Monday, July 4, 2011

Poesia, de Chang-dong Lee


Espectador precisa encontrar poesia em meio a uma estética feia. Por Francisco Taunay


O filme sul coreano Poesia não é fácil, uma vez que trabalha com uma espécie de material anti-poético. Além disso, é muito longo e testa a atenção do espectador, que precisa encontrar poesia em meio a uma estética feia, com uma trama que revela acontecimentos feios.
Sim, a estória da senhora Mija (uma bela interpretação de Jeong-hie Yun, grande dama da Coréia do Sul) dá uma reviravolta após ela entrar em um curso de poesia em um centro cultural perto de sua casa. Ela, que antes levava uma vida tranquila, sem maiores questionamentos, passa agora a buscar observar com mais atenção os objetos e o mundo ao seu redor, impressionada com as observações do professor acerca de uma maçã. Esse movimento traz consigo acontecimentos que passam a marcar sua vida, como palavras que vão sendo escritas em uma folha de papel, e não se pode mais apagar.
A morte de uma estudante que se joga de uma ponte, a implicação do seu neto, que morava com Mija, nessa morte, a descoberta de uma doença incurável, uma experiência de assédio sexual. Tudo isso marca a personagem em sua trajetória sem a menor poesia, amparada por uma estética pobre, de lugares feios fotografados em digital em uma textura fria, sem vida.
O som, como contraponto, revela detalhes do ambiente, sem música alguma, que parecem se confundir com a mente da personagem, algo muito bem realizado. Até a comida, preparada no filme, parece ser insossa, sem gosto.
O professor do curso de poesia diz que devemos extrair o poema do nosso próprio coração, o que tem a ver com uma espécie de originalidade de cada um, que temos a opção na vida de cultivar e revelar ou abafar com a ajuda das instituições e dos produtos requentados servidos pela mídia. Me lembra um trecho de Carlos Castañeda, n`A Erva do Diabo: Tem esse caminho um coração? Se tiver o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece.
Após fazer o espectador acompanhar todos os acontecimentos atrozes da vida da senhora Mija, ao ponto mesmo de um certo constrangimento, o roteiro premiado em Cannes revela sua poesia no último momento, quando ouvimos o poema escrito pela personagem: Ele é dito por Mija e pela menina que se jogou da ponte no começo do filme, é avassalador e parece misturar natureza e humanidade, juntando tudo em uma espécie de acontecimento Zen, numa revelação.
Ao misturar a poesia das palavras em coreano, que descobri neste momento ser uma língua belíssima, com uma filmagem que parece parar o tempo, revelando um vazio, o diretor dá o pulo do gato, empreendendo uma reviravolta na mente do espectador. Me lembrou muito o final d`O Eclipse, de Antonioni. Vou precisar ver Poesia novamente para entender melhor o filme.
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