Friday, June 10, 2011

Quadrinhos na inclusão social

Talento

Inserida em: 2/1/2006

Wellington Torres Junior

Com o objetivo de levar à tona o tema da inclusão social, o desenhista Wellington José Chagas Torres Junior, de 36 anos, criou a Gazoo, uma revista de histórias em quadrinhos que aborda a questão, sem levantar bandeiras políticas, mas com o propósito de marcar presença no imaginário de crianças e adultos com e sem deficiência. "A idéia é fazer as pessoas rirem e pensar de forma consciente", diz Wellington que é deficiente físico por seqüela de poliomielite.

Wellington criou o personagem - o para-capitão Gazoo - há dezoito anos para ilustrar a camisa de uma equipe de basquete em cadeira de rodas. O desenho fez tanto sucesso que ganhou vida própria. Hoje, virou revista, tem site oficial (www.revistadogazoo.com.br) e, em breve, entrará nas telas dos cinemas. Gazoo é símbolo de coragem de seu criador. "Ele é feliz mesmo que uma situação lhe seja desfavorável, se dá mal ou se dá bem como qualquer pessoa. Mas é um herói de seu tempo, que se supera dia a dia", conta o autor.

Otimista e sempre disposto a fazer o melhor para si e para todos, Wellington acredita que a deficiência não interfere na felicidade de uma pessoa. "Tudo depende do modo como você encara suas limitações e o rumo que você quer dar para sua vida."

Wellington é casado e pai de um filho de 1 ano e nove meses. Trabalha com computação gráfica, prestando serviços para fábricas de embalagens e agências de publicidade. Nesta entrevista, o desenhista que nasceu em Ilhéus (BA), viveu um tempo no Rio de Janeiro e mora atualmente no Espírito Santo, fala de suas conquistas, da revista Gazoo, de preconceito e inclusão.

Fale um pouco mais sobre o Gazoo. Do que a revista trata exatamente?
O Gazoo surgiu para ilustrar uma camisa de uma equipe de basquete em cadeira de rodas, mas fez tanto sucesso que ganhou vida própria. No site do Gazoo eu conto essa história com mais detalhes (www.revistadogazoo.com.br). A revista retrata situações do cotidiano, aventuras fantásticas, releituras de clássicos, tudo da ótica de um portador de deficiência, bem humorado, irônico de vez em quando, mas comum, como qualquer pessoa que vive e sonha em busca da felicidade.



De onde vem o nome Gazoo?
O Gazoo é um pouco meu alter-ego, com exageros. As suas situações cotidianas são como as minhas ou a de muitos outros "cadeirantes". A diferencia é que ele como personagem de história em quadrinhos, pode viver aquilo que para nós é só um "sonho maluco", do tipo salvar mocinhas de dragões e ter uma cadeira que voa. Enfim, o limite não existe.

A revista foi lançada em setembro do ano passado. Você já teve algum retorno do público?
Todos que conhecem o personagem passam a gostar dele. A revista está sendo distribuída em associações, entidades como a Rede Sara e em algumas escolas. O objetivo dos 20.000 exemplares publicados com o patrocínio da Eletrobrás foi atingir a todos, deficientes ou não. Temos recebido sugestões para acrescentar outros personagens com deficiência e acho essa idéia muito legal. Meu sonho seria que outros portadores falassem de suas deficiências também. A idéia é que a Gazoo faça sucesso e venha a ser veículo para estas outras "visões", pois a proposta dela é justamente integrar. Esse primeiro número da Gazoo foi feito por mim e contou com a participação do também desenhista, Reinaldo Weissman, que trabalhou com a Xuxa. As histórias foram escritas pelo Wagner de Assis e Vivian Perl, que além de produtores da revista, são roteiristas do filme do Gazoo, o qual estamos trabalhando para viabilizar a produção para 2006.

Como você pretende dar continuidade nesse trabalho?
Além buscar uma editora que viabilize a continuação da publicação da revista, estamos com um projeto de transformar o Gazoo em um longa para o cinema, usando técnicas de animação em 3D interagindo com atores reais. Se conseguirmos concretizar as propostas de patrocínio, que estamos em negociação iniciaremos a produção ainda em 2006.

Além da revista e do filme, tem algum outro projeto em vista?
Além desses, os únicos projetos são continuar trabalhando e estudando computação gráfica, curtir a esposa, filhote e, se Deus quiser, tirar umas férias em 2006. Mas se o filme sair antes, não me incomodo de adiar as férias para mais um ano....(risos).

E com relação à educação. Como foi a relação com os colegas de classe e com os professores?
Eu sempre estudei em escola regular. Geralmente minha família escolhia colégios com formações religiosas para com isso facilitar a minha aceitação por parte de professores e alunos. Todos sempre me tratavam com cuidado e respeito. Aconteciam situações engraçadas, pois como eu precisava de ajuda para ir ao banheiro, havia disputa para saber quem me acompanharia. Com isso, "gazearíamos" um período de aula. Por coincidência, sempre tinha vontade de ir ao banheiro quando a aula era por assim dizer "desinteressante".

Como você analisa atualmente a questão da inclusão das pessoas com deficiência na sociedade?
Eu vejo com muita naturalidade. É evidente que ainda temos muitas coisas a conquistar, mas hoje a sociedade é mais serena e receptiva ao tema. A grande barreira a ser vencida nos próximos anos é preparar o deficiente para ser incluído, pois apesar de sermos mais de 15% da população, quase 90% deste público vive na linha, ou abaixo da linha de pobreza. O que é uma calamidade, não por serem deficientes, mas porque se algo não for feito, mesmo que surjam as oportunidades reivindicadas pelos movimentos, infelizmente eles não terão acesso a elas. Gastos em educação, saúde ou transporte para pessoas portadoras de deficiência, devem deixar de ser encarados como custo social, pois são investimentos sociais.



Você já sofreu algum tipo de preconceito?
Eu sempre tive uma postura tranqüila com relação a isso. Eu sempre marcava as entrevistas de emprego por telefone, sem mencionar que era deficiente e como meu trabalho é visual, o fato de ser ou não deficiente contou pouco. O que aconteceu comigo, mas é compreensível, foi a resistência da minha sogra em aceitar que a filha dela se casasse com um deficiente. Mas eu entendia, pois convenhamos, é complicado aceitar de primeira uma situação dessas. Já não foi fácil para nossos pais, imagina para alguém que nunca conviveu com isso. Graças a Deus, contornamos a situação e temos uma relação bem legal hoje, pois ela vê que a filha dela é feliz e o neto é lindão.


Como é a acessibilidade nos lugares públicos e privados do Espírito Santo?
Eu já morei no Rio de Janeiro e hoje moro no Espírito Santo e acho que existe um padrão. Cidades grandes estão tentando se adaptar, mas é difícil ir além de calçadas com rampas quando falamos de construções e ruas antigas. Já quando se trata de obras recentes, eu tenho percebido um respeito a legislação para construção de obras com adaptações e acessos. Tem muito mais para se fazer, do que já foi feito, mas as coisas estão caminhando. Acredito que seria bem legal colocar alguns gerentes de lojas ou arquitetos em cadeiras de rodas por um tempo, para fazer um test drive de suas lojas e prédios, no mínimo seria educativo.

Quais são seus planos para o futuro?
Tenho sonhos, mas não faço planos a longo prazo, a bíblia tem um versículo no livro de Mateus que diz "... a cada dia basta o seu próprio mal". Isso me ensinou a tentar fazer o meu melhor HOJE. Isso faz com eu crie perspectivas para amanhã, se elas se concretizarem, darei um passo em direção aos meus sonhos. Se não acontecerem, tudo bem, não fico ansioso e sim, tranquilo com a certeza de ter feito o melhor.

Gostaria de deixar alguma mensagem?
Você pode ter as pernas mais velozes do mundo, mas se não sabe pra onde quer ir, elas lhe serão inúteis. E se sabe onde quer ir, tenha humildade para perguntar qual é o caminho, pois assim, vai evitar ficar cansado tentando chegar lá por conta própria, ou correr o risco de nunca chegar, por ser arrogante demais em achar que pode tudo sozinho. "Confie em Deus, confie também em mim" Disse uma vez o Cristo.


Fonte:

http://sentidos.com.br/canais/materia.asp?codpag=9490&codtipo=1&subcat=54&canal=talento

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