Monday, July 11, 2011

Quadrinistas dedicam Histórias em Quadrinhos às vítimas de tornado nos EUA


Projeto bancado por doações na internet reúne ilustradores consagrados com o objetivo de confortar as crianças de Joplin, Missouri, devastada em maio

Nana Queiroz
Homem carrega garotinha resgatada de destroços depois do tornado que atingiu Joplin em 22 de maio
Homem carrega garotinha resgatada de destroços depois do tornado que atingiu Joplin em 22 de maio (Mike Gullett/AP)
"Assim que ficamos seguros e protegidos, a primeira coisa que eu comprei foi uma revista de charges e tirinhas. Senti que precisávamos rir novamente”
Shelli Jones, mãe de dois filhos, que perdeu a casa no tornado de maio deste ano 
Era a hora do jantar do dia 22 de maio de 2011 quando o vento começou a bater com violência em uma pequena casa na cidade de Joplin, no estado americano do Missouri. Peter Thomas, de 10 anos, ouviu os gritos apavorados da mãe, Shelli Jones, e obedeceu imediatamente: correu para a banheira e se deitou, enquanto a mãe cobria seu corpo com um cobertor e agarrava o filho mais velho Benjamin, de 12 anos, com a outra mão. Como um castelo de cartas, as paredes da casa voaram, arrancadas pelo tornado. Alguns minutos depois, quando conseguiram abrir os olhos, Peter e sua família ficaram assombrados: da casa toda, só a banheira permaneceu intacta. A família escapou praticamente ilesa. Cinco vizinhos não tiveram a mesma sorte, e morreram. Três eram crianças. Uma estudava na mesma sala de Peter.
A 2.000 quilômetros dali, em Nova York, a jornalista Carmen Morais acompanhava com atenção as notícias sobre a tragédia. Ao ver que o número de mortos já passava de 155, ela se torturava: “Por que não cursei medicina? Agora poderia ajudar essas pessoas”. Na manhã seguinte, os jornais estamparam as fotos dos destroços de cerca de 7.000 prédios, entre casas, escolas, igrejas e hospitais. E Carman: “Por que não estudei construção civil?" Demoraria uma semana para que a jornalista fizesse as pazes com a própria profissão. Foi então que ela viu, no Twitter, o anúncio de uma loja especializada em gibis que pedia doações de livros e revistas em quadrinhos. A ideia era confortar as crianças. Foi então que Carmen resolveu: “Vou criar uma revista em quadrinhos. Isso, sim, eu sei fazer”.
Arquivo Pessoal
Shelli Jones e seus dois filhos Benjamin Thomas (à esquerda) e Peter Thomas (à direita) em um parque da cidade de Joplin
Shelli Jones e seus dois filhos Benjamin Thomas (à esquerda) e Peter Thomas (à direita) em um parque da cidade de Joplin
Na próxima semana, em meados de julho, as vidas de Carmen e Peter se cruzarão. Ele receberá a revista em quadrinhos Comics Express, que ela produziu com a ajuda de 27 artistas, ilustradores e jornalistas, para aliviar a angústia das crianças de Joplin. A novidade será bem-vinda para a família Thomas-Jones. “Peter adora quadrinhos. Aliás, lá em casa, todos nós somos viciados nessa leitura”, conta Shelli. “Assim que ficamos seguros e protegidos, a primeira coisa que eu comprei foi uma revista de charges e tirinhas.”
A produção - Para tornar real o projeto daComic Express, Carmen entrou em contato com os membros da equipe da rede de TV americana Nickelodeon, com quem trabalhou como editora por 15 anos. Aderiram 27 pessoas, entre elas os ilustradores da revistaThe New Yorker Felipe Galindo (Feggo), Robert Leighton e Karen Sneider. Os fundos para a impressão da Comic Express foramarrecadados pela internet. O volume de doações foi tamanho que, além dos 6.000 dólares necessários para produzir as 5.000 cópias que serão distribuídas em Joplin, os artistas conseguiram 1.500 dólares extras. Essa verba será usada para reabastecer com material didático as escolas da cidade. Das 18 instituições educacionais do local, 10 foram derrubadas ou parcialmente destruídas pelo tornado. 
“Muitos dos gibis de hoje não são apropriados para crianças pequenas. Como tínhamos passado tantos anos trabalhando com o tema, sabíamos fazer quadrinhos para uma audiência de uma vasta faixa etária e de ambos os sexos”, conta Carmen. “A única regra era que os quadrinhos deveriam ser bem divertidos. Temos certeza de que muitas crianças ainda estão bastante deprimidas com o que houve e nós queremos que elas se esqueçam dessa tristeza enquanto leem”.
As crianças e os traumas - Segundo Maria Claudia Lordello, psicóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a avaliação de Carmen é acertada. Crianças enfrentam traumas, como os causados pelo tornado de Joplin, de maneira muito diferente dos adultos. Como não sabem verbalizar o que sentem, elas podem sofrer mais. “É importante que essas crianças aprendam a enfrentar seus traumas e falar sobre eles em um espaço de terapia", diz Maria Claudia. "Por outro lado, é uma boa iniciativa trazer conteúdos lúdicos para que elas percebam que momentos tristes existem, mas que esses momentos passam e a vida continua, com coisas boas e situações de prazer”, acrescenta. 
Mas, nas situações de dificuldade, as crianças também podem surpreender. “O que mais me admirou nesse período de adaptação foi a coragem dos meus filhos. Eles sentiam medo, mas colocavam no rosto suas expressões de homenzinhos corajosos e encaravam tudo o que precisavam”, lembra Shelli. Hoje, a família se mudou para uma nova casa, alugada, em outra vizinhança. Eles estão reconstruindo a vida devagar, repondo cada objeto que foi levado pelo tornado. E com a ajuda de iniciativas como a de Carmen, aos poucos, vão retomando também a capacidade de sorrir. 
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