Monday, July 4, 2011

Por que os quadrinhos atuais são tão bons (e tão ruins) quanto os de antigamente


por Maurício Muniz | 9/02/2011 |
Vamos começar este texto com a seguinte frase:
"Não foi produzida nenhuma BOA história em quadrinhos de super-heróis desde o final da década de 80!"
Se a afirmação esdrúxula acima o deixou surpreso, espantado, indignado ou ao menos fez com que levantasse uma sobrancelha em incredulidade, saiba que você não seria o único. Mas, se você é do tipo que frequenta fóruns ou comunidades sobre quadrinhos na internet, já deve ter se deparado com esta frase ou alguma de suas variações. Por algum motivo, um grande número de leitores antigos acha que nada produzido ultimamente com os personagens da Marvel e da DC, os mais icônicos super-heróis dos quadrinhos, tenha algum valor.
Em grande parte, a culpa por esse tipo de pensamento é dos anos 90, também conhecidos como "o buraco negro que quase levou embora o mercado de quadrinhos." Depois que Jim LeeTodd McFarlane e Rob Liefeld fizeram os quadrinhos da Image Comics vender milhões de exemplares graças a seus desenhos, todo o mercado norte-americano quis se transformar na Image.  E a Marvel e a DC lideraram o ataque. Logo, o roteirista era um elemento dispensável para uma HQ, o importante era que houvesse um desenhista de traço atraente no título. E, aparentemente, se esse desenhista mal conseguisse desenhar corretamente a anatomia humana, melhor ainda!
Esse época negra, cheia de histórias mal-escritas, levou muitos leitores (os caras que realmente "liam" as histórias e queriam algum conteúdo, entende?) a abandonar os personagens que acompanharam durante anos. Após a explosão inicial, os novos leitores se afastaram e não demorou para as vendas de todo o mercado norte-americano (e de todos os outros mercados que publicavam Marvel e DC pelo mundo) despencarem meteoricamente e muitos previram o fim dos quadrinhos. Por sorte, os quadrinhos se recuperaram e hoje, se a indústria não alcança mais aquelas vendas de milhões de exemplares, apresenta uma maturidade nunca vista, com tramas muito boas e tentativas valorosas e corajosas de aprofundamento dos personagens.
Mas por que, então, tantos desses leitores antigos dos quadrinhos (e até muitos jornalistas) criticam as aventuras dos super-heróis de hoje, virando o nariz para elas e recusando-se a ver seus méritos?
Heróis caídos
As reclamações são várias. Uma das mais constantes é de que hoje tudo parece ser motivo para sagas enormes onde é preciso comprar dezenas de revistas de vários personagens diferentes para entender uma história. Ou que a todo momento os heróis e seus contextos são reinventados ou reimaginados, mudando elementos de suas origens para adaptá-las aos tempos e gostos atuais ou para revelar fatos até então desconhecidos de seus passados – na verdade, elementos novos que são acrescentados para criar reviravoltas naquilo que todo mundo conhecia, os chamados "retcons". Outra grande reclamação é a de que, a toda hora, os heróis morrem – de maneira gloriosa ou não – apenas para voltar à vida logo depois, período em que – expediente imperdoável para os fãs antigos – algum outro personagem assume sua identidade.
O que esse fãs nostálgicos não parecem levar em conta é que, simplesmente, os tempos mudaram. Não há dúvida de que, quando as histórias em quadrinhos de super-heróis foram criadas, elas eram um produto direcionado às crianças. Suas tramas eram simples (para não dizer simplistas), os desenhos muitas vezes eram terríveis e as histórias eram curtas, tendo seis a treze páginas em média. O herói enfrentava um problema representado pelo vilão, vencia-o e tudo acabava bem. E isso mês após mês, em todas as revistas. Com o tempo, o número de páginas aumentou, as histórias foram ficando mais complexas e os personagens e suas característias e problemas começaram a ser melhor explorados, em grande parte graças à revolução iniciada por Stan Lee e Jack Kirby na década de 60.
Mesmo assim, as histórias de super-heróis até os anos 80 ainda eram, em grande parte, direcionadas ao público infantil e infanto-juvenil. Por mais que a evolução natural tenha dado às HQs uma sofisticação de narrativa e temas, a intenção principal era continuar apelando às crianças e jovens que sempre foram os maiores compradores das histórias estreladas por sujeitos com roupas coloridas. Mas os tempos estavam mudando. Além do abismo criativo no qual o mercado se meteu nos anos 90, começaram também a surgir grandes concorrentes pelo interesse da massa jovem: vídeo games cada vez mais impressionantes, filmes com efeitos especiais deslumbrantes e, mais importante, a internet, que mudaria o mundo para sempre. Com as crianças e jovens cada vez menos interessados em gibis, as vendas baixavam e baixavam e continuariam a baixar ainda mais, se a indústria de quadrinhos não percebesse que seu público básico... os leitores que ainda continuavam comprando quadrinhos... agora eram homens por volta dos trinta anos de idade ou até mais velhos.
A opção então, foi caprichar ainda mais nas tramas e nos personagens. Se o próximo passo natural já seria contar histórias mais sombrias e sérias, a percepção de que o público agora era mais velho levou as editoras a investir mais em roteiristas e em conceitos inovadores. A ordem do dia tornou-se a necessidade de surpreender o leitor, inovar conceitos e, se possível, chocar o público com reviravoltas inesperadas. Mas isso, claro, tem um preço.
Nada de novo no front
No contexto atual das HQs, é óbvio que nem tudo funciona. A liberdade concedida aos roteiristas, para fazerem o que quiserem, leva a alguns erros e exageros. As características de alguns personagens foram mudadas, identidades secretas foram alteradas, alguns heróis morreram, outros voltaram. Casamentos foram desfeitos pelo demônio, alguns heróis ganharam filhos, outros viraram vilões e muitos vilões saíram em busca de redenção. As perdas de superpoderes foram tantas nos últimos anos que é até surpreendente que alguém ainda possa voar ou correr a alta velocidade. Sim, não há dúvida de que, mesmo se existem bons títulos no mercado, muita coisa ruim está sendo produzida. Mas, quer saber algo interessante?Sempre foi assim.
Segundo algumas filosofias afirmam, 98% de tudo que existe é uma grande porcaria. Nos quadrinhos, talvez não seja diferente. É fácil olhar para muitas histórias em quadrinhos de nossa infância e, graças à ligação afetiva que temos com elas, acharmos que eram perfeitas, ótimos exemplos de aventuras estreladas por super-heróis. Mas reler essas histórias hoje deixa claro que muitas delas eram produtos de baixa qualidade, rápidas e rasteiras, com a intenção de preencher algumas páginas numa revista para ajudar a pagar as contas daquele mês. Mesmo parte do material de Stan Lee e Jack Kirby deixa muito a desejar se relido atualmente.
Sim, sempre existiram histórias ruins de BatmanSuper-HomemHomem-AranhaCapitão América e qualquer outro herói. Mas o que acontece é que costumamos focar apenas nas histórias boas do passado ou, então, lembrar com carinho excessivo e afeto turvo daquelas aventuras ruins e resolvidas às pressas (pelos heróis e pela equipe criativa), lidas numa época em que não tínhamos um grande senso críticos. Só que, infelizmente, muitas delas eram fracas e bobas. Se não acredita, vá remexer em suas coleções antigas da EBALBlochRGE e Abril, pegue algumas histórias e releia. Mas não releia apenas aquelas histórias consideradas clássicas. Leia histórias aleatórias, de revistas diferentes. Quer apostar como vai perceber que muitas delas eram bem piores do que você se lembra?
Os quadrinhos são uma indústria que publica centenas de revistas por mês. É impossível que todo esse material seja ótimo. Mas isso não é um fenômeno atual, é uma característica da indústria desde os seus primórdios. E isso nunca mudará. A Marvel e a DC continuarão a produzir HQs aos montes, reutilizando fórmulas antigas ou "reinventando a roda", tanto quanto acharem necessário para continuar sobrevivendo no mercado. Algumas histórias serão boas, muitas serão ruins. E ainda temos sorte, porque atualmente existe muita coisa boa para ler: aventuras divertidas, bem escritas e cheias de surpresas. E, com certeza, muito melhores do que a maioria do que foi publicado na década de 90. Basta procurar nas bancas.
Se você não concorda, não há problema. O importante, no final das contas, é respeitar quem gosta das histórias publicadas hoje em dia e ter consciência de que, no passado, todos nós também já gostamos de histórias de qualidade bastante questionável. E, principalmente, saber que não havia nada de errado em gostar delas.
Fonte:

No comments: