a buscar fontes não-tradicionais de receitas, como clubes de vinho ou serviços de encontros. Alguns deles são sustentados pela filantropia. Ninguém sabe dizer ainda se algum desses modelos funcionará, mas está claro que as receitas da publicidade online não serão suficientes para cobrir os custos de uma organização jornalística tradicional. Financiamento governamental também está for a de questão, já que os países ricos lutam desesperadamente para reduzir suas dívidas.
Nem todo jornalismo tem uma função cívica, e a habilidade da mídia em expor qualquer desvio de conduta é facilmente exagerada. “As pessoas querem que você acredita que jornalismo significa que todos estão trabalhando no próximo Watergate”, diz Clay Shirky, um guru midiático da Universidade de Nova York. Na maior parte do tempo, não estão. Mas o “jornalismo confiável” sempre foi subsidiado por outras atividades. Logo, encontrar um novo modelo para garantir a existência do jornalismo é do interesse da sociedade como um todo.
A busca pelo novo modelo
Leitores de jornais e revistas costumam não ter disposição para pagar por notícias online ou em celulares se isso representar um custo extra. Mas muitas publicações estão adotando um modelo de “pleno acesso” que garante aos assinantes das edições impressas, acesso irrestrito às edições digitais. Isso permite que as pessoas leiam a publicação no formato que preferirem, e – com uma dose de sorte – servirá também mudar sua percepção sobre o que estão pagando: não apenas um jornal sete dias por semana, mas sim, acesso a notícias em toda uma variada gama de formatos. “Com o aumento de leitores nas edições digitais, a esperança é que eles passem a dar mais valor mentalmente a esse formato, e menos valor ao formato impresso”, diz Ken Doctor, um analista de jornalismo da Outsell. Quando estiverem prontos para abandonar a edição impressa, os leitores já deverão estar habituados á ideia de pagar pela edição digital.
Mesclar o acesso digital às edições impressas, diz Doctor, não apenas oferece uma escolha aos leitores, mas também dá a eles uma razão para continuar pagando pelas edições impressas, responsáveis pela maior parte da renda publicitária. Cada vez mais os jornais serão capazes de diminuir sua publicação impressa, e ainda assim manter a maior parte de seus anunciantes.
Uma enorme variedade de modelo está sendo testada. Na Eslováquia, por exemplo, vários jornais e revistas começaram a usar um sistema de pagamento compartilhado que funciona em nível nacional. Pagando €2.90 em um dos sites envolvidos, o assinante desbloqueia conteúdo importante e diversas funções por um mês. O sistema acabou se mostrando mais popular do que se imaginava.
Tomas Bella, da Piano, a companhia responsável pelo sistema, diz que isso passa a ideia de que os leitores pagarão por conteúdo, “mas apenas quando for conveniente o suficiente”. Bella acredita que modelo da Piano poderia funcionar em outros 10 ou 15 mercados europeus, nos quais barreiras linguísticas protegem provedores de notícias de competição estrangeira direta.
Por outro lado, dois jornais britânicos, o Guardian e o Daily Mail, disponibilizaram todo o seu conteúdo online gratuitamente, numa tentativa de se transformarem em marcas globais de notícias. O website do Mail recentemente desbancou o Huffington Post, e se tornou o segundo site jornalístico mais popular do planeta. O Guardian ocupa a quinta posição. Ambos estão aumentando suas equipes nos Estados Unidos para reforçar sua cobertura e se aventurar em um mercado publicitário muito maior. O sistema de acesso irrestrito adotado pelos jornais norte-americanos não funciona no Reino Unido. A maioria das vendas acontece por varejistas independentes, e não por assinaturas, logo, os jornais não conhecem seus leitores.
Shirky duvida que a maioria dos jornais consiga fazer com que as pessoas gastem dinheiro online. “Sistemas de pagamento foram apresentados como uma masmorra, na qual o modelo existente não precisa ser alterado”, diz ele. “Trata-se de uma defesa do antigo modelo”. Assim como ele, Juan Señor, da Innovation Media Consulting, uma firma que promove jornais ao redor do mundo, afirma que “não é possível consertar o modelo de negócios sem consertar o modelo editorial”.
O crescimento do “filantrojornalismo”
Outra alternativa, que atualmente está sendo testada nos Estados Unidos, é a de construir novas organizações de notícias metropolitanas, com raízes na internet, e financiada pela filantropia. Exemplos incluem o Voice of San Diego; o St Louis Bacon; o MinnPost, de Minneapolis; oTexas Tribune, de Austin, e o Bay Citizen, de São Francisco. “Onde há esse tipo de jornal, eles têm sido bem sucedidos, e, em alguns casos têm uma qualidade melhor que as dos diários locais”, diz Doctor. Como os jornais tradicionais estão em apuros, as organizações não-lucrativas de notícias podem contratar jornalistas experientes, muitos deles atraídos pelo foco dos novos sites em política, ação civil, e jornalismo investigativo. “Acreditamos que o vazio que estamos tentando preencher está ligado à reportagem”, diz Jonathan Weber, editor doBay Citizen. “Há muitas opiniões à solta, e uma escassez de reportagens”.
Ariana Huffington, cujo Huffington Post coopera com organizações de notícias financiadas filantropicamente, diz que uma mudança na mentalidade é necessária entre os doadores. “Acho que precisamos adotar o hábito de financiar empresas jornalísticas não-lucrativas, da mesma forma que as pessoas financiam cadeiras nas universidades”, explica ela.
O que está claro, é que começar com uma ficha em branco – usando as as últimas ferramentas digitais, livrando-se das prensas, e não dependendo dos anunciantes – dá às organizações jornalísticas não-lucrativas uma sensação otimista de fazer parte de lago novo, e não de uma indústria em apuros. “Sempre defendi a visão de que uma crise das instituições tradicionais não era uma crise na profissão”, diz Weber. “Sob vários aspectos, esse é um momento de várias oportunidades dentro do jornalismo”.
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