Sunday, July 3, 2011

O "IMPERIALISMO" BRASILEIRO VISTO PELOS NOSSOS VIZINHOS




Já falei algumas vezes no PRAGMA sob a crescente percepção, por parte de determinadores atores políticos em alguns países da América do Sul, de que o Brasil é um “gigante imperialista”,revestido de “boas e construtivas” intenções. A aquisição de empresas locais por grandes grupos brasileiros nos últimos anos, em países como a Argentina, a Bolívia e o Equador -especialmente nos setores de energia, mineração e construção civil -, vem sendo utilizada pelos governos desses países como instrumento de retórica e de propaganda da afirmação dos interesses nacionais frente à intromissão brasileira, gerando um crescente sentimento de “anti-brasilidade” na opinião pública desses países – além de, claro, acobertar e desvir a atenção do público interno para os grandes problemas de gestão desses governos…

Com a eleição do ex-bispo católico Fernando Lugo à Presidência do Paraguai – diga-se de passagem, quebrando décadas de dominação do Partido Colorado -, o sentimento de “anti-brasilidade” retorna com força total no cenário da política guarani. Vale lembrar que durante toda a campanha eleitoral, Lugo bateu pesado no que chama de “tratado draconiano” que define a compra da energia paraguaia por parte do Brasil, produzida pela Hidrelética de Itaipu – um empreendimento bilateral construído durante a época de regimes militares nos dois países.

Para os meus leitores não acharem que tudo isso é fruto da mente “paranóica” desse Escriba que vos fala, reproduzo abaixo a entrevista do diretor do principal jornal do Paraguai, o ABC Color. Durante toda a campanha, o periódico esteve ao lado de Lugo, e constantemente seus editoriais são bastante críticos e cáusticos quando o assunto é a ação do “imperialismo brasileiro” no Paraguai. Essa entrevista foi publicada no último dia 22/04/08, no periódico brasileiro Valor Econômico.

Leiam abaixo a entrevista, e tirem vocês mesmos as suas conclusões…

“O principal jornal do Paraguai, o “ABC Color”, é também o mais agressivo crítico do tratado de Itaipu e da relação entre o país e o Brasil. Fundado há 41 anos, o diário em formato de tablóide que circula em todo o Paraguai é o maior porta-voz (ou fomentador, depende do ponto de vista) de um sentimento relativamente corrente no país de que o Brasil é acima de tudo uma nação imperialista e exploradora do povo paraguaio.

O diretor do jornal, Aldo Zucolillo, 78 anos (mas ele aparenta ter uns dez anos a menos), filho de argentinos e neto de italianos, é considerado um dos mais importantes formadores de opinião no Paraguai.

Nos editoriais, ele e sua equipe não deixam dúvidas sobre a visão que nutrem do Brasil. No domingo, dia das eleições nacionais, o “ABC Color” cravou como sua manchete: “O Brasil explora o Paraguai em Itaipu”. Na última semana de fevereiro, num editorial que cobria toda a primeira página, o “ABC” classificava o Paraguai não como “sócio do Brasil” em Itaipu, mas como seu “escravo”. Dias atrás, num outro editorial, lamentou que o destino do Paraguai estaria traçado por sua proximidade geográfica com o Brasil. Nas eleições, Zucolillo e o jornal apoiaram Lugo.

Em entrevista ao Valor, no sábado, Zucolillo falou da relação com o Brasil, de política interna, de Lugo e do tema que faz sucesso em suas páginas: Itaipu. A seguir, leia os principais trechos dessa entrevista. (MMS)

Valor: Que tipo de imagem os paraguaios têm do Brasil e das relações com o Paraguai? Aldo Zucolillo: Que o Brasil é um país imperialista, explorador, que aproveitou a oportunidade quando as duas ditaduras militares e assinaram um acordo [sobe Itaipu] em prejuízo direta do povo paraguaio. Por dinheiro. O governo brasileiro subornou [o ex-ditador paraguaio Alfredo] Stroessner e seu governo para assinar esse tratado. Ninguém, nenhum governante são, assinaria algo como isso. Foi somente pelo dinheiro.

Valor: O que o senhor considera preço justo para a energia paga pelo Brasil ao Paraguai? Zucolillo: O preço de mercado.

Valor: Por que motivo o “ABC Color” optou por essa linha editorial crítica não só sobre Itaipu, mas também sobre o Brasil? Zucolillo: Porque nós somos bobos, mas não tanto. Só porque se firmou um tratado – entre dois ditadores -, nós não temos o direito de reclamar dele?

Valor: O Brasil prejudica o desenvolvimento do Paraguai? Zucolillo: Totalmente, totalmente. Porque é uma potência imperialista. O Brasil não vai permitir nunca que o Paraguai se desenvolva. Todos os dias há provas disso. [Ele pega a edição de sábado do "ABC Color" e lê o título de uma matéria sobre uma fila de caminhões paraguaios com dificuldades para passar pela Receita Federal brasileira: "Mil caminhões parados no Brasil"]

Valor: Esse imperialismo se expressa de que forma? Zucolillo: Mil formas. Os caminhões parados, são um exemplo. Depois, há o suborno das autoridades paraguaias. Você sabe que aqui, no paraíso da energia hidrelétrica, temos apagões porque não há transmissão segura. O Brasil suborna as pessoas da Ande [a companhia de energia paraguaia] para que eles não façam melhorias na rede.

Valor: Essa tem sido a política dos governos brasileiros? Zucolillo: Essa é a política do Itamaraty. Sabe qual é o pensamento do Itamaraty sobre até onde chega o Brasil? Até onde um brasileiro puder chegar. São as fronteiras flexíveis. Qual é fronteira do Brasil? Até onde um brasileiro puder chegar. O Brasil é extremamente astuto e não tenho dúvida que será uma potência mundial, porque tem uma liderança fantástica, uma cabeça fantástica. O Brasil já comprou o cimento da Argentina, já comprou a YPF. O Brasil vai comprar tudo. O Brasil tem essa filosofia, não vai permitir que o Paraguai se desenvolva.

Valor: O governo brasileiro diz que ajuda e se interessa em ajudar o desenvolvimento do Paraguai… Zucolillo: O que mais diria?

Valor: Qual seria o interesse do Brasil de não desenvolver o país? Zucolillo: Primeiro, para que o Paraguai não consuma a energia de Itaipu. Depois, para impedir que o Paraguai adquiria força econômica. Porque se nós desenvolvermos o setor agrário, precisaremos de indústrias e precisaremos de energia. Então, não deixam que o setor agrícola se desenvolva.

Valor: Foi Itaipu que fomentou esse sentimento de que Brasil tem um comportamento imperialista? Zucolillo: Claro que sim. Antes, as relações eram perfeitamente normais. Itaipu é uma máquina de subornar, dando dinheiro em efetivo para os governos. Para uns mais e para outros menos. E isso dependendo de como está a opinião pública. Se está muito brava, dá mais dinheiro. Se está calma, menos dinheiro. Sempre Itaipu. Itaipu é a grande corruptora do Paraguai.

Valor: Itaipu não ajudou o desenvolvimento do Paraguai? Zucolillo: Claro, inevitável, não há dúvida. Só que surgiu um grupo de empresários e políticos denominado barões de Itaipu. Eles ficaram bilionários, elevando os custos das empresas. Esse era o preço do suborno que o Brasil pagava para o governo paraguaio. Os empresários eram todos testas-de-ferro de políticos. Ganhavam 1.000 no contrato e tinham de dar 500 para eles.

Valor: O fato de que grande parte da produção de soja está nas mãos de brasileiros é algo que incomoda os paraguaios? Zucolillo: Não. Incomoda os sem-terra, as ONGs, a mesma merda [sic] que vocês tem no Brasil. Essa mesma escória. Falam sobre os agrotóxicos e não sei o que mais. É a mesma história.

Valor: O jornal apoiou a aliança entre liberais e Lugo? Zucolillo: Não, mas eu sim. Que se unam para limpar isso. Essa gente converteu o país num esgoto.

Valor: E é possível pensar num governo juntando os liberais e a esquerda paraguaia? Zucolillo: Tivemos até agora uma sociedade monolítica. Eles são os donos e nós, os escravos. Então, que venha Lugo, que briguem, que confrontem as idéias entre os da esquerda, da direita, dos de cima, dos de baixo. E, se o povo quiser se marxista, que seja. É isso.”

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