Saturday, June 25, 2011

Quadrinhos e liberdade na China




Em segundo dia, Flip debate quadrinhos e liberdade na China
03 de julho de 2009  09h30

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Os desenhistas Rafael Coutinho e Rafael Grampá. Foto: Isaac Ismar/Especial para Terra
Os desenhistas Rafael Coutinho e Rafael Grampá
Foto: Isaac Ismar/Especial para Terra

Em sete anos de existência, esta é a primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que abre espaço para a produção de quadrinhos. No segundo dia do evento, a mesa "Novos Traços" foi composta pelos jovens talentosos desenhistas Rafael Coutinho, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e Rafael Grampá. Cada um com seu estilo de contar histórias em gibis. Mais tarde, foi a vez da Feira abrir espaço, também pela primeira vez, para um debate sobre a China. Na mesa "China no divã", dois escritores chineses, Xinran e Ma Jian, relataram histórias da ditadura do país de Mao Tse-Tung, em especial o massacre da Paz Celestial, que completou 20 anos em 2009.
Os quadrinhos na Flip
A Tenda dos Autores recebeu na manhã de quinta-feira (2) quatro desenhistas. Eles narraram pelo menos uma das suas histórias já publicadas nos quadrinhos. Bem humorados e com uma linguagem bem jovem, os autores encantaram o público presente. Em um dos temas abordados no bate-papo, Gabriel Bá, que trabalha em parceria com o irmão, Fábio Moon, falou um pouco sobre suas publicação no Brasil, antes de divulgá-las nos Estados Unidos. "Aqui tivemos mais contato com o público. O feedback foi maior, pois mostrávamos o trabalho nem que fosse para os nossos amigos ou para os amigos da minha mãe", brincou. Ele relembrou ainda os tempos que desenhava na faculdade. "Os personagens eram os colegas da turma, o que sempre atraía público, já que as pessoas queriam se ver nos quadrinhos."
Grampá contou que sempre sonhou em publicar histórias adultas em gibis, mas nada relacionado a super-herói. Antes de conseguir seu espaço no mercado editorial, ele trabalhou com designer e diretor de arte. "Eu ficava desenhando durante o trabalho e era sempre repreendido por isso", contou, arrancando risos da platéia.
Filho de Laerte Coutinho, um dos grandes quadrinistas do país, Rafael Coutinho foi incentivado desde criança a ler gibis. Atualmente está com a carreira bem consolidada, porém, já vendeu CDs e trabalhou como barman. Além de desenhar, ele cria animações e esculturas.
Perguntado se histórias em quadrinhos podem ser consideradas literatura, Grampá respondeu que isso não faz parte das suas preocupações. Na opinião dele, cada arte tem a sua importância. "Não me preocupo se os quadrinhos parecem teatro ou cinema... Eu vou lá e faço. É o que eu gosto de fazer", disse.
Outra questão debatida foi a adaptação necessária que os desenhistas muitas vezes precisam fazer para comercializar alguns produtos, atendendo ao mercado da publicidade. "Sempre tive a preocupação em desenhar histórias de temas e ideias que acho interessante. Isso é importante para quem faz ilustrações", opinou Fábio Moon. Gabriel Bá foi mais fundo na explanação. "É muito difícil desenhar histórias que não têm a ver com o nosso perfil, mas reconheço que tem muita gente que faz isso com brilhantismo."
Como todo artista, cada um deles tem o seu tempo para criação. Rafael Coutinho consegue finalizar três páginas de gibi em um dia, assim como Fábio e Gabriel. Mais detalhista, Grampá reconheceu que geralmente dedica de três a quatro dias em cada página.
Próximo do final do debate, algumas perguntas da platéia deixaram a conversa ainda mais interessante. Uma das questões foi o motivo do interesse do cinema americano em criar quadrinho. Grampá respondeu de bate-pronto: "Dinheiro. O público de quadrinho é muito fiel. As pessoas se fantasiam como os seus personagens favoritos. Se uma história der certo, já é meio caminho andando para o sucesso comercial."
A diferença entre o mercado comercial americano e o nacional no segmento de gibis também foi colocado em pauta pelo público. De acordo com Fábio, o Brasil tem crescido nessa área de histórias em quadrinhos e algumas editoras já perceberam isso. "As pessoas estão querendo contar histórias mais longas, que sobrevivam ao tempo e precisam estar nas livrarias", afirmou.
Por fim, o "preconceito" que parte da sociedade tem com os quadrinhos, por acreditar que esse tipo de leitura é apenas para crianças, ganhou espaço na mesa. Para Rafael Coutinho, isso acontece porque muita gente só lembra das histórias do Maurício de Sousa (autor da Turma da Mônica) ainda dos tempos de infância, e não tem muito acesso aos gibis adultos.
Logo após o debate, os quatro desenhistas autografaram suas obras e conversaram pessoalmente com os fãs em uma outra tenda montada em Paraty. A estudante de letras Sofia Maiutti, 22 anos, contou que começou a ler gibis incentivada pela avó: "Leio quadrinhos desde os sete anos de idade. Comecei com a Turma da Mônica. A minha avó me presenteou com a assinatura das obras do Maurício de Sousa. Faz pouco tempo que leio gibis mais adultos e estou gostando muito dessa nova fase".
A produtora de eventos aposentada Ercília Lobo, 64 anos, enfrentou a longa fila para levar para casa as dedicatórias de Rafael Coutinho e os autógrafos de Fábio Moon e Gabriel Bá na versão em quadrinhos de O Alienista, livro adaptado de Machado de Assis. "Sou fã de literatura, gosto de ver os ídolos de perto e conhecer os autores. Na minha opinião o debate foi bem conduzido. Eles foram perfeitos nas suas colocações e se expressaram perfeitamente em uma linguagem jovem."
Descobrindo a China
"Os chineses não comem todos os dias carne de porco com molho agridoce". A afirmação é de Xinran, jornalista, que apresentou um programa de rádio em Nanjing até 1997, ano em que se mudou para Londres, e atualmente viaja o mundo divulgando seu novo trabalho, Testemunhas da China. No livro, editado em mais de 30 idiomas, ela escreveu relatos de pessoas que viveram durante os mais duros anos do regime repressor do Partido Comunista da China.
Quem também narra em páginas momentos terríveis da ditadura chinesa e esteve presente no debate da Flip é Ma Jian, autor de Pequim em Coma. O irmão dele foi morto no massacre da Paz Celestial, em Pequim, há 20 anos. E por conta desse acontecimento infeliz na sua família, Ma Jian decidiu escrever a obra. Atualmente ele vive na Europa. "Conto a história de um homem que levou um tiro, entrou em coma e quando acordou, percebeu que todos ao seu redor estavam mortos. Ele, então, sentiu medo da morte", disse.
Na opinião dele, até os dias de hoje o governo chinês faz uma "lavagem cerebral" na população para defender os motivos dos extermínios de jovens estudantes em Pequim, que cobravam a reforma política para acabar com a corrupção.
A jornalista Xinran contou que precisou de 20 anos para concluir o livro, pois obter os depoimentos das 20 pessoas entrevistadas não foi tarefa das mais fáceis. "Para conseguir atrair a atenção, comecei a colocar algo de diferente no meu rosto, tipo pimenta ou algum tempero. As mulheres diziam: 'Tem algo de estranho do seu rosto'. A partir daí, eu conseguia arrancar as histórias delas", relembrou aos risos.
Durante as conversas, ela ficava chocada com o modo de como boa parte da população conseguia sobreviver. "Uma senhora fazia reparos de calçados na rua. Ela vivia em banheiros públicos. À noite, colocava uma madeira em cima das privadas imundas. Ainda assim, conseguiu que os dois filhos tivessem formação universitária digna", contou.
Para Ma Jian, que não estava em Pequim no dia do massacre na Praça da Paz Celestial, os jovens que participavam da manifestação não imaginavam que pudessem ser mortos pelo governo da época. No entanto, pessoas mais experientes já previam pelo pior. "Em várias cidades do país, inúmeros estudantes faziam manifestações naquele dia. Eles tinham uma postura muito inocente. O governo e seus agentes já estavam preparando as armadilhas, com os tanques que passou por cima dos manifestantes. Alguns morreram porque tentaram socorrer os feridos. Um estudante me relatou que não foi arrastado por um dos tanques porque conseguiu segurar em um poste", afirmou.
De acordo com Ma Jian, ainda hoje, anualmente durante o mês de junho, o pesadelo da Paz Celestial se repete para as famílias das pessoas envolvidas no acontecimento e para os sobreviventes. Uns são levados para fora de Pequim e depois retornam, enquanto outros são obrigados a receber em suas casas as visitas de policiais, que dormem embaixo da cama e não permitem que atendam a telefonemas. "Esse tipo de atitude do Partido Comunista não permite que as coisas na China caminhem democraticamente bem", lamentou.
A revolução cultural liderada por Mao Tse-Tung, que sacudiu a China entre 1966 e 1976 e gerou a morte de quase um milhão de pessoas, também foi lembrada no debate. Xinran afirmou ter ficado perplexa com o comportamento dos pais de muitos estudantes envolvidos no massacre da Paz Celestial.
Segundo a jornalista, eles obrigaram seus filhos a se apresentarem à polícia por temerem que os jovens fizessem uma nova revolução cultural e desestabilizassem o país. "As pessoas ficavam com medo da movimentação dos estudantes porque temiam uma nova revolução cultural que gerou muitos distúrbios durante dez anos. Não entendo o motivo que leva muitos chineses a pensarem que o massacre e a revolução cultural sejam a mesma coisa". Ma Jian fez coro. "A partir do massacre começou a reforma econômica, mas não a reforma política. As pessoas têm um pensamento errado atualmente ao imaginarem que a melhora na economia também significa um avanço na política."
China atual
Um depoimento curioso de Xinram sobre a China cotidiana chamou atenção. Ao conhecer uma jovem chinesa que está estudando em Londres, a jornalista perguntou a opinião dela sobre os ingleses. "A jovem me respondeu que achava os ingleses preguiçosos porque as ruas nunca mudavam. É que os jovens chineses acreditam que é correto mudar tudo sempre, sem respeitar as tradições, a cultura. Se for preciso, mudam a rua de lugar", exemplificou.
No momento de responder uma pergunta da plateia sobre como viver no Ocidente e passar a cultura oriental para a família, Ma Jian respondeu com bom humor. "Meu chinês está melhorando a cada dia. Converso com meus filhos em mandarim lá em casa. Aliás, quando uma ocidental se casa com um chinês, entra em uma desgraça, pois somos muito machistas", brincou.
E o maior sacrifício ao deixar a China? "Deixei minha filha do primeiro casamento. Ela faz aniversário este mês. Pretendo visitá-la, mas tenho medo de ser repreendido pelo governo chinês por ter revivido de alguma forma o massacre da Paz Celestial, afinal, eu escrevi sobre isso no meu livro. Estou vivendo um dilema", revelou.
Para Xinram, o maior desafio foi conquistar o respeito das pessoas fora da China. "Quando cheguei em Londres, as pessoas não respeitavam meu valor. Era simplesmente uma refugiada. Normalmente quando se fala em China é lembrado apenas a parte política. Muita gente não sabe o que é a China e o povo chinês, infelizmente."
Autógrafos e fotos com os fãs
Ma Jian e Xinran receberam os fãs para autógrafos e fotos logo após o debate. Muitas pessoas deixaram a Tenda dos Autores reclamando do sistema de tradução simultânea do inglês e mandarim para o português, mas ressaltaram a importância do bate-papo para um aprofundamento na cultura da China. "Houve uma falha lamentável na tradução e isso prejudicou a palestra, já que a plateia não entendia o que acontecia. Uma pena, pois são pessoas interessantíssimas", lamentou Mauro Noce, aposentado de 60 anos.
A estudante de letras Patrícia Bernardes, 24 anos, ficou contente por ter aprendido algo a mais de um país que ela classificou como "enigmático". "A China é um assunto enigmático. Os dois autores perceberam diferenças da China de hoje e a China de outros tempos. Desvendaram vários mistérios do país. A gente nunca sabe o que se passa lá. É bom saber a opinião de chineses sobre a China", afirmou.
Nesta sexta-feira, a Flip segue com diversas mesas, entre elas "Seqüências Brasileiras", com Chico Buarque.
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