Thursday, July 14, 2011

Entrevista com o quadrinista André Dahmer


Essa matéria foi publicada na Edição 432 do Jornal Inverta, em 27/01/2009
O INVERTA entrevistou um dos grandes quadrinistas da atualidade, que vem através de temas polêmicos conquistando cada vez mais seus leitores. André Dahmer, 34 anos, carioca, é formado em DesenhoIndustrial pela PUC-RJ. Começou nas Belas Artes e saiu por problemas de vigor na academia, começou a fazer quadrinho em 2001, época em que estava na pintura, mas como queria muito escrever e os quadrinhos, conseguia juntar as duas coisas, dedicou-se a eles. Dahmer tem atualmente 3 livros lançados, um site com tiras, além de publicar seus trabalhos em jornais do Rio e São Paulo. Tem em mente um mundo no qual as coisas deveriam ser feitas com amor e humanidade. Acredita que o único país que tem condições para isso, é Cuba.
Entrevista com o quadrinista André Dahmer

Entrevista com o quadrinista 
André Dahmer


O INVERTA entrevistou um dos grandes quadrinistas da atualidade, que vem através de temas polêmicos conquistando cada vez mais seus leitores. André Dahmer, 34 anos, carioca, é formado em DesenhoIndustrial pela PUC-RJ. Começou nas Belas Artes e saiu por problemas de vigor na academia, começou a fazer quadrinho em 2001, época em que estava na pintura, mas como queria muito escrever e os quadrinhos, conseguia juntar as duas coisas, dedicou-se a eles. Dahmer tem atualmente 3 livros lançados, um site com tiras, além de publicar seus trabalhos em jornais do Rio e São Paulo. Tem em mente um mundo no qual as coisas deveriam ser feitas com amor e humanidade. Acredita que o único país que tem condições para isso, é Cuba.

IN - De onde veio o interesse por quadrinhos?
AD - Até 2001 conhecia e lia pouco quadrinhos, eu lia um pouco de Chiclete com Banana, Laerte, Angeli, um pouquinho de Will Eisner, quando era bem garoto lia uns quadrinhos de herói, mas muito pouco, cheguei a ler Mortadela e Salaminho, Asterix, Tim tim, porém não tinha nenhum conhecimento sobre os quadrinhos. Fui mexer com quadrinhos como todas as outras coisas que aprendi, como autodidata. Eu acho que a única explicação que eu tenho é que foi muito por acaso. Fui fazendo e depois que fiz 100 tiras, alguém começou a pedir para publicar num livro em 2003/2004, foi meio sem querer. Hoje sou quadrinista.

IN - De acordo com o que se lê em suas tiras, temas como sociedade, conflitos psicológicos, críticas ao capitalismo e valores burgueses, você tem alguma base ideológica como influência?
AD - Definitivamente não sou um cara dado ao neoliberalismo, tão pouco sou um cara que tem fé ainda na organização do Estado para reger a vida das pessoas pura e simplesmente através da força. Eu acredito que ainda vá existir um sistema político mais avançado que nos deram até hoje. Tenho grande fé que possamos nos organizar de uma maneira mais humana, e essa maneira mais humana certamente não consegue contemplar essa lógica de capital, de mercado e essa lógica do consumo e eu sou uma pessoa que acredito que o maior mal e fonte de todo mal da nossa sociedade é a questão do consumo, do poder das corporações. Acho que a grande luta é para que essas corporações não passem a reger o nosso modo de vida, não passem a ser o fomentador da nossa cultura, acho que as pessoas perderam lugar de fomentador da cultura para essas grandes empresas que patrocinam todos os eventos, que criam e roubam essas culturas de rua que são facilmente assimiladas por essas empresas que transformam o hipo-hop, o grafite, a cybercultura em uma oportunidade pura e simples de lucro e nessa transformação perde-se a essência desse movimento, que são movimentos legítimos.
IN - Na série “2035” você relata o planeta Terra depois de sua autodestruição, sendo explorado por uma nave tripulada por uma geração de sobreviventes, e que procura sinais da vida na terra. E em “Encontro anual dos donos do mundo” você mostra uma reunião entre burgueses sobre suas empresas. Você vê alguma saída para a destruição do meio ambiente e as guerras?
AD - Acho que esse caminho é o caminho da não-violência, do entendimento de que o outro está ali como ser humano, ele não é parte só de uma paisagem urbana, que a pessoa que está deitada no chão não é apenas mais um deitado no chão. A gente está vivendo um momento muito difícil, da obrigação do comprar, de demandas que não são nossas, de vontade que não são nossas - o carro do ano, o apartamento de frente para o mar. O que adianta ter um apartamento de frente para o mar se a gente não vai ter paz para morar nesse apartamento, se nossos filhos não vão ter segurança para andar na rua. Existe um processo que deve ser entendido com clareza de que o mundo é uma coisa só, que meu filho são os seus filhos, que o filho do outro também é meu filho. Se você passar a considerar o filho do outro seu filho, você não vai deixar ele ficar sem escola, você não vai deixar ele passar fome, a gente tem que parar de delegar responsabilidade ao Estado o tempo inteiro. Mas existe uma questão primordial, que esse caminho da violência é tudo o que querem essas pessoas que vivem da indústria do cimento, da indústria do aço, a gente pode fazer melhor que isso, a revolução pode ser melhor que fomentar uma guerra ou jogar avião contra os americanos, existe uma revolução, que é a revolução de reconhecer no outro o que você é, eu acredito muito nisso. Eu não acredito que a saída para a guerra do petróleo seja a plantação de cana-de-açúcar em larga escala. Eu acredito que a mudança benéfica para todos nós seria a mudança de orientação em relação ao transporte de massa. A gente tem tecnologia para fazer, energia limpa para um transporte de massa de qualidade.

IN - Qual sua maior influência nos Quadrinhos?
AD - No quadrinhos tenho como maior orientação o Laerte e o Angeli. São os que abriram o caminho para o meu quadrinho. Tenho poucas referências no quadrinhos. Até falo do Jaguar, do Nani, do Henfil, merecem ser mencionados.

IN - Com o crescimento do mercado de quadrinho e a facilidade no acesso a esse tipo de informação com a internet, o que você espera daqui para a frente?
AD - A tecnologia pode fazer coisas horríveis e pode fazer coisas muito bonitas, eu aprendi a não ter fobia de tecnologia. Ela pode ser um agente tranformador, claro que sem uma formação ética ninguém vai fazer tranformação nenhuma através de tecnologia, as coisas devem andar juntas, a gente sabe que a tecnologia anda mais rápido que a discussão ética das coisas, mas eu tenho grande esperança de que surja um novo modo de trabalho, que não necessariamente sustente um sistema de concentração de renda. Eu já lhe contei que consegui tirar o atravessador do meu caminho, que ganhava parte do meu dinheiro, dos meus livros; através da internet, cada um tem seu caminho, eu não sou uma fórmula, também não sou uma pessoa rica, não ganhei muito dinheiro, só que existe outro caminho, não da exploração pura e simples, um jornalista não precisa opinar sempre com o que a redação manda, a gente sabe hoje que tem pessoas maravilhosas fazendo coisas em música, fotografia, artes plásticas, cinema, por causa da rede, eu coloco muito as minhas fichas nesse novo meio de trabalho, acredito que vão surgir coisas maravilhosas dentro das artes plásticas dentro da fotografia da animação com essa liberdade da tecnologia, acredito que essas pessoas vão viver bem através desse novo modo de trabalho.

IN - Com base no que já foi feito por você, quais seriam os planos para o futuro?
AD - Vou lançar agora um livro de poesia, devo lançar um breviário com as frases que fiz de quadrinhos, separados por tema, guerra, mulheres, sexo. Ela vai catalogar as frases que fiz por tema, e tem um livro do Ulysses (personagem de uma série) para lançar em 2009. São três livros.

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