Sunday, June 19, 2011

‘Pátria de chuteiras’ pode ter Copa para VIPs


Disparada dos preços dos ingressos, fim dos lugares populares, leis antipalavrão... É a crônica da higienização dos estádios brasileiros? Por Hugo Souza

15/06/2011 | Enviar | Imprimir | Comentários: 9 | A A A
Um levantamento recente do jornal O Estado de S.Paulo mostrou que do ano de 2004 para cá o preço dos ingressos para partidas de futebol nos estádios brasileiros subiu 152,06%, mais de três vezes o acumulado da inflação oficial no período, que foi de 47,97%. (Comente aqui)
Curiosamente, o Sport Clube Corinthians Paulista, time de fiéis multidões assalariadas, fundado por três pintores, um alfaiate, um sapateiro e um motorista, entre outros homens do povo, lidera a disparada do valor que o torcedor tem que pagar para ver ao vivo o seu time do coração. No último Campeonato Brasileiro de futebol, ver um jogo do Corinthians em São Paulo custou em média R$ 32,77.
Por mais que seja imensa a paixão, nem um “bando de loucos” – como diz a música da torcida – deixa de pagar a prestação da casa ou de guardar o dinheiro da passagem para frequentar o Pacaembu com a assiduidade que gostaria – talvez alguns mais insanos, mas não todos.
Assim, grande parte da mítica fiel torcida corinthiana, assim chamada porque não deixou de apoiar o clube, lotando os estádios,  mesmo sem comemorar um título sequer durante um período de nada menos do que 23 anos, vem sendo progressivamente alijada dos jogos do time, e logo quando a coisa melhorou.
Tudo indica que esta lógica – a exclusão dos pobres dos estádios de futebol – será reforçada com a construção do novo estádio do Corinthians, em Itaquera, idealizado para ser um dos palcos da Copa de 2014 no Brasil. Isso porque os novos estádios que estão sendo erguidos em várias partes do país para a Copa seguem o modelo das arenas europeias: lugares uniformes, capacidade reduzida, exclusão dos setores populares, preços mais altos, e o resultado que parece óbvio: a exclusão da ralé, ou, como diriam os higienistas, a formação de um “público mais seleto” para frequentar os estádios. Ainda assim o novo estádio do Corinthians ganhou o apelido de “Fielzão”.
Novo Maracanã: pior custo-benefício do mundo
O jornalista Lúcio de Castro, ganhador de importantes prêmios de direitos humanos no Brasil e no exterior, vem denunciando o que considera um verdadeiro projeto de higienização dos estádios no país do futebol.
“Os ingênuos costumam sempre questionar o lamento com esse estado de coisas com o argumento da modernidade e do conforto, sem entender que referendam a crença de que os povo e conforto são coisas incompatíveis. Se não for verdade, repito, que me mostrem onde estão contemplados nesses projetos e a quanto serão os lugares populares. Será mesmo que alguém acredita que eles existirão?”, escreveu Lúcio de Castro recentemente em seu blog no site da ESPN Brasil.
Foi em uma entrevista a Lúcio de Castro que o deputado estadual do Rio de Janeiro Luiz Paulo Corrêa da Rocha afirmou: “As obras do novo Maracanã terão, no mínimo, um absurdo custo de R$ 1 bilhão. Será o estádio mais caro do mundo na relação investimento x lugares”.
Para justificar a redução de lugares e o alto preço dos ingressos, vale até insinuar uma associação entre a aglomeração de torcedores de baixa renda e a violência nos estádios de futebol.
Além da disparada dos preços dos ingressos e do fim dos lugares populares, um outro ingrediente desta “higienização” apontado por Lúcio são as campanhas e até as normatizações contra os palavrões nos estádios, como a “Lei Pimenta na Boca”, na Paraíba.
Tudo isso, aliado ao fato de que a ONU denunciou violações de direitos humanos no Brasil por causa da remoção de famílias para obras da Copa, deixa a sensação de que muitos dos donos da festa estão prestes a serem barrados de antemão, quando se confirmar, por exemplo, que os ingressos para o mundial de 2014 só serão vendidos pela internet.
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