Saturday, June 25, 2011

QUADRINHOS: LITERATURA GRÁFICO - VISUAL



Lien Ribeiro Borges[1]

Resumo
As histórias em quadrinhos, enquanto literatura gráfico-visual, possuem mecanismos intrínsecos que permitem uma abordagem de sua narrativa como capaz de contribuir para o desenvolvimento da capacidade de análise, interpretação e reflexão do jovem leitor.
Palavras-chave
Histórias em quadrinhos. Linguagem verbal e não-verbal. Literatura.
 Abstract
As graphic-visual literature, comics possess intrinsic mechanisms that allow an approach to its narrative as capable of conducing the development of the analysis capacity, interpretation and the young reader’s reflection.
Key Words
Comics. Verbal and non verbal language. Literature

Introdução.

É possível verificar, através da análise dos elementos que constituem os quadrinhos, se observados nos aspectos estéticos responsáveis pela narrativa, que estes englobam os aspectos visuais, lingüísticos e até sonoros das produções audiovisuais. Basta, por exemplo, que se focalizem as onomatopéias e a representação da fala que ocorrem neste gênero.
No mundo contemporâneo, a técnica narrativa que une a imagem ao texto vem tomando proporções cada vez maiores, permitindo à imagem a materialidade de linguagem que não apenas reflete, mostra ou ilustra uma realidade, mas que, principalmente, significa, o que nos permite interpretar a imagem por sua expressividade enquanto linguagem capaz de sugestionar e/ou emocionar.
Nas histórias em quadrinhos, através da união de elementos verbais e icônicos, podemos verificar uma dupla articulação da linguagem. A técnica narrativa da história em quadrinhos envolve uma complexa relação entre dois canais, visuais e lingüisticos, que permite ampliar as possibilidades de encaminhamento da mensagem e as perspectivas de recepção pelo destinatário.
As histórias em quadrinhos só há pouco tempo passaram a ser consideradas uma forma de arte, ocupando lugar importante em nosso sistema cultural, dividido, porém, entre as cadeiras de “Belas-artes” e “Belas-letras”. Recordando as palavras de Bernard Toussaint: (Communications, n. 240/ Didier 1994: 109) “(...) A história em quadrinhos engendra uma monstruosidade tipográfica, meio desenho, meio escrita, que lhe é própria e que perturba factualmente a concepção ainda bem viva da classificação das artes ( Escrita/Pintura/Música e etc.)”.
É fato incontestável, porém, que a história em quadrinhos, antes considerada infraliteratura, subliteratura, paraliteratura, assume hoje o caráter de arte e - por que não? - literária, capaz de revelar um extraordinário conteúdo ideológico, sociológico, narrativo e mitológico, com o privilégio da criação e da modernidade. Mesmo que este caráter artístico tenha sido criado a partir do relacionamento entre os meios de reprodução e consumo, que vêm provocando mudanças radicais e novas posições estéticos-informacionais para a obra de arte, os quadrinhos representam hoje um dos suportes da escrita diante dos fantásticos atrativos do audiovisual. Os jovem leitor encontrado em nossas escolas de primeiro e segundo graus apresenta, muitas vezes, dificuldade para adquirir hábitos de leitura, pois é constantemente envolvido pelos atrativos oferecidos por diferentes mídias; os quadrinhos, enquanto literatura, podem se tornar excelente instrumento para iniciar neste jovem o precioso habito de ler e a habilidade de interpretar.
Pensando-se nestes fatos, torna-se crescente a necessidade de dar um tratamento crítico a esta “nova” literatura gráfico-visual.
1 - As linguagens dos quadrinhos

A história em quadrinhos introduziu uma nova forma de narrativa que tem como ponto principal a união de duas linguagens, uma não-verbal e outra verbal, o que lhe confere um grande potencial criativo e comunicativo.
A imagem nos quadrinhos, assumindo o papel de linguagem, pode ser interpretada e adquirir sentidos dentro do contexto social em que se encontra inserida. Se o sentido de uma palavra é o conjunto de suas relações possíveis com outras palavras(Todorov 1969: 58), o sentido de uma imagem será o conjunto de suas relações possíveis com as outras imagens que ela sugere: ao se isolar um sentido de um conjunto de outros, estaremos interpretando.
Segundo Neiva Júnior, a imagem tem a propriedade de referência em comum com a língua, diferindo, no entanto, nos elementos de leitura, principalmente quanto ao número, pois na língua estes são finitos, enquanto que na imagem podem ocorrer sem limites; para o autor, as imagens, tanto quanto as palavras, precisam ser compreendidas como carregadas de um significado que vai além do visual. Essas idéias aproximam a imagem do signo lingüístico, tornando-os semelhantes. A essa semelhança, que confere à imagem o status de linguagem, irão se contrapor às possibilidades da interpretação da imagem determinadas social e historicamente. Na leitura das imagens dos quadrinhos, podem ser percebidas questões ideológicas que a condicionam
A interpretação do não verbal, assim como do verbal, pressupõe a relação com a cultura, com o histórico, com a formação social do sujeito intérprete. Nesse sentido, na história em quadrinhos são veiculadas duas mensagens: uma icônica ou visual e outra lingüística, que se relacionam, constituindo uma mensagem global. A mensagem icônica e a verbal nos quadrinhos não se excluem, mas interagem, combinando de tal forma a ponto de permitir novas possibilidades de encaminhamento e de recepção da mensagem.
A mensagem lingüística da história em quadrinhos compreende um aspecto narrativo, no qual é feita a descrição do quadro, da situação ou das ações e a forma de diálogo. Este último, apresentado no estilo direto, tenta, muitas vezes, imitar a língua falada. Entretanto, as características específicas da língua falada impossibilitam uma transcrição fiel para o diálogo escrito, que irá lançar mão de diferentes recursos e procedimentos especiais, criando uma linguagem carregada de convenções, que explora com originalidade os códigos verbais e visuais específicos inerentes a esse tipo de narrativa, tais como: o balão, símbolos (ideogramas e pictogramas), sinais de pontuação e as onomatopéias.
No código das histórias em quadrinhos, os símbolos permitem uma inovação constante nos meios de expressão gráfica, ampliando a dimensão estética e informativa dos quadrinhos.
O ruído nos quadrinhos, muitas vezes, é mais visual do que sonoro, pois os desenhistas exploram a espessura, a forma, a cor dos fonemas que o constituem a fim de conseguirem um efeito expressivo maior. Uma boa onomatopéia é de vital importância nas histórias em quadrinhos, pois atinge, juntamente com a imagem, uma grande área de significação, criando efeitos expressivos de consumo rápido e intensa comunicação.
No código icônico ou visual da história em quadrinhos, temos a imagem, o espaço, as cores e a distribuição de planos, que, trabalhados em conjunto, constituem a mensagem. Quanto maior for a originalidade e a criatividade do desenhista na composição desses códigos, maior será a carga expressiva e comunicativa da mensagem.
Mesmo sendo a história em quadrinhos dirigida a um público alvo dentro de um modelo da sociedade de massa, com leituras as mais diversas, nada impede que determinados leitores deste público possam identificar numa obra valores diferentes. Existem aqueles leitores que se limitam tão unicamente ao enredo da história sem perceberem valores ideológicos veiculados; e leitores que, prestando atenção nos aspectos formais, se apercebem desses valores; outros podem ainda ser capazes de questioná-los.
Os quadrinhos são, inegavelmente, um poderoso veículo de comunicação, capaz de atingir com eficácia um grande número de consumidores dos mais diversos setores sociais e, portanto, capazes de divulgar valores e questões culturais que não devem ser simplesmente assimilados, mas avaliados e criticados.
Os quadrinhos podem ser percebidos como um produto artístico possível tanto de promover comunicação em um nível estético, quanto de sugerir questionamentos dentro de uma realidade social.

2 - Os quadrinhos de Maurício de Sousa e a literatura infantil clássica

Os quadrinhos, ao se mostrarem como um novo tipo de literatura, sofrem influência de tradição literária. Em algumas histórias, Maurício de Sousa faz referencia a outras histórias ou a contos tradicionais, recriando-os ou recontando-os Essa referência não representa de forma alguma mera imitação, pois há uma criação com o uso de diferentes recursos “visando a um determinado fim estético - informacional baseado na imprevisibilidade dos signos visuais e ou verbais.” (Cirne, 1971: 70)  As histórias, ao fazerem referência a outras já tradicionalmente conhecidas pelo leitor, representam alguns aspectos, recriam outros ou acrescentam dados novos, trazendo, assim, o inusitado e dando margem a questionamentos sobre o que já está tradicionalmente aceito.
O ludismo presente nessas histórias proporciona uma aproximação com o leitor, que irá sentir na história a sua necessidade de explorar o mundo com liberdade e de se adaptar a novas situações. Através do jogo, a criança irá perceber que personagens e histórias podem ser configurados de modo que se identifiquem com a sua maneira contemporânea de aprender e apreender o mundo.
Em histórias como Magali e Dudu em João e Maria (MAGALI n- 271) são exploradas características próprias dos personagens como personalidade, modo de pensar, filosofia de vida, trazendo o inusitado, pois Magali é extremamente gulosa mas não engorda e Dudu não come; ambos acabam  por enlouquecer a bruxa.
Algumas histórias refazem os contos tradicionais e expressam uma crítica através da ironia, da piada e do “non-sense”, permitindo ao jovem leitor contestar valores tradicionalmente aceitos e repensá-los de forma a confrontá-los com o padrão histórico e sócio-cultural vigente. A história da Turma do PenadinhoBranca de Morte, (CEBOLINHA n. 100) sugere o questionamento de várias valores, tais como, entre outros, o da “morte” sendo encarada como a finalização da vida.
As possibilidades criativas favorecem histórias como Era mais uma vez... (CEBOLINHA n. 160 ), onde os Três Porquinhossão perseguidos pelo Lobo no espaço, enquanto o código visual remete a uma espécie de paródia do filme Guerra nas Estrelas. Na fuga, os porquinhos, após terem suas naves de palha, madeira e tijolos abatidas pelo laser a sopro, caem na casa de Escura de Fumaça que, ao se assustar, fica Branca de Medo. A perseguição continua com os porquinhos encontrando outros personagens dos contos de fadas, como a bruxa; João-pé-de-moleque e Maria-moleChapeuzinho Verde (devido à onda ecológica); RapunzelPatinho feio (porque tinha acabado de acordar); A Bela e a Fera, entre outros. Sendo encontrados peloLobo, que lhes propõe umas férias no País das Maravilhas, eles embarcam no navio do Capitão Gancho e aparecem “felizes para sempre” ouvindo o conjunto The Oz. A narrativa desta história desenvolve-se com personagens bem conhecidos dos contos tradicionais, redesenhados de forma inusitada e criando uma imprevisibilidade dos fatos. A explicação acontece no final, quando aparece quem contava a história para o Cebolinha: o Louco.
 Maurício de Sousa e seus colaboradores utilizam-se da paródia realizada como intertextualidade, tornando os personagens da literatura infanto-juvenil extremamente ricos e abertos a várias interpretações, mostrando à criança que imaginar e reinventar o mundo pode ser muito divertido.
O recurso do “pastiche inventivo”, de Silviano Santiago, é também percebido nestas histórias, tanto na linguagem verbal quanto na visual. Há nelas uma reinvenção da obra, em que a idéia principal do original é percebida, mas onde o jovem leitor reconhece o inédito que foi introduzido.
As histórias em quadrinhos, retomando os contos de fadas, trazem-nos, muitas vezes, uma paródia e uma crítica às fórmulas absolutas desses contos tradicionais, questionando mitos consagrados e possibilitando ao leitor infantil recriar ou reinventar suas histórias preferidas, recuperando-as e, ao mesmo tempo, adaptando-as a uma época bem distante e completamente avessa ao “felizes para sempre”.

Conclusão

Hoje, as histórias em quadrinhos tendem a ser encaradas como um novo tipo de literatura capaz de contribuir para construção do imaginário infanto-juvenil e proporcionar ao leitor adulto novas possibilidades de leituras de temas por ele conhecidos ou novos, podendo ser vistas como a literatura gráfico-visual típica deste fim de século, possuidora de uma potencialidade expressional de profundo significado estético e grande capacidade comunicativa, que corresponde às exigências do leitor/consumidor contemporâneo, ávido por atrativos estéticos-expressionais,
As histórias em quadrinhos, enquanto literatura, carregadas de elementos capazes de sugestionar e abrir possibilidades interpretativas, podem contribuir para desenvolver a capacidade de análise, interpretação e reflexão do leitor.

Bibliografia

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CEBOLINHA. São Paulo : Globo, n. 160, fev. 2000
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JOLLY, Marine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus,1996.
LITERATURA e Semiologia:  Pesquisas Semiológicas:  Seleção de ensaios da Revista
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       escrita. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

Recebido em maio de 2001.
Disponibilizado em agosto de 2001.


[1] Professora, licenciada em Letras e Bacharel em Comunicação pela Universidade Estácio de Sá, com pós-graduação em Língua Portuguesa. Aluna do mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde desenvolve pesquisa sobre teoria da literatura e novas tendências literárias. Desenvolveu vários estudos sobre história em quadrinhos.








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