Sunday, July 3, 2011

LAERTE FALA SOBRE A CARREIRA DE QUADRINISTA




FERNANDA BASSETTE, DO G1, EM SÃO PAULO



Exemplo de tira do Laerte; veja tira completa no infográfico
Consagrado como quadrinista e ilustrador e autor dos personagens “Piratas do Tietê”, Laerte Coutinho começou a carreira profissional em 1973, aos 22 anos, e segue como profissional da área até os dias de hoje. Mesmo com a agenda lotada de compromissos, Laerte arrumou um tempinho e conversou com o G1 para falar sobre a carreira do profissional de charges, cartuns e quadrinhos. Leia abaixo trechos da entrevista:



G1 – Com que idade você percebeu que tinha o dom para desenhar? E como começou a sua carreira?
Laerte Coutinho - Tinha 22 anos quando comecei a fazer ilustrações para a revista "Banas" e a receber por isso. Antes, de várias maneiras, eu estava esquentando a bateria, fazendo fanzines, desenhos para o jornal do centro acadêmico, lendo muito livro, muita revista. Conhecendo gente como eu também: o Angeli, o Alcy. De cursos, fiz um pouco da Panamericana, por correspondência. Tinha 14 anos. Não cheguei a concluir nenhum tipo de ciclo. Daí fiz três anos de um curso livre, na FAAP, onde fazíamos desenho, pintura, teatro. Esse último talvez tenha sido de uma importância muito mais decisiva do que os dois primeiros para o que faço hoje. Foi assim que algo que era uma atividade de criança e um modo de expressão fecundo na adolescência foi ficando parecido com trabalho. Mas não foi nada muito claro, e nem agora é para falar a verdade.
G1 - Quais são as principais dificuldades da carreira de um quadrinista, ilustrador, chargista?
Laerte - A principal dificuldade é publicar, claro. Tornar-se conhecido para as editoras, veículos, jornais. É um processo demorado. E a dificuldade paralela é responder a esse chamado por “eficiência” ao mesmo tempo em que se deve cuidar do próprio desenvolvimento como artista - não se perder, conseguir ver com clareza a natureza do seu caminho, cultivá-lo. Porque é um tipo de atividade onde cada indivíduo tem um procedimento diferente.
G1 - Quanto tempo demora para fazer um desenho? De onde vem a inspiração?
Laerte - Tomando como exemplo uma tira, o tipo de trabalho que faço com mais freqüência: um mínimo de meia hora e um máximo de duas. Já fiz tiras bem mais demoradas. Ter a idéia e fazer o desenho são ítens difíceis de medir. Inspiração para mim é uma busca dentro de um universo mais ou menos conhecido de possibilidades. Nada muito esotérico.
G1 - Você fez faculdade de artes? Ou fez algum curso relacionado às artes?
Laerte - Entrei em Comunicação na USP para fazer cinema ou teatro, mas acabei fazendo música; abandonei o curso para começar a trabalhar com desenho, depois voltei à ECA [Escola de Comunicação e Artes da USP] para fazer jornalismo, que tampouco terminei.
G1 - Sentiu falta de uma faculdade que oferecesse uma formação em "produção de charges, cartuns e quadrinhos"?
Laerte - Não existe necessidade de uma faculdade para esse tipo de formação. Normalmente a formação necessária e suficiente é informal. Esse tipo de trabalho corresponde a uma busca pessoal. Não é arte, mas nesse sentido se aproxima da arte.
G1 - A Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, está com essa proposta. Qual a sua opinião?
Laerte - Acho que pode ser bacana, apesar do que disse logo antes. De novo fazendo um paralelo, uma faculdade de artes plásticas não pode garantir formar artistas. Nada pode dar essa garantia. Mas esta faculdade pode contribuir para que cartunistas, desenhistas e humoristas aprimorem o trabalho, expandam os horizontes, conhecendo múltiplas experiências, produzam material impresso e discutam a natureza da atividade e que futuros (ou atuais) editores compreendam o papel da ilustração nas publicações e projetem novos caminhos, em novas mídias, etc. Mas penso o seguinte: a formulação ''charges, cartuns e quadrinhos'' já é uma limitação. Talvez fosse melhor colocar o eixo de tudo em ''humorismo'' ou acrescentar esse eixo, já que muitas formas de quadrinho não são da área do humor.
G1 - É possível "aprender" a fazer charges, cartuns ou quadrinhos na faculdade?
Laerte - Não, não é possível. Nos anos 80, houve um congresso dos jornalistas em São Paulo, onde a regulamentação da profissão estava em cheque. Fiz parte do grupo que defendia a extinção da obrigatoriedade de diploma para o registro profissional. Outro grupo, do qual fazia parte o presidente da Federação Nacional de Jornalismo (Fenaj), manipulou a discussão da comissão específica e apresentou em plenário uma proposta exatamente contrária: estender a obrigatoriedade de diploma a todas as funções, incluindo fotógrafos, ilustradores, chargistas, todo mundo! Estávamos indignados porque não conseguíamos conter o corporativismo delirante dos donos da mesa. [...] Depois de algum tempo, vimos a proposta ser retirada.
G1 - Como você enxerga o mercado de trabalho hoje? Dá para ganhar bem trabalhando apenas nessas áreas?
Laerte - Dá sim. Da mesma forma como dá para ganhar bem em qualquer área de produção intelectual autônoma. A pujança da área depende de um monte de coisas mais ou menos objetivas como existência de leitores, de mídia e da ação dos criadores. Uma escola pode estimular este mercado de muitas formas.

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