Friday, July 8, 2011

Como tornar as universidades mais baratas?


Mudanças na gestão podem fazer com que as universidades norte-americanas produzam mais com custos muito menores

8/07/2011 
Derek Bok, um ex-presidente da Universidade de Harvard certa vez observou que “as universidades têm uma característica em comum com jogadores compulsivos e famílias reais exiladas: nunca há dinheiro suficiente para satisfazer seus desejos”. Essa declaração é injusta com jogadores compulsivos e famílias reais. As universidades dos Estados Unidos aumentaram suas mensalidades de maneira cinco vezes mais rápida que a inflação nos últimos 30 anos. As dívidas estudantis no país ultrapassam as dos cartões de crédito. Ainda assim, as universidades continuam a mandar cartas a ex-alunos e filantropos, implorando por doações.
Esse insaciável apetite por dinheiro foi bastante prejudicial durante os anos de boom, e se tornou extremamente irritante agora que as rendas da classe média estão estagnadas, e os estudantes estão lutando para conseguir bons empregos, o que deu origem a toda uma nova enxurrada de ideias sobre a educação superior. Seriam as universidades inevitavelmente caras? Vance Fried, da Oklahoma State University, recentemente conduziu um fascinante experimento, com base em cálculos detalhados. É possível oferecer uma educação universitária de alto nível por US$ 6.700 anuais ao invés dos US$ 25.900 cobrados pelas universidades de pesquisa pública ou os US$ 51.500 cobrados por suas equivalentes privadas? Ele concluiu que sim.
Fried abriu mão de soluções fáceis. Ele insistiu na ideia de que os estudantes devem viver em universidades residenciais, como fazem em Harvard e Yale. Ele não sugeriu que as universidades abandonassem seus estádios (que costumam se pagar por si próprios) ou limitar alimentação ou acomodação.
Suas estratégias de cortes de custo começaram pela separação financeira do ensino e da pesquisa. A pesquisa é um bem público, mas não há porque estudantes pagarem por ela. Ele também sugere um aumento na proporção de estudantes e professore. Faculdades de direito e administração conseguem bons resultados com classes grandes. Por que o mesmo não acontece com outros cursos? Fried acredita que as universidades serão capazes de misturar classes pequenas e grandes , mesmo com menos professores. Em terceiro lugar, é importante eliminar programas e cursos que não atraiam muitos estudantes. Por fim, deve-se diminuir o inchaço administrativo. O custo da administração por estudante aumentou em 61% entre 1993 e 2007. Universidades de pesquisa privadas gastam US$ 7 mil por estudante em “apoio administrativo”: não apenas decanos e chefes de departamento, mas também psicólogos, orientadores, gerentes de recursos humanos e outros cargos. O custo de tudo isso é maior do que o valor total da educação de um estudante sob o modelo de Fried.
Observadores veteranos podem achar que as ideias de Fried são delirantes, mas algumas universidades já começaram a cortar custos. O novo campus da Universidade de Minnesota, em Rochester, definiu o ensino como prioridade. A Universidade de Ciência e Tecnologia de Harrisburg aboliu os benefícios para funcionários veteranos e professores titulares, e fundiu departamentos acadêmicos. Membros do conselho acadêmico da Universidade do Texas discutem anuidades de US$ 10 mil para os estudantes.
Tudo pode ser ainda mais barato
Fried deixou de mencionar uma fonte ainda maios óbvia de economia. Norte-americanos podem completar seu curso universitário em três anos ao invés de quatro. Na prática, a maioria dos universitários leva mais de quatro anos para se formar, em boa parte, porque muitos trabalham para pagar suas mensalidades. Surpreendentemente, os futuros titãs corporativos dos Estados Unidos levam dois anos para completar seus MBAs, enquanto a maioria dos europeus consegue os seus em apenas um.
Shai Reshef, um empresário educacional e filantropo tem uma ideia ainda mais radical. Sua Universidade do Povo oferece educação superior gratuita, se apresentando como uma opção para a população pobre do país e do resto do mundo. A universidade faz isso, explorando três recursos: a boa vontade dos acadêmicos voluntários que querem ajudar os pobres, a disponibilidade de “ferramentas de curso” gratuitas na internet, e o poder das redes sociais. Cerca de 2 mil voluntários acadêmicos elaboraram os cursos e deram alguma credibilidade à universidade. Tutores orientam os estudantes, que já chegam a mil e vêm de todas as partes do planeta, nos cursos online. Eles também ajudam a organizá-los em grupos de estudo, e supervisionam o trabalho à distância, levantando discussões ou marcando testes. Reshef paga por despesas ocasionais com US$ 2 milhões de seu bolso e doações.
Existe uma série de perguntas sobre o projeto de Reshef. Será realmente possível construir uma universidade com base no trabalho voluntário e na boa vontade? Os estudantes podem realmente assumir a tarefa de ensinar? Os cursos gratuitos continuaram gratuitos (basta lembrar que jornais que disponibilizavam seu conteúdo gratuitamente agora fazem uso de barreiras, exigindo pagamentos por conteúdo completo).
A universidade de Reshef ainda terá que conseguir crédito, o que pode levar anos. Mas como diz Clayton Christensen, em seu clássico livro “The Innovator’s Dilemma” (“O Dilema do inovador”), os inovadores quase sempre começam oferecendo produtos mais baratos, e reconhecidamente de qualidade inferior. Rapidamente, no entanto, eles aprendem a melhorar suas ofertas. Nos Estados Unidos um décimo dos universitários estuda exclusivamente online. Um quarto deles, faz uso de cursos online em algum momento, e um número cada vez maior de organizações, incluindo universidades de elite, usinas de ideias, governos e órgãos internacionais, estão disponibilizando material de alto nível online.
Às vezes quando acadêmicos que “nunca há dinheiro suficiente”, eles têm um porquê – grandes projetos científicos são caros. Mas a educação superior é, de qualquer forma, marcada por ineficiências e incentivos distorcidos. Estudantes pagam para ser ensinados, mas seus professores são recompensados quase que inteiramente pela pesquisa. Os cálculos de Fried sugerem que é possível cortar custos sem sacrificar muito do que é considerado valioso pelos estudantes. O experimento de Reshef pode falhar, mas não há dúvidas de que as universidades precisam de mais experimentos. Os custos das mensalidades não podem crescer para sempre em uma velocidade maior que a habilidade dos estudante em pagá-las. Indústrias que deixam de oferecer valores por dinheiro sofrem abalos mais cedo ou mais tarde, e parece ter chegado o momento das universidades norte-americanas.
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