Thursday, June 30, 2011

Idoso do DF sofre de solidão


Pesquisa faz radiografia inédita da velhice em família no DF. Solidão "regional" é o principal problema apontado pelo estudo
A falta de familiares, amigos e costumes é sentimento comum à grande maioria dos migrantes que deixaram sua terra natal para construir a capital federal. Hoje, mais de 40 anos depois, o abandono das raízes é responsável por uma triste constatação: o idoso do Distrito Federal sofre de solidão.
A conclusão é da antropóloga Maria Laís Mousinho Guidi, 82 anos, pesquisadora associada do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Terceira Idade (Nepti) da Universidade de Brasília (UnB). Ela coordenou uma pesquisa para definir o perfil do idoso que vive em família no Distrito Federal. Inédito, o trabalho avaliou diversos ângulos da vida dessas pessoas, como predileção política e sexualidade e determinou as principais características de sua vida social.
De acordo com Laís, o idoso padrão tem 77 anos e veio à capital na década de 60, durante a segunda grande onda de migração candanga. Tem, em média, cinco filhos, nível de escolaridade ginasial e exerceu profissão ligada ao setor de serviços. Atualmente aposentado, sua renda mensal - muitas vezes complementada pelos filhos - é apenas suficiente para a sobrevivência.
Mas, certamente, a constatação mais relevante é referente à solidão, que Laís classifica como "típica" do DF. "O velho que vive aqui está fora de seu espaço natural, sente a falta de seus costumes e deixou para trás todos os vínculos sociais", reforça. Aspectos regionais configuram a principal razão da reclusão dos idosos. "Eles não têm um lugar seu, não estão habituados com o clima, com a cidade, não têm sua comida típica", afirma a pesquisadora. Por isso, o Nepti, com a intenção de amenizar o problema, desenvolve um projeto que busca incluir o idoso num contexto social rico (leia abaixo).
Foram consultados 170 idosos, 108 pessoas nos Lagos Sul e Norte e 62 no Paranoá, Planaltina, Samambaia, Sobradinho e na Colônia Agrícola de Vargem Bonita. A diferença dos padrões socioeconômicos entre as regiões resultou na constatação de diferentes modos de vida, especialmente no que diz respeito à solidão. O estudo é qualitativo e, por isso, suas conclusões não são apresentadas em estatísticas.
ENCASTELADOS - O levantamento demonstrou particularidade curiosa: os idosos mais abastados são os que mais sofrem. Nos Lagos Sul e Norte, regiões onde moram pessoas de nível econômico mais elevado, os pesquisadores encontraram dificuldade até para falar com os entrevistados, tamanho seu isolamento. "Os mais ricos estão 'encastelados', pouco saem de suas casas e vivem na clausura de seus quartos", lembra. Muitos deles têm cômodos exclusivos, televisões e aparelhos de som nos quartos, o que contribui para seu afastamento. "Apesar de ter mais acesso à cultura e ao turismo, via de regra, quem dispõe de recursos está mais afastado da sociedade", diz Laís.
Já o idoso menos favorecido vive e um ambiente sócio-cultural mais enriquecedor, como se verificou principalmente nas regiões distantes do centro. "Essas famílias geralmente têm apenas uma televisão e o hábito de assistir à novela torna-se um ritual familiar. Como não há empregada, o idoso participa das atividades domésticas e tem um contato grande com vizinhos, pois as casas são próximas", argumenta a antropóloga.
A pesquisa concluiu, ainda, que os idosos do Distrito Federal geralmente moram com parentes próximos e reclamam de um espaço físico reduzido. Em relação à preferência política, não levam em conta partido ou idade, mas sim o carisma do candidato. Sua alimentação é restrita ao que lhes oferecem e têm problemas cardiovasculares, articulares ou diabetes.
As relações sexuais, segundo contam, são restritas ao cônjuge e muitos deles consideram que o sexo tem apenas intenção de reprodução. Não temem a morte, mas sofrem com a perda de parentes. Em geral católicos, têm na fé um alicerce importante para a vida cotidiana. Laís reforça que, para melhorar a vida do idoso, é necessário educar crianças e adultos para essa fase da vida.
CONTATO

Professora Maria Laís Mousinho Guidi pelo telefone (61) 3273 8877.
Reuniões comunitárias devolvem a alegria
Os resultados apresentados pela pesquisa motivaram uma iniciativa pioneira. O projeto intitulado O idoso em sua comunidade, organizado pelo Nepti, realiza reuniões semanais com grupos de idosos para promover a interação e a inclusão social. De segunda a sexta-feira, a professora aposentada da UnB e coordenadora do Núcleo, Maria Regina de Lemos Prazeres Moreira, vai até uma quadra do Plano Piloto e promove discussões sobre temas da atualidade.
Durante as reuniões, os participantes realizam atividades de leitura, debates sobre assuntos diversos, assistem a palestras, vêem vídeos, apresentam montagens teatrais e fazem ginástica. Organizam, ainda, confraternizações mensais para comemorar os aniversários, com direito a bolos, doces, salgados e pratos variados que eles mesmos preparam.
Atualmente 50 idosos se dividem em cinco grupos, nas quadras 208 Sul e 303/304 Sul e 116 Norte, 312 Norte e 410 Norte. A idéia, conta Regina, é tirar essas pessoas da passividade e da reclusão. "Recebemos os idosos que moram próximos às quadras onde as reuniões acontecem e fazemos eles produzirem, interagirem", afirma. "Estamos muito satisfeitos, pois o resultado é fantástico: nos encontros, eles têm um ambiente sócio-cultural ativo e rico, o que lhes proporciona fazer amizades e participar mais do mundo ao seu redor", explica a professora.
CONTATO

Professora Maria Regina de Lemos Prazeres Moreira pelo telefone (61) 3307 2581 (manhã).
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