Monday, June 20, 2011

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (Leitura crítica)


SONIA M. BIBE LUYTEN
(Organizadora)
HISTÓRIAS EM
QUADRINHOS
(Leitura crítica)
EDIÇÕES PAULINAS
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APRESENTAÇÃO
Comemorando os 50 anos da introdução da HISTÓRIA EM
QUADRINHOS no Brasil, o Serviço à Pastoral da Comunicação das
Edições Paulinas — SEPAC - EP lança este livro, fruto do trabalho
de uma equipe de estudiosos, todos preocupados com as possíveis
relações entre o universo cultural representado pela temática das
HQ e o espaço educacional efetivamente ocupado pelos gibis junto
à infância e à adolescência brasileiras.
A preocupação do SEPAC-EP, dentro de seu programa de assessoria
aos educadores, é a de oferecer-lhes um subsídio para que
possam conhecer os mecanismos que regem a produção das HQ,
bem como os projetos que orientam a indústria cultural neste setor.
O presente trabalho faz parte de uma coleção mais ampla,
que inclui, inicialmente, os livros TRAMAS DA COMUNICAÇÃO, com
texto de Regina Festa, PARA UMA LEITURA CRÍTICA DA TELEVISÃO,
de João Luis van Tilburg, PARA UMA LEITURA CRÍTICA DOS JORNAIS,
da equipe do SEPAC-EP, sob a Coordenação de Ismar de Oliveira
Soares.
Esperamos que HISTÓRIA EM QUADRINHOS: LEITURA CRÍTICA
consiga motivar os educadores brasileiros a levar em consideração,
em seus trabalhos pedagógicos, a necessidade de se pensar
a Comunicação Social não mais como simples lazer, mas principalmente
como instrumento educativo capaz de formar consciências.
Ivani Pulga
Diretora do SEPAC - EP
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POR QUE UMA LEITURA CRÍTICA
DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS?
SÔNIA M. BIBE LUYTEN
Jornalista, Mestre em Comunicações pela ECA/USP, Professora
de HQ na ECA/USP e SEPAC
O grande público dificilmente chega a descobrir o que se passa,
exatamente, por detrás dos bastidores. Por que certos filmes
ficam mais tempo em cartaz, por que determinados programas na
TV são retirados e por que lemos essas notícias e não outras? Há
razões para tudo isso e, às vezes, verdadeiras guerras são travadas
por trás dos acontecimentos e condicionam o que o leitor e o receptor
recebem dos meios de comunicação.
Entre as áreas de maior conflito está a de histórias em quadrinhos.
Sim, as simples e inocentes HQ que todos nós lemos desde a
infância. A começar por um ponto: quem não se lembra do Pateta,
Fantasma, Tarzan? Ótimo. Mas quem tem logo em mente uma personagem
legitimamente brasileira?
É justamente aí que começa um dos nossos problemas. Fora
algumas personagens e alguns poucos desenhistas, são difíceis as
histórias em quadrinhos brasileiras que têm alguma repercussão
desde que foi publicada a primeira revista no Brasil, em 1905.
Em outros países é diferente: seja em conseqüência de fortes
associações que divulgam o material para o exterior — sistemas
eficazes de distribuição —, seja por proibições de entrada de quadrinhos
de outros países, as HQ tiveram caminhos bem diferentes
das do Brasil.
No caso brasileiro, está mais do que na hora de valorizar nossas
personagens e nossos desenhistas. Não se trata, porém, de
proibir a importação de HQ estrangeiras, mas de utilizar alguns mecanismos
eficazes para incentivar a produção com raízes em nossa
cultura e fazer valer algumas leis que protejam sua edição nos veículos
de comunicação.
Uma outra questão é colocar os quadrinhos no seu devido
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lugar e não mais considerá-los como subarte ou subliteratura. As
HQ marcaram a história do século XX e, para chegar à forma que
conhecemos, acompanharam toda espécie de evolução, sofreram
muitas influências, mas forneceram, nas últimas décadas, subsídios
para todos os meios de comunicação e também para as artes.
Ao contrário do que muitos pedagogos apregoam, os quadrinhos
exercitam a criatividade e a imaginação da criança quando
bem utilizados. Podem servir de reforço à leitura e constituem uma
linguagem altamente dinâmica. É uma forma de arte adequada à
nossa era: fluida, embora intensa e transitória, a fim de dar espaço
permanente às formas de renovação.
O que se pode discutir, e que é o propósito destas análises,
é o conteúdo das HQ, muitas vezes inadequado à nossa realidade.
A influência (positiva ou negativa) deste poderoso meio de comunicação,
que atinge principalmente o público infanto-juvenil, é um
assunto muito sério, tendo em vista os altos índices de consumo.
Quando nos conscientizarmos disto, com uma prática de condução
de leitura junto ao leitor — adulto ou criança —, fazendo-o
avaliar o universo contido na fantasia vivida, chegaremos, sem dúvida,
a conclusões imprevisíveis.
A partir do momento em que desenvolvermos na criança
(através dos pais e professores) esta percepção crítica, ela própria
buscará novas alternativas e será o elemento do futuro que requisitará
e conquistará novos espaços dentro da cultura brasileira.
Um outro tópico de abordagem é o crescente uso da técnica
de quadrinhos para auxiliar a recepção das mensagens dos outros
meios de comunicação. Isto quer dizer o quanto as HQ estão sendo
utilizadas na difusão de idéias: na propaganda comercial, ideológica
e institucional, nos livros didáticos e, principalmente, na valorização
da consciência crítica popular.
Sob este aspecto, a forma quadrinizada foi e está sendo amplamente
usada como forma de trazer à memória popular a valorização
do ser humano. O temário dessas histórias, saídas das comunidades,
envolve temas do dia-a-dia do povo comum, do porquê
dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos e ensina a agir
em determinadas situações.
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Além disso, no final desta obra, apresento, de forma prática e
sucinta, um guia de sugestões para a utilização dos quadrinhos em
salas de aula e de como proceder para uma boa análise das revistas
de HQ.
Portanto, ao assumir a coordenação deste livro, reuni textos
de professores e pesquisadores, produtos de reflexões sobre este
tema, que poderão servir de discussões em salas de aula e em comunidades.
Por lecionar a disciplina “História em Quadrinhos” em
nível superior, acredito que o assunto deva ser amplamente analisado
e posto em prática por professores de 1.° e 2.° graus e, nas
comunidades, pelos agentes pastorais.
A combinação das leituras deste livro mais a análise para um
diagnóstico dos quadrinhos podem levar, às novas gerações, a sua
contribuição por meio de uma postura crítica e saudável.
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HQ: UMA MANIFESTAÇÃO DE ARTE
MARIA DE FÁTIMA HANAQUE CAMPOS
Bacharel em Artes Plásticas pela Universidade Federal da
Bahia, Mestranda em Artes, pela Escola de Comunicações e Artes
da USP
RUTH LOMBOGLIA
Professora da Faculdade Marcelo Tupinambá, Mestranda em
Comunicações pela Escola de Comunicações e Artes da USP
Entre as formas visuais criadas pela humanidade, nenhum
gênero, do passado ou do presente, ultrapassou em quantidade a
produção das histórias em quadrinhos. Diante disto, deparamo-nos
com uma escassez de avaliação histórica, estética ou filosófica sobre
as HQ, tanto como arte quanto como fenômeno cultural.
I
As origens das histórias em quadrinhos estão na civilização
européia, onde o aparecimento das técnicas de reprodução gráfi-
ca proporcionaram a união do texto com a imagem. A ilustração
atinge tão depressa a imprensa como o livro. A imagem toma certas
características que influenciarão a HQ: o desenho de humor (a
caricatura) e os animais humanizados dos contos de fadas, foram,
sem dúvida, importantes para a formação das atuais histórias em
quadrinhos.
Mas foi através das grandes empresas jornalísticas dos EUA,
no fim do século XIX, que os quadrinhos adquiriram autonomia,
criando uma expressão própria. Os “comics”, como eram chamados,
tornaram-se fator capital da venda dos jornais. Para o suplemento
dominical, produz-se a primeira página colorida e o “Yellow
Kid” (“O garoto amarelo”) torna-se a principal atração do jornal
New York World. Esta concorrência de talento pelas grandes em-
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presas jornalísticas deu ao quadrinho um grande desenvolvimento
no nível de criação das histórias. Mas não era considerado uma
nova manifestação artística.
A seguir, damos um panorama geral dos grandes movimentos
de arte da época e suas influências nos quadrinhos. As HQ brasileiras
serão discutidas num capítulo posterior.
1900
Primeiros anos da HQ, predominando o quadrinho estilizado.
As histórias eram essencialmente humorísticas e logo se estabeleceu
uma grande variedade de temas:
fantasias, histórias mitológicas e até ficção
científica. Algumas efêmeras, outras
abriram caminhos para a renovação e o
enriquecimento do gênero. Winsor Mc-
Cay, grande desenhista, traz para os EUA o
estilo “art nouveau”, que teve sua expressão
máxima nas aventuras de “Pequeno
Nemo no país dos sonhos”.
A influência desse movimento nos
quadrinhos aparece em forma de uma
nova preocupação decorativa, uma esti-
lização do desenho. Os cenários são bastante
elaborados e existe uma preocupação
ao retratar a natureza e os animais. É
uma época muito rica para os quadrinhos.
1920
Década do pós-guerra. Duas correntes
fazem-se notar: os humoristas e os
intelectuais, que exploram todas as possibilidades
dos quadrinhos. A história mais
marcante dessa época é “Pafúncio e Marocas”,
de George McManus. Foi a primeira a conhecer fama inter-
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nacional.
O quadrinho é influenciado pelo estilo “art déco”, que vai
refletir um clima de grande efervescência e de grandes adventos
tecnológicos. Os cenários das histórias passam a ter uma grande
elaboração na parte dos mobiliários, das vestimentas, das personagens.
Símbolos dos novos ricos e do esnobismo.
1930
É considerada a “idade de ouro” dos quadrinhos e o estabelecimento
das histórias de ficção científica, policial, de guerra de
cavalaria, de faroeste etc.
É o advento do quadrinho realista. As formas são inspiradas
no neoclassicismo. Aparecem os cenários exóticos e bem acabados.
O grande destaque dessa época é para o desenho em preto e branco.
O suspense e a ação são os fatores do sucesso. Surgem “Tarzan”,
de Harold Foster, “Flash Gordon”, de Alex Raymond, entre outros.
No fim desta década, surge o Super-Homem e, em seguida, a
gama de super-heróis.
1940
A Segunda Guerra Mundial provocou uma profunda e duradoura
agitação não somente nos “comics” como também na vida
dos seus criadores. Muitos heróis de quadrinhos se encontram logo
em luta contra os japoneses ou alemães nos locais mais variados.
As histórias em quadrinhos enfrentam a crise do papel.
Nessa ocasião, é lançado um livro criticando as HQ, Sedução
dos inocentes, do Dr. Frederic Wertham, onde se destaca a sua in-
fluência sobre a delinqüência juvenil. Este livro traz uma áurea de
desconfiança e um preconceito quanto à leitura dos quadrinhos,
que só irá desfazer-se mais tarde, quando intelectuais do mundo
todo recolocam as HQ no seu devido lugar.
1950
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Os quadrinhos reencontram a sua inspiração e, sobretudo,
questionam a sociedade sobre aspectos filosóficos e sócio-psicológicos.
É o chamado quadrinho pensante. Charles Schultz cria os
“Peanuts” ou “A turma do Charlie Brown”, orientando-se pela filosofia
existencialista. Nessa fase, surge o movimento artístico “pop-
-art”, que se inspira nas histórias em quadrinhos e na publicidade.
As relações entre a HQ e a pintura consolidam-se neste momento.
1960
Nesta década, os quadrinhos se liberam com o movimento
“underground”. Inúmeros artistas rebelam-se contra as normas impostas
pelos “Syndicates”, responsáveis pela produção e distribuição
dos quadrinhos no mercado, e fundam seu próprio movimento.
Aparecem as heroínas, certamente como reflexo dos movimentos
feministas.
1970
Publicação dos “undergrounds”, já estabelecidos e, de certa
forma, engajados com os “Syndicates”. Lançamento de grandes álbuns,
na Europa, de artistas das histórias em quadrinhos.
Em 1978, o Museu de New York faz uma retrospectiva sobre
a obra do desenhista Winsor McCay. Outros artistas das HQ aparecem
em museus, como Burne Hogarth.
É o reconhecimento do grande valor das histórias em quadrinhos.
Começam a ser julgadas sob o ponto de vista estético. E é,
certamente, a grande manifestação artística do nosso século.
II
Afinal, o que vem a ser a história em quadrinhos?
Podemos defini-la como uma forma de expressão artística
constituída por dois tipos de linguagem: a linguagem gráfica (a imagem)
e a linguagem verbal (o texto).
A história é feita em seqüência, no sentido esquerda-direita
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(como a leitura habitual dos ocidentais) e de cima para baixo.
Já o quadrinho japonês, o “Manga”, é feito ao contrário. Desta
maneira, compõem-se as páginas do “gibi” ou, no caso do jornal,
tiras de três ou quatro quadradinhos. A imagem é fixa; o leitor é que
dará continuidade, ou melhor, dinamismo à história.
Mas isto não é tão simples assim. Vamos isolar um quadrinho
para enteder melhor. Dentro desse espaço (um quadrado ou
um retângulo), existem elementos que formam a cena. E aqui estão
alguns dos principais elementos que compõem a história em quadrinhos:
O BALÃO: foi a grande criação das HQ. Como o próprio nome
sugere, a sua forma assemelha-se a um círculo com um apêndice ou
delta. Dentro do círculo estão expressas as idéias da personagem:
o que ela fala e pensa. O conteúdo do balão é, em geral, de caráter
verbal (o texto). Porém, aparecem também imagens como estas:
carneiros pulando uma cerca = contar carneirinhos; uma lâmpada
acesa = idéia brilhante; corações = amor; cobras, lagartos = palavrão,
censura; estrelas = tombo, atordoamento etc.
Vejamos alguns exemplos:
A ONOMATOPÉIA: é a representação dos sons no quadrinho.
Não se sabe ao certo quando surgiu a onomatopéia, mas um exem-
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plo bem antigo se encontra em Knerr, um dos desenhistas dos “Sobrinhos
do Capitão” (Rudolf Dirks, 1897). Exemplos de onomatopéias:
A REPRESENTAÇÃO DO MOVIMENTO: como dissemos, a imagem
é fixa. Existem recursos para sugerir a velocidade (linhas retas),
a trajetória dos objetos (linhas retas, curvas), tremor (imagem duplicada).
Exemplos:
A GESTUALIDADE: Além das palavras, nós nos comunicamos
pela expressão facial e corporal. No quadrinho, as expressões faciais
e o modo de se comportar (modo de vestir, de andar, de falar
etc.) definem o caráter da personagem.
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Ao ver uma figura de cabelos arrepiados, sombrancelhas alteadas,
olhos muito abertos e queixo caído, o leitor não terá dúvida
de que se trata de uma reação de medo, de assombro da personagem.
Enfim, são estes elementos que dão dinamismo às histórias
em quadrinhos. Na seleção e aplicação desses elementos está a liberdade
do desenhista.
Neste trabalho, há várias formas de atuação: 1) apenas o desenhista;
2) o desenhista e o roteirista, que passa a criar a história;
3) o trabalho realizado por uma equipe maior.
Agora que vimos a composição dos quadrinhos, surge outra
questão de igual importância: qual a mensagem transmitida pelas
HQ?
Dentro de um imenso leque de cenários, a história, basicamente,
gira em torno de uma premissa: a personagem boa (o herói)
vê-se envolvido com personagens más (os vilões), que burlam a ordem
e a justiça. Surge o herói. Campeão do bem, a beleza e a força
são seus atributos. É a personificação do homem americano: alto,
louro, queixo anguloso, musculatura invejável e, sobretudo, inteligente.
Os inimigos também têm o tipo característico: geralmente
de raças asiáticas ou ainda negros, possuem queixo espetado, nariz
de águia, cor pálida ou olhos pequenos. Quanto às mulheres, em
sua maioria, aparecem sempre submissas.
Assim, a relação das histórias em quadrinhos com a realidade
é bem complexa. Na verdade, não deixa de ser uma representação
da sociedade e de sua época, mas os graus de transposição são
muito desiguais.
III
As histórias em quadrinhos ocupam, cada vez mais, um espaço
significativo nos meios de comunicação de massa. Por causa de
sua grande penetração, principalmente no mundo infantil, sociólogos
e educadores preocuparam-se com suas possibilidades educa-
tivas.
Muitos as consideram “subliteratura”, pois não contêm as
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informações eruditas de um livro ou porque são encontradas em
bancas de jornais. Serão tais critérios válidos para distinguir a qualidade
de um material impresso? Todos os livros são bons? Todas as
revistas de histórias em quadrinho são ruins?
As histórias em quadrinhos oferecem entretenimento, jogo,
fantasia, uma forma ativa de passar o tempo (e, para isso, não há limite
de idades). Mas, além desta função distrativa, podem e devem
informar, formar, enfim educar.
Esperamos que os pais e mestres atentem para estas questões.
Leituras recomendadas
CAGNIN, Antônio Luís, Os quadrinhos, São Paulo, Ed. Ática,
1975.
CIRNE, Moacy, A explosão dos quadrinhos, Ed. Vozes, Petrópolis,
1970.
COUPERIE, Pierre e outros, História em quadrinhos e comunicação
de massa, MASP, São Paulo, 1970.
MOYA, Álvaro, Shazan, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1970.
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HQ E INDÚSTRIA GRÁFICA
MÁRCIA MARIA SIGNORINI
Arquiteta, formada pela FAUUSP, Mestranda na área de Artes
Gráficas do Departamento de Tecnologia da FAUUSP
A HQ que chega às mãos do consumidor, seja na forma de tira,
de folheto ou de revista, é sempre resultado de um processo de reprodução
gráfica. Esse processo consiste na obtenção de múltiplas
cópias ou exemplares a partir de um único original, ou, em outras
palavras, na transmissão de uma mesma informação a dezenas, milhares
ou milhões de receptores. Dessa forma, a análise das HQ do
ponto de vista da produção remete a duas questões principais:
1. A compreensão do processo que resulta nas HQ.
2. A indústria gráfica, como parte da indústria cultural, a serviço
da cultura de massas.
Em relação ao primeiro ponto, procura-se ressaltar aqui a
complexidade do processo, que abrange desde fenômenos artísti-
cos subjetivos de criação até os princípios técnicos e científicos da
fotografia, fotomecânica e impressão. Procura-se demonstrar, também,
a influência desse processo sobre o resultado qualitativo do
produto.
Quanto ao problema da indústria cultural, são discutidas algumas
idéias sobre a arte gráfica como arte de reprodução, enfocando
a compatibilização da criação artística com a linha de produção
da indústria.
Os aspectos levantados visam orientar o leitor para uma reflexão
sobre a produção gráfica em geral, especialmente as HQ, dando
referências para uma avaliação da qualidade do produto consumido
atualmente no país.
TÉCNICAS EMPREGADAS NA PRODUÇÃO DAS HQ
O processo de produção de uma HQ pode ser sintetizado e
representado pelo seguinte esquema:
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fig. 1 Esquema do processo de criação e produção de uma HQ
1. Elaboração: aqui se incluem a criação do roteiro, a redação
do texto, a divisão em quadros e a elaboração das imagens de cada
quadro.
2. Produção de originais: nesta fase obtêm-se as artes-finais,
que são constituídas pelo desenho detalhado das imagens e do texto
final, assim como pelas indicações necessárias para a produção:
redução de tamanho (geralmente, as artes são feitas em tamanho
maior para facilitar o desenho), cores, linhas de corte etc.
3. Produção da matriz: a partir das artes-finais são obtidos
os filmes fotográficos, que funcionam como máscaras de luz para
a obtenção de matrizes. Uma matriz de impressão é, fundamentalmente,
uma superfície descontínua onde se identificam áreas que
permitem o depósito de tinta e áreas que o impedem. A tinta depositada
na matriz é transferida, por meio de pressão, ao suporte
definitivo, obtendo-se, assim, as diversas cópias impressas.
4. Impressão e acabamento: a partir das matrizes são feitas
as tiragens; a dobra e a encadernação concluem o processo, consti-
tuindo os exemplares finais.
O fator determinante da linguagem gráfica é a matriz de impressão;
a descontinuidade de sua superfície condiciona a preparação
dos originais a serem reproduzidos.
As luzes, sombras e cores que formam as imagens nas HQ já
são criadas a partir de uma série de recursos gráficos, descritos a
seguir:
1. Traço simples: formas representadas por esquemas gráfi-
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cos simples, predominantemente a linha; os contornos lineares de-
finem formas sem tratamento de volumes.
2. Claro e escuro: caso particular de traço simples, onde o ar-
tista acrescenta grandes massas de luzes e sombras, criando a sensação
de formas e volumes.
fig. 3 Dick Tracy, Chester Gould
3. Grafismos: aplicação de tracejados, pontilhados e hachureados
diversos na representação de formas e volumes.
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fig. 4 Príncipe Valente, Harold Foster
4. Bendays: filmes de variadas texturas que reproduzem várias
tonalidades de cinza, aplicados nas áreas indicadas pelo desenhista
quando os originais a traço são fotografados.
fig. 5 Carol Day, David Wright
5. Filmes de transferência: filmes adesivos de variadas texturas
que se aplicam por decalque diretamente nas artes-finais.
fig. 6 Savage World, Ali Williamson
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REPRODUÇÃO DA COR
Em todos os processos gráficos, a reprodução das cores se faz
a partir da utilização das cores de seleção: amarelo, magenta e ciã.
Esses três tons, mesclados em diferentes intensidades, reproduzem
grande parte das cores existentes na natureza. Assim, os originais
coloridos são traduzidos a um sistema gráfico de composição dessas
três cores básicas, que pode ser realizado a partir de:
1. Indicação de cor: a cor é indicada no original desenhado
a traço em termos de porcentagem de ponto de cada tom básico
(chama-se porcentagem de ponto a relação entre a área entintada
e a área branca do papel; assim, por exemplo, 50% de ponto
significa que os pontos impressos cobrem 50% da área do papel,
produzindo um tom com aproximadamente metade da intensidade
da cor saturada). Esse processo leva a que se tenham, predominantemente,
áreas chapadas de cor, sem tratamento de “degrades”.
2. Seleção de cor: o trabalho já é feito em cores, utilizando os
recursos do trabalho manual direto; o original é fotografado com os
três filtros de seleção: verde, vermelho e violeta, produzindo respectivamente
os filmes do magenta, ciã e amarelo; tais filmes são
reticulados e, juntamente com o filme a traço do preto, obtêm-se as
quatro matrizes de impressão. Em algumas indústrias, esse processo
de seleção de cor é feito eletronicamente, através da utilização
de “scanners”.
A INDÚSTRIA DAS HQ NO BRASIL
Com a difusão do consumo das HQ, a produção industrial em
larga escala fez-se necessária. Muitos dos recursos citados anteriormente
foram simplificados e a linguagem padronizada; a criação foi
cedendo lugar à cópia e a produção tornou-se bastante pobre na
temática e na qualidade gráfica.
Entre heróis, patos, mágicos e crianças, encontram-se à disposição
do público leitor brasileiro cerca de 40 títulos por semana,
que somam milhões de exemplares lidos mensalmente por consumidores
das mais diversas faixas etárias e dos mais diversos níveis
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sócio-econômicos e culturais.
Porém, a variedade de títulos oferecidos por cada uma das
empresas, longe de significar uma profusão de técnicas e de estilos,
cumpre apenas a função de atender a várias faixas do mercado.
São, em geral, desdobramentos de um mesmo tipo de personagem
ou pequenas variações sobre uma mesma estrutura formal.
A cor, aplicada indistintamente a qualquer estilo de desenho,
substitui o traço elaborado dos desenhos em preto e branco que
caracterizava as antigas HQ; assim também os formatos, reduzidos
todos ao 14x19cm, padronizam a forma de apresentação das histórias,
sejam temas infantis ou aventura, os quais parecem estar
sempre apertados dentro dos limites da página impressa.
Podem ser verificadas algumas influências da produção industrial
em larga escala sobre a linguagem gráfica dos quadrinhos,
particularmente no caso da produção brasileira. Assim, temos:
1. O desenho desvinculado da criação: a produção de tão
variada gama de publicações leva a que a demanda exceda a capacidade
de um só artista ou desenhista, criador da personagem
original. Estabelecem-se equipes de desenhistas que reproduzem
personagens já criadas, adaptando-as às histórias cujos roteiros já
lhes são fornecidos por terceiros. O desenho independe do estilo
e da capacidade criativa do desenhista, devendo ajustar-se perfeitamente
aos moldes estabelecidos pelos criadores da personagem
em questão.
2. A fragmentação das operações: o processo seguido desde
o original até cada exemplar da tiragem é parcelado em diversas
operações, executadas por equipes diferentes e mesmo em estabelecimentos
distintos. A fragmentação das atividades leva à especialização
no cumprimento das tarefas e a uma desvinculação de cada
operação ao todo a que se relaciona. Repetem-se as mesmas soluções
gráficas sem um aprimoramento da linguagem ou uma maior
exploração dos recursos de que dispõe o processo de produção.
3. A simplificação e a padronização: a linha de produção é
possível a partir da simplificação e da padronização dos elementos
gráficos, de forma a permitir a “automatização” dos procedimentos
de trabalho. Uma mesma gama de cores, por exemplo, é utilizada
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para todas as revistas de uma determinada empresa; é através desse
padrão que vinculam-se a criação e a produção.
4. O contraste entre a sofisticação dos equipamentos e a pobreza
do material gráfico produzido: o baixo nível qualitativo e o
alto custo das publicações caracterizam a produção nacional de
quadrinhos. Uma das origens desta situação é o descompasso entre
a introdução de tecnologias mais aprimoradas e a evolução das
formas de expressão gráfica; o desconhecimento dos recursos impede
sua utilização e os quadrinhos continuam seguindo moldes
tradicionais de elaboração. A sofisticação dos equipamentos não
implica, portanto, maior qualidade editorial.
CONCLUSÃO
Como parte da produção gráfica em geral no Brasil, também
os quadrinhos sofrem os efeitos da dependência cultural e econômica.
A não-existência de um centro de estudos e pesquisas em
arte e ciências gráficas em nível superior, o despreparo do profissional
da área, a sofisticação tecnológica introduzida a altos custos
no país e a pobreza do material produzido são algumas das faces do
problema.
De outro lado temos o consumidor, privado de optar pela
qualidade em virtude da ausência de referenciais comparativos.
A produção industrial, estruturada em função do consumo de
massa, tende a solidificar a situação, interpondo-se às tentativas de
inovação temática, formal e técnica.
Uma das alternativas que viabilizaria essa inovação é a HQ
marginal; produzida e distribuída independentemente dos meios
convencionais, não sofre a influência da linha de produção industrial,
podendo extrapolar os limites da simplificação e padronização.
Porém, a HQ marginal não constitui uma possibilidade de opção
para o consumidor, já que os canais alternativos de distribuição
não têm suficiente força para mantê-la no mercado.
Surge, portanto, a questão: como ampliar o alcance da produção
alternativa sem que a mesma perca as características positivas
que a diferenciam da produção convencional?
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Muitas outras dúvidas como esta deverão brotar da leitura;
de sua discussão poderão surgir novos caminhos para a produção
brasileira de HQ.
Leituras recomendadas
BLANCHARD, Gèrard, La Bande Dessinèe — Historie des Histories
en Images de la Préhistoire à nos Jours, Editions Gèrard et C0,
Bélgica, 1969.
CARUSO, Paulo, TEGEY — Uma descontraída história da linguagem
dos quadrinhos, FAUUSP, São Paulo, 1977.
FERNANDES, Anchieta, “Do rolo entintador à caixa que fala”
in Revista de Cultura Vozes, Ed. Vozes, Petrópolis, ano 7, n.° 7, 1973.
(Obs.: todas estas obras podem ser encontradas na Biblioteca
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, São Paulo.)
PRODUÇÃO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
Marcia Maria Signorini
RELAÇÃO DAS ILUSTRAÇÕES:
Livro: COUPERIE, Pierre; DESTEFANIS, Proto; HORN, Maurice;
MOLITERNI, Claude, GASSIOT-TALABOT, Gerald. Bande Dessinèe et
Figuration Narrative. Musée des Arts Decoratifs, Palais du Louvre,
Abril 1967.
Ilustrações retiradas:
n0 2: Pat Sullivan “Felix the Cat” Copyright KFS, Opera Mundi
n0 3: Chester Gould “Dick Tracy” Copyright Chigaco Tribune
New York News Syndicate
n0 4: Harold Foster “Príncipe Valente” Copyright KFS Opera
Mundi
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n0 5: David Wright “Carol Day” Copyright Daily Mail
n0 6: All Williamson “Savage World” Copyright Witzend Wallace
Wood
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HQ E OS “SYNDICATES”
NORTE-AMERICANOS
CLEIDE FURLAN
Formada em Letras (Português/Italiano) pela FFLCH/USP, Estagiária
de Comunicação do Departamento de Treinamento de Vendas
de Merck Shar & Dohme
Falar hoje de histórias em quadrinhos, diante de uma banca
de jornais, implica, obrigatoriamente, falar das HQ norte-americanas.
O trabalho de ilustração de textos com desenhos ocorria não
só nos EUA, mas, com maior intensidade, em alguns países da Europa
(França, Inglaterra, Itália). Contudo, o primeiro passo para
seu desenvolvimento surge em virtude da concorrência entre dois
grandes jornais e seus proprietários: O New York World e o Morning
Journal, de Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst, respectivamente.
Pulitzer edita, em 1893, um suplemento dominical no New
York World, com a história “Down Hogan’s Alley”, desenhada por
Richard Outcault. Em 1896, realizam-se os primeiros testes de cor
na camisa da personagem principal, que passou então a ser conhecida
como “ Yellow Kid” (“O garoto amarelo”). “Down Hogan’s
Alley” pode ser considerada uma predecessora do gênero de HQ,
pois utiliza-se do balão, além de, por sua natureza debochada e
sensacionalista, ter dado origem à expressão “imprensa amarela”
nos EUA (no Brasil, passou a chamar-se “imprensa marrom”).
Posteriormente, Richard Outcault e seu “Yellow Kid” passaram
ao Morning Journal, de Hearst. Em contrapartida, Pulitzer vem
introduzir, em 1897, “Os Sobrinhos do Capitão”, criada por Rudolph
Dirks e que, pelo novo tipo de linguagem e de expressão, será chamada
de HQ.
Em seu início, as HQ eram humorísticas — daí levarem o
nome, nos EUA, de “comics”.
Em 1912, Hearst cria o primeiro “Syndicate”, o International
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News Service que, em 1914, deu origem ao King Features Syndicate.
Alguns anos depois, surgiram o Chicago Tribune Daily News
Syndicate, o United Press International, além de outros de menor
porte.
A palavra “Syndicate”, nos moldes norte-americanos, não
encontra similar em nosso contexto. Não se trata de um sindicato
e ultrapassa as atribuições de uma associação. Podemos tratá-lo
como agência especializada em fornecer matérias variadas, parti-
cularmente de entretenimento.
Os “Syndicates”, além de possuir direitos sobre os trabalhos
dos desenhistas (direitos sobre a venda e a distribuição), funcionam
como agência de veiculação das histórias, preparando e emi-
tindo milhares de matrizes a serem vendidas não só nos EUA como
também em outros países. São responsáveis por alguns cuidados,
ou seja, devem seguir um código de ética: as histórias não devem
ofender nenhum leitor; não devem conter palavrões explícitos, que
poderão ser substituídos por sinais convencionais; não devem conter
sugestões de imoralidade; devem evitar controvérsias quanto à
religião, raça ou política; devem evitar cenas de violência com mulheres,
crianças e animais; não devem incentivar o crime, que será
sempre punido.
Em 1907, Bud Pisher cria a primeira “daily strip” (tira diária),
“Mr Mutt”, a qual, em 1908, irá incorporar outra personagem: Jeff.
Passarão a ser conhecidos (até hoje) por “Mutt and Jeff”.
Efetivamente, é a partir da tira diária que as HQ norte-americanas
ampliam o seu campo de influência, iniciando um caminho
de fenômeno social.
Verifica-se a proliferação de estilos, entre histórias humorís-
ticas (como divertimento) e outras que trazem algumas tentativas
intelectualizantes: “Krazy Cat”, 1911, por Pat Sullivan; “Thimble
Theatre” (Teatro do Dedal), 1919, por Elizie Segar, onde uma personagem
secundária ressurgirá como principal em 1929, pelo mesmo
Segar, com o nome de “Popeye”; “Bringing Up Father” (Pafúncio),
1913, por George McNamus.
A década de 1920 marca a introdução da ideologia política
(neste caso, a de direita, capitalista) na HQ, com as personagens fi-
29
nanceiramente ricas e protetoras, ou aquelas humildes que seguem
os caminhos da justiça. É a época em que também surgem os quadrinhos
de aventuras.
As novas histórias virão a público de acordo com os “Syndicates”.
Por exemplo, “Tarzan” surgiu na literatura em 1914, criado
por Edgar Rice Burroughs. Em 1918, foi realizada a primeira versão
cinematográfica (“Tarzan of the Apes”); somente em 1929 o United
Features Syndicate lançou “Tarzan” em quadrinhos, desenhado por
Harold Foster e, posteriormente, por Burn Hogarth. Também em
1929 surgiu “Buck Rogers”, por Dick Calkins. Em 1931, “Dick Tracy”,
por Chester Gould.
Para combater essas fortes personagens, o King Features
Syndicate introduz em 1934: “Secret Agent X-9” (Bill X-9), o agente
secreto concorrente do policial “Dick Tracy”; “Jungle Jim” (Jim das
Selvas), o explorador-caçador que viverá emoções exóticas paralelamente
a “Tarzan”; e “Flash Gordon”, outra ficção-científica fazendo
frente a “Buck Rogers”.
Esses três novos títulos concorrentes foram desenhados por
Alex Raymond, considerado o mais completo criador de HQ.
A década de 1930 é marcada pelas histórias de cavalaria
(Príncipe Valente, 1937, por Harold Foster) e pela era dos super-
-heróis (“Super Man”, Super-Homen, 1938, por Jerome Siegel e Joe
Shuster).
É interessante observar que a atuação dos “Syndicates” é
muito ligada à política interna/externa dos EUA. Durante a I Guerra
Mundial, quando o país não teve participação direta, as HQ não
desenvolveram temas de guerra. Por outro lado, durante a crise de
1930, as HQ também não se manifestaram, pois, certamente, nenhum
cidadão norte-americano gostaria de ver a sua má situação
em HQ. Porém, os “Syndicates” acionaram os desenhistas para a
criação de novos títulos, ou adaptações aos já existentes, com relação
à II Grande Guerra. Assim, “Tarzan” pode ser encontrado a
desbaratar algum comando nazista na África: as HQ atuam como
instrumentos de propaganda do governo.
Após a guerra, alguns fatos contribuíram para um certo declínio
dos quadrinhos norte-americanos.
30
Um primeiro motivo foi o saldo deixado pela guerra, quando
os leitores estavam saturados (na realidade) com temas como aventuras,
conquistas e massacres.
Segundo motivo: o lançamento do livro Sedução dos Inocentes,
pelo Dr. Frederic Wertham, onde condena as HQ de serem, no
mínimo, perniciosas às crianças, à família e à sociedade. Consideramos
relevante repensar as críticas que se fazem às artes e aos
meios de comunicação de massa. Em todas as áreas existem trabalhos
classificáveis de excelentes a péssimos, assim como existem
críticos/críticas parciais e imparciais. Podemos concluir que o Dr.
Wertham foi extremamente parcial, gerando muita polêmica pseudobaseada
em observações gratuitas.
Voltando aos motivos, o terceiro foi o da fase “ bruxas”, ou a
lista negra criada pelo senador McCarthy, quando foram perseguidas
várias personalidades da sociedade norte-americana, inclusive
do meio artístico.
Gerou-se uma onda moralista que, em relação às HQ, colocou
em questão o caráter, a transmissão de cultura, a política e até a
sexualidade das suas personagens.
Criou-se um novo código de ética para os quadrinhos, exercido
pelos “Syndicates”, que impuseram censura rígida em todos os
sentidos, o que levou alguns autores a abandonar os seus trabalhos.
Neste período, quando as HQ norte-americanas já completavam
quase 50 anos de existência, os próprios autores levantaram
a questão da continuidade das histórias: o seguidor nem sempre
mantinha o padrão de qualidade ou de criatividade de seu criador
(raros são os que melhoram). Assim é criada, em 1946, a National
Cartoonists Society, constituída inicialmente por desenhistas de
HQ. Atualmente, envolve também desenhistas de humor, de publicidade,
de animação e ilustradores de revistas, visando à defesa de
seus interesses artísticos.
Contornando habitualmente a onda de censura, a década de
1950 passa por transformações: antes, as HQ possuíam, predominantemente,
o foco narrativo no exterior; agora, são introspectivas.
É o tempo do quadrinho intelectual, iniciado por “Pogo” (Pogo),
1949, de Walt Kelly, e seguido pelos “Peanuts” (Minduim), 1950,
31
de Charles Schultz. Em Pogo, animais na floresta, e em Minduim, as
crianças: ambas refletindo o mundo adulto.
Nesta linha surgirão “Beetle Bailey” (Recruta Zero, 1950,
Mort Walker); “Feiffer” (Feiffer, 1956, Jules Feiffer); “B.C. — Before
Christ” (A.C., 1958 Johnny Hart); e “Wizard of Id” (O Feiticeiro,
1964, Brant Parker).
Os anos 60 são marcados socialmente por dois fatos signi-
ficativos: a Guerra do Vietname e o movimento “hippie”, que trarão
mais abertamente alguns temas considerados, até então, como
tabus: drogas, grupos minoritários, liberdade sexual, consumismo,
movimento feminista, homossexualismo etc. No campo das HQ, esses
fatos refletirão a fase do “underground” (no Brasil, conhecida
por marginal ou “udigrudi”).
Vale notar que o “underground” não é criação recente: alguns
críticos consideram “Yellow Kid” como predecessor. Já existiam HQ
marginais nas décadas de 20 e 30, quando o enfoque era sobre o
ato sexual. Nos anos 40, a temática era sobre comportamentos sádicos
e masoquistas. Atualmente, a temática é variada, girando em
torno dos assuntos tabus.
O nome mais significativo das HQ marginais é o de seu iniciador,
Robert Crumb, criador do porno-gato “Fritz” (1965) e do extravagante
“Mr. Natural” (1968), cujas personagens atuarão, como a
tantas outras do movimento, contra o “way of life” norte-americano.
O movimento “underground” apareceu como protesto diante
das políticas “overground” dos “Syndicates” estabelecidos. No
entanto, ironicamente, em 1966 foi criado o Underground Press
Syndicate, que, a seu modo, também começou a ditar regras para a
distribuição das HQ marginais.
Com este apanhado histórico, podemos deduzir que as HQ
norte-americanas existem e fazem sucesso devido, principalmente,
à organização dos “Syndicates”.
Esta organização envolve não somente a distribuição, como
também toda a publicidade em torno de um lançamento. Aparentemente,
os “Syndicates” não realizam pesquisas diretas com o
público: ocorre uma sondagem sobre alguns temas marcantes, de
32
interesse coletivo, como viagens espaciais, movimento ecológico,
moda, de onde poderá surgir uma nova história. Observa-se, então,
a reação do público (obviamente, pelo retorno em lucros). Não havendo
uma boa recepção, a história certamente morrerá.
Os direitos sobre a veiculação de uma personagem de sucesso
em outros meios de comunicação (cinema, televisão) poderão
ser adquiridos pelos “Syndicates”, que a transformará em HQ. O
inverso (HQ para o cinema ou televisão) também ocorre, inclusive
com a transformação desses elementos em outros produtos: bonecos,
álbuns de figurinhas, vestuário etc.
Os “Syndicates” norte-americanos, sem dúvida, monopolizam
todo o mercado internacional no Ocidente, em virtude de sua
dinâmica de comercialização. Eles emitem milhares de matrizes de
uma mesma tira diária, o que baixa o custo, em contraposição ao
artista que vende seu trabalho diretamente ao jornal ou à revista.
Neste ponto, é possível entender a razão pela qual há tantas
HQ norte-americanas no Brasil: elas chegam prontas e acabadas
para impressão e a um preço baixíssimo, o que, por outros motivos,
não ocorre com os artistas nacionais.
Isso já era sentido na Europa na década de 30, quando países
como Itália e França chegaram a proibir a entrada das HQ norte-
-americanas em seus mercados, pois, segundo os críticos mais rígidos
na época, elas inibiam o crescimento dos artistas locais.
Na realidade, esta atitude colaborou para um certo atraso
dos quadrinhos franceses e italianos, que, sem os parâmetros mais
avançados dos norte-americanos, continuaram a apresentar trabalhos
voltados para a ilustração de literatura e histórias infantis, mesmo
depois de acabadas as proibições.
Mais recentemente (década de 70), as HQ européias começaram
a se destacar, através de publicação de álbuns voltados para
o público adulto. Talvez possamos pensar que este ressurgimento
europeu deva-se a um relativo resfriamento criativo de que vem
sofrendo a HQ norte-americana.
Ficamos, então, em um impasse: os norte-americanos contribuíram
muito no sentido de desenvolvimento das HQ como manifestação
artística e provocaram, como já foi dito, uma revolução so-
33
cial, na medida em que pessoas de todas as idades e classes sociais
têm interesse por elas. Ao mesmo tempo, pela eficiente ação dos
“Syndicates”, monopolizam o mercado e os estúdios de criação dos
países estrangeiros, impedindo o seu desenvolvimento, quando
não levam aos EUA os seus bons desenhistas (há excelentes artistas
argentinos trabalhando diretamente para os “Syndicates”).
Tratando-se de Brasil, não nos podemos esquecer de que os
“Syndicates’* estão aqui há mais de 50 anos tomando conta das
bancas de jornais.
Quantas vezes fizemos alguma coisa para conquistar pelo menos
a metade do nosso próprio mercado (efetivamente)?
Leituras recomendadas
ANSELMO, Zilda Augusta, Histórias em Quadrinhos, Ed. Vozes,
Petrópolis, 1975.
COELHO, Nelly Novaes, A literatura infantil: História, teoria,
análise: das origens orientais ao Brasil de hoje, Ed. Quíron, São Paulo,
INL, Brasília, 1981.
COUPERIE, Pierre et al., Histórias em Quadrinhos e Comunicação
de Massa, Museu de Arte de São Paulo “Assis Chateaubriand”,
São Paulo, 1970.
DORFMAN, Ariel e Jofré, Manuel, Super-homem e seus amigos
do peito, Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1978.
34
HQ NA AMÉRICA ESPANHOLA:
ARGENTINA E MÉXICO
ADAUTO RIBEIRO FILHO
Médico, Mestrando em comunicações ECA/ USP
A história em quadrinhos na América Latina tem uma produção
mais significativa em dois países de fala espanhola, Argentina e
México, além da produção brasileira.
HQ ARGENTINA
A origem da história em quadrinhos na Argentina encontra-
-se no semanário Caras Caretas, criado em 1828 por Bartolomeu
Mitre e José Alvarez. E é em Caras Caretas que, em 1912, aparece
a primeira personagem da HQ argentina: Sarrasqueta, que será publicada
até 1928.
Nos anos 20 começaram as publicações de HQ de aventuras.
As histórias de Firpo — um bouxeur e seu manager, Jimmy Forest,
em “Jimmy y su pupilo” —, publicadas em Páginas de Columba, são
consideradas como a primeira HQ argentina onde a história conti-
nua de um número a outro e introduz o suspense.
No entanto, o grande sucesso da HQ argentina começa em
1931, com a personagem que representava um índio da Patagônia:
o “Patorozú”, que passa a ser o nome da revista onde ele aparecia.
Em 1929, surge a primeira revista consagrada unicamente à
HQ publicada no país, El Tony, quando há uma reformulação da linguagem
utilizada. Até esse período, os diálogos e os textos eram
usados de maneira diferente: a HQ humorística utilizava os diálogos
sem texto e a HQ de aventuras usava longos textos narrativos, no
estilo criado pelos ingleses.
Nos anos 30, o jornal La Prensa introduz a HQ no seu suplemento
dominical. É, também, o período do jornal Crítica, que
encomenda trabalhos à King Features e que, já em 1931, publica
o primeiro suplemento de HQ. Assim, o público argentino tem a
35
oportunidade de ler as mais importantes HQ publicadas simultaneamente
nos EUA. Crítica vai conseguir a maior tiragem do mundo
em língua espanhola.
O primeiro exemplo de revenda de HQ vai ser a publicação de
“Patorozú”, em 11 de dezembro de 1935, no El Mundo. Tínhamos
assim, na prática, o primeiro “Syndicate” argentino.
A idade de ouro da HQ argentina é o período que vai de 1940
a 1960. Em grande parte desse período, é Perón quem está no poder.
Até 1945, a quantidade impera sobre a qualidade. Mas, a par-
tir desta época, tem início um período muito importante. Aparecem
as grandes publicações: Rico Tipo (1944), Patorozito (1945),
Intervalo (1945) e Aventuras (1946). Nesse período, grandes obras
literárias são quadrinizadas (por exemplo, Hamlet e Don Quijote de
la Mancha).
A publicação humorística Rico Tipo é lançada em 1944 por
Divito. É a partir de Divito que nasce uma nova HQ, onde toda a
história e a “gag” estão concentradas na personagem principal.
No começo dos anos 50, as revistas de HQ representavam 165
milhões de exemplares por ano, ou seja, a metade daquilo que se
lia na Argentina.
Os leitores adultos são conquistados por essa forma de literatura.
A importação estrangeira de HQ será substituída por material
especialmente produzido para a Argentina (seja na Europa, seja em
Buenos Aires). Para responder às necessidades do mercado, o “Syndicate”
realiza um esforço enorme e, pela primeira vez, desenhistas
e roteiristas europeus vêm trabalhar na Argentina.
A equipe Surameris (do Sindicato Surameris) já tem, a essa
altura, uma longa série de sucessos publicados pela Editorial Abril.
A partir de 1950, surgem novas HQ: Hormiga Negra, Fosforito
(1951), Osiquito Peter (1954) e Safari Argentino. Temos duas revistas
mensais de HQ: Frontera e Hora Cero.
Em 1950, surge Sherlock Time, onde aparecem efeitos em
preto e branco, jogando com sombra e luz, tornando-se a primeira
HQ para adultos.
A partir de 1960 até 1975, há uma nova geração: a “Escuela
36
Panamericana de Arte”, com professores e alunos de alto nível. Mas
o mercado argentino passa por uma crise, com invasão de HQ em
espanhol publicadas em outros países, pela saturação dos temas e
pela competição da televisão. Assim, muitos artistas emigram.
Em 1962, dois eventos importantes: o aparecimento de “Mort
Cinder” e de “Mafalda”, de Quino. Quino criou esta personagem
por acaso, para uma agência de publicidade que queria um símbolo
para uma campanha de eletrodomésticos. A partir de 1964, “Mafalda”
se torna uma tira diária e consegue enorme sucesso com suas
indagações sobre o mundo, seus julgamentos sobre os homens e a
política e suas mensagens às grandes potências. Ela se tornaria, em
pouco tempo, a HQ mais difundida no mundo. Mafalda, a contestadora
irredutível, extremamente preocupada com a situação mundial,
tem sido comparada com o “Peanuts” (“Charlie Brown”), de C.
Schultz, mas no “Charlie Brown” os adultos não aparecem e o universo
retratado é exclusivamente infantil. Em “Mafalda”, os adultos
não só aparecem, como seu universo é continuamente comparado
e contestado pelas personagens infantis.
“Mafalda” apresenta duas características marcantes: o aspecto
político e a existencialidade. Como lembra Moacy Cirne, citando
Oscar Steinberg, em “Charlie Brown” há tragédia; em “Mafalda”,
alusão à tragédia; em “Charlie Brown” temos uma condição neuró-
tica que escamoteia a percepção do real; em “Mafalda” temos uma
visão racional da História; em “Charlie Brown” temos uma predominância
de personagens sem lucidez; em “Mafalda” existe uma
elaboração de idéias que diminuem a distância entre o pensamento
e a emoção.
37
Em 1968, a “Escuela Panamericana de Arte” organiza, com o
famoso “Centro de Artes del Instituto di Tella”, a I Bienal Mundial
de HQ.
Em 1968, Jorge Alvarez lança a vida de Che Guevara quadrinizada
(Vida del Che), mas o exército impede sua publicação.
Nos anos 70, vamos ter publicações de caráter político que
subsistem até o golpe militar de 76. A essa altura, o México já é um
grande competidor no mercado hispano-americano, publicando
material dos EUA em espanhol.
A Argentina reage publicando, através das Edições Columba,
inúmeros títulos. Uma personagem de sucesso é “El Loco Chavez”
(as aventuras de um jornalista de Buenos Aires pela Europa), onde
se pode reencontrar as boas tradições do “comic” americano.
A partir de 1978, após um período de obscuridade, quando
até mesmo publicações humorísticas eram proibidas de circular, parece
estar havendo na Argentina um lento movimento de renovação.
Houve a Bienal de Córdoba de 1979, que parecia apontar para
o desenho gráfico argentino um lugar de destaque no panorama
mundial.
Avaliação crítica
Portanto, a partir deste breve histórico, podemos constatar
que a Argentina ocupa um papel de especial importância na elaboração
de quadrinhos, com destaque ao material nacional. A produção
argentina sofre mudanças estreitamente ligadas aos quadros
políticos da Argentina: desde Perón, com ênfase na produção nacional,
até 1976, com o golpe militar e a repressão.
MÉXICO
A indústria editorial no México, no campo de ilustrações, adquiriu
importância considerável. Atualmente, cerca de 20 editoras
apresentam uma produção mensal de aproximadamente 650 títulos,
dos quais 70% são puramente nacionais e o resto de origem
estrangeira. As tiragens variam entre 40.000 e 80.000 exemplares
38
por semana.
A herança do passado está nos “codex” realizados pelos Tlacuilos,
artistas do período pré-colombiano, diferente das obras grá-
ficas de outros países da América Latina (os astecas já utilizavam o
“balão” para representar a palavra).
A HQ propriamente dita, a “historieta”, começa no fim do século
passado. Elas apareciam como pequenas histórias ilustradas
dentro de caixas de charutos. O primeiro semanário foi o Comico,
surgido em 1897, com historietas mudas. Em 1910, surge a primeira
HQ mexicana: “Caldela el Argüendero”, publicada no suplemento
dominical do jornal El Imparcial.
Os outros jornais começam a publicar material de HQ importados
dos EUA. O fato de esse material às vezes atrasar ou de sua
remessa ser interrompida, vai encorajar os donos de jornais a publicar
material mexicano.
Vários desenhistas são lançados e, em 1933, temos o Macado,
uma revista interessante pela divulgação de novos desenhistas.
Nesta época, a Secretaria de Educação Nacional introduz em
seus jornais HQ de aventuras educativas.
Um importante desenhista é Alfonso Tirado, que estréia em
1932. É o precursor das HQ em série e introduz no México técnicas
novas, tais como o uso do pincel e do meio-tom, produzindo
simultaneamente até dez histórias inteiramente realizadas por ele
(roteiro, desenhos, letreiros etc).
Segue-se uma fase em que há uma dispersão dos vários artistas.
Alguns se reagrupam para editar o jornal Cartones, que vendia
tiras para os jornais do interior.
A partir de 1934-1935 começa a era industrial dos quadrinhos
mexicanos. Surgem histórias como Paquito Chico, da Editorial
Juventus, depois Chamaco Grande, de Publicaciones Herrerías
(1936). Em 1936, a Editorial Juventud lança Pepín que é, sem dúvida,
o jornal mais popular e com maior tiragem (350.000 exemplares
por dia). Chamasco e Pepín vão ser os jornais que, durante dez
anos, vão publicar as HQ de maior impacto.
Um desenhista de grande importância é José G. Cruz, que desenha
HQ romanescas e de aventuras e que, em 1952, funda a sua
39
própria editora, lançando a revista Santo, el Enmascarado de Plata,
utilizando a técnica de fotomontagem. Com essa história inicia-se
também a publicação semanal de um episódio completo, com uma
só personagem em cada número.
A produção de HQ de aventuras, de esportes e mesmo de crí-
tica social aumenta. Os artistas gráficos vão acabar reunindo-se em
uma associação chamada “Artistas Unidos”. Os ex-alunos desta en-
tidade são hoje os responsáveis pela produção nacional.
Em 1956, forma-se a Editorial Argumentos, que lança, em
1962, o jornal Lágrimas, Risos y Amor, com reedições de episódios
em séries de 50 a 60 números. Conhece um sucesso fabuloso, chegando
a ultrapassar um milhão de exemplares por semana. Mais
tarde, outro jornal, o Memín Pinguin também vai obter sucesso semelhante.
40
Em 25 de setembro de 1957, há a fundação da “Sociedad Mexicana
de Dibujantes” (Sociedade Mexicana de Desenhistas), que
vai desenvolver um trabalho muito importante em vários níveis.
Na década de 60, a produção continua abundante e muitas
das HQ vão servir de base para roteiros cinematográficos.
Em 1968, a Sociedade Mexicana de Desenhistas cria o “Circulo
de Tlascuilos do México” e, em 1971, organiza o I Salão de HQ
mexicana. Em 1973, no II Salão, há uma publicação especial sobre
a HQ mexicana, que resiste às crises que acontecerão depois (por
exemplo, a crise do papel).
A produção mexicana constitui-se, assim, dentro do quadro
latino-americano, uma produção de destaque pela sua tradição e
pelo seu movimento editorial.
Desta maneira, é da maior importância avaliar a situação dos
quadrinhos na América espanhola e verificar como se deu a consolidação
do material de HQ, tanto na Argentina como no México.
A utilização de temas próprios nas HQ é um hábito salutar para o
público leitor que, além de valorizar a cultura nacional, propicia um
mercado eficiente para os desenhistas locais.
Leituras recomendadas
A bibliografia é muito escassa e baseamo-nos principalmente,
na Histoire Mondiale de la Bande Dessinée, coordenada por Claude
Moliterni, Pierre Horay Editeur, Paris, 1980, e na Enciclopédia dei
Fumetti, Sansoni Editora, vol. 1, Itália, 1970, ambos não existentes
no Brasil e revelando, assim, a pouca divulgação dos quadrinhos da
América espanhola. Para uma apreciação de Mafalda, recomendamos:
Cirne, Moacy “Mafalda: prática semiológica e prática ideológica”
in Quadrinhos e Ideologia, n0 7, ano 67, 1973, pág. 47.
41
HQ NO BRASIL:
SUA HISTÓRIA E LUTA PELO MERCADO
STELA LACHTERMACHER
Jornalista formada pela UFRJ, Mestranda em Comunicações
pela ECA/USP
EDISON MIGUEL
Jornalista formado pela ECA/USP e Mestran-do pela mesma
Universidade
A primeira publicação de quadrinhos de que se tem notícia do
Brasil foi O Tico-Tico, surgida em 1905. A editora O Malho decidiu
fazer uma revista para crianças, depois do sucesso alcançado por
publicações do gênero na Europa e, também, pelos suplementos
dominicais de histórias em quadrinhos que saíam acompanhando
os jornais nos Estados Unidos. Estas histórias eram, então, simplesmente
decalcadas por artistas nacionais e transmitidas para o público
brasileiro sem qualquer alteração no seu enredo.
Os heróis de O Tico-Tico são Buster Brown e seu cachorro
Tige, criados por Richard Outcault e que aqui passaram a chamar-se
42
Chiquinho e Jagunço. Os desenhistas brasileiros, sem preocupar-se
muito com a qualidade dos desenhos, simplesmente copiavam os
quadrinhos, chegando mesmo a eliminar alguns deles por conta
própria.
Como vemos, o início deste novo tipo de literatura no Brasil
não foi dos mais gloriosos, ou criativos, e a dominação estrangeira
também nesta área persiste até nossos dias. Os grandes heróis das
histórias em quadrinhos que circulam no país são, até hoje, em sua
grande maioria, personagens estrangeiras. Veremos isto mais de
perto percorrendo um pequeno histórico da trajetória dos quadrinhos
no Brasil.
Retornando ao O Tico-Tico, algumas personagens criadas por
artistas nacionais também figuraram nas páginas da primeira revista
brasileira de quadrinhos, tais como Zé Macaco e Faustina, de
Alfredo Storni; Réco-Réco, Bolão e Azeitona, de Luiz Sá. Porém, a
personagem central continuava a ser Chiquinho, que de nacional
tinha apenas o nome, pois continuava com suas características de
um típico menino americano.
43
Em 1929, surgia a segunda importante manifestação na área
de quadrinhos no Brasil: a Gazeta Infantil ou Gazetinha, que em seu
primeiro número trazia na página central uma aventura do Gato
Félix, de Pat Sullivan. A Gazetinha trouxe ainda para o público brasileiro
as histórias de “O Sonho de Carlinhos” — (“Little Nemo in
Slumberland”), de Windsor Macay, famoso pela arte de seus desenhos,
e as aventuras do Fantasma, criado por Lee Falk.
Na década de 30, um passo importante na área de quadrinhos
foi o lançamento do Suplemento Juvenil, idealizado por Adolfo
Aizen. Entre seus maiores méritos está o de trazer para o Brasil
famosos heróis de quadrinhos como Flash Gordon, Jin das Selvas,
Tarzan, Mandrake, entre outros, distribuídos pela King Features
Syndicate, que, em 1939, cancelava seu contrato com Adolfo Aizen
e transferia seus heróis para uma nova publicação, O Globo Juvenil.
Na década de 40, aparecem as primeiras revistas de HQ com
texto e desenhos de artistas nacionais, mas ainda aí é clara a influência
de modelos estrangeiros, em especial de americanos. Estas
influências iam desde o nome da personagem até o próprio roteiro
da história que incluía, na maioria das vezes, hábitos e rotinas muito
distantes das nossas. Um exemplo claro é o caso de Dick Peter, um
detetive de inspiração nitidamente americana criado por Jerônimo
Monteiro. Uma inovação nesta década foram as Edições Maravilhosas,
da Editora EBAL, que quadrinizava obras literárias brasileiras.
Seguindo esta brecha em termos de nacionalização da produção
de quadrinhos, os anos 50 se caracterizam pelo aparecimento de
personagens tirados da rádio, da televisão e do cinema. Passava-se
a ver nas bancas revistas com caras conhecidas quadrinizadas e que
tiveram boa aceitação, principalmente pela penetração dos meios
de comunicação de onde foram tiradas. Neste caso estão Grande
Otelo e Oscarito, Mazzaropi e outros. Mas a maior parte da produção
nacional de quadrinhos continuava a seguir modelos americanos
com super-heróis, detetives e seres espaciais.
Finalmente, em 1960, surge algo genuinamente nacional no
campo dos quadrinhos: O Pererê, de Ziraldo, cuja figura central é o
saci, elemento representativo de nosso folclore. Além disso, Ziraldo
retrata nossos costumes através de suas propostas temáticas,
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do enredo e da ambientação de suas histórias. O Pererê pode ser
considerado uma “ilha” no meio de outras personagens “nacionais”
como Mylar, Fantastic, Fikon, Golden Guitar, entre outras, que con-
tinuavam lotando as revistas da época, dividindo suas páginas com
produções de terror, também com grande repercussão naquele
tempo. Também nos anos 60 Henfil começa a produzir Os Fradinhos,
tido como marco da crítica social através dos quadrinhos.
No início da década de 70, Maurício de Souza, que já vinha
distribuindo tiras de quadrinhos com suas primeiras personagens
por vários jornais, passa a editar suas próprias revistas com a turma
da Mônica, que, em 1982, se transformaria num dos primeiros desenhos
animados brasileiros de longa metragem.
Nesta rápida passagem pelo panorama da história dos quadrinhos
no Brasil até nossos dias, percebemos que, com raríssimas
exceções, a produção nacional esteve, durante todas estas décadas,
diretamente vinculada a modelos estrangeiros. Poucos foram
os artistas nacionais que conseguiram furar o bloqueio da invasão
estrangeira também neste setor, e isto cada vez se tornava mais
difícil porque, enquanto o Brasil começava a produzir histórias em
quadrinhos, este gênero já se expandia largamente nos Estados
Unidos. E os americanos já se preocupavam, então, com a criação
dos “Syndicates”, que cuidavam especialmente da questão dos quadrinhos
e de sua distribuição.
45
Os “Syndicates” surgiram para garantir ao criador/ desenhista
de histórias em quadrinhos uma certa autonomia, fazendo com que
ele não tivesse que se submeter a ser empregado de determinado
jornal, podendo, mesmo assim, ter seu trabalho divulgado por esse
órgão. É claro que, em troca disto, o autor de quadrinhos americano
tinha de se submeter às determinações do “Syndicate”, determinações
estas que, muitas vezes, não lhe eram favoráveis. Mas, através
deste tipo de associação, as tiras dos artistas filiados ao “Syndicate”
eram distribuídas pelos jornais locais, bem como de outros Estados
e países. Este tipo de circulação veio baratear o custo de compra
destas tiras, já que uma mesma história era vendida, ao mesmo
tempo, para vários locais diferentes. Assim como aconteceu com
outros países, o Brasil também sofreu diretamente a repercussão
da implantação dos “Syndicates”, como vemos no quadro de Enrique
Lipszyc, com dados computados entre 1934 e 1970:
Total de publicações = 453
Publicações com material exclusivamente estrangeiro — 291
(62,2%)
Publicações com material parcialmente nacional — 28 ( 6,2%)
Publicações com material exclusivamente nacional — 134
(20,6%)
Observações de Lipszyc: as publicações com material exclusivamente
nacional são, em grande parte, compostas por criações
baseadas em modelos estrangeiros. (Enrique Lipszyc, Publicações
brasileiras de histórias em quadrinhos, Católogo da Exposição Internacional
de HQ/Seção brasileira, São Paulo, 1970.)
Nos Estados Unidos, em meados da década de 60, surge um
movimento de oposição aos “Syndicates”: o movimento “underground”.
O projeto dos desenhistas que dele participam é contestar
os modelos, as histórias e as personagens divulgados nos “Syndicates”.
No Brasil, o movimento teve seu correspondente. Na mesma
época, são lançadas várias revistas com estilo descompromissado,
46
fugindo aos padrões habituais e que, em muitos casos, traziam
críticas à situação sócio-econômica em que o país se encontrava
naquele momento. Todas as publicações nacionais do movimento
foram efêmeras, não passando em geral, dos três primeiros números.
O movimento se estendeu até o início da década de 80 e entre
sua produção podemos destacar: Balão, a primeira revista marginal
editada em São Paulo; Boca, produzida por vários artistas e apresentada
como alternativa às histórias importadas; Capa, pela turma
da Universidade Mackenzie; Incaro, produzida no final da década
de 70 por Xalberto e Sian; Gabi, de Moacir Torres; Ataque, de Saul
Steinberg; Cabramacho, publicada em 75, em que se veiculava o
humor nordestino e que circulava em seis Estados da região; e Quadreca,
surgida na Escola de Comunicações e Artes da USP.
Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, onde o
movimento “underground” criou seu próprio “Syndicate”, no Brasil
o movimento serviu de estímulo à formação de uma geração de desenhistas
nacionais, que hoje mantêm seu espaço através de charges
e cartuns nos jornais.
O espaço esboçado hoje para o quadrinho nacional, a sua viabilidade
e sua concretização é uma questão de tempo; tempo para
que a luta do desenhista nacional surta efeitos.
Por que importar quadrinhos?
Quando falamos em importação, pressupomos que o país
deva importar produtos que não fabrica e que não possa vir a fabricar
por algum motivo. Mas neste caso não se inclui, obviamente,
cultura. O enorme volume de importação que vem ocorrendo há
várias décadas na área de quadrinhos resulta em duas conseqüências
básicas, ambas nocivas ao mercado nacional. Em primeiro lugar,
os quadrinhos que importamos trazem consigo hábitos e costumes
estrangeiros que passam a ser tomados pelo público leitor, em
sua maioria crianças e jovens em idade de formação, como modelo
de atuação. Além disso, com o baixo custo que acabam atingindo as
tiras de quadrinhos importadas, o artista nacional perde mais uma
vez seu espaço de atuação, ocupado pela produção estrangeira.
47
Lutar contra esta estrutura já tão bem constituída pode parecer
absurdo. Porém, se isto não for feito, os desenhistas e artistas
nacionais podem ir mudando de profissão. Mas esta briga só terá
alguma chance se tiver bases legais, isto é, se for calcada em leis
que regulamentem este mercado. Nos anos 60, foi feita uma primeira
tentativa de organização para garantir o espaço para o artista
nacional com a fundação de uma cooperativa de desenhistas em
Porto Alegre. Em 23 de setembro de 1963, João Goulart assinou o
decreto-lei 52497, visando à nacionalização progressiva dos quadrinhos
no Brasil na seguinte escala: 30% de produção nacional a par-
tir de 1.° de janeiro de 1964, mais 30% a partir de janeiro de 1965 e
mais 30% um ano depois.
A lei só ficou no papel, nunca foi praticada por pressão das
editoras que sempre argumentaram que ao quadrinho nacional faltam
qualidade e quantidade para suprir o mercado.
Até o momento da redação deste livro estava sendo discuti-
do, na Câmara Federal, um projeto de lei que prevê a participação
do quadrinho produzido e criado no Brasil numa proporção de 50%,
em relação ao importado, ou feito sob autorização de uma matriz
estrangeira. Se o projeto for aprovado, serão abertas grandes perspectivas
para o desenhista brasileiro, que ocupará definitivamente
o espaço que atualmente lhe é negado pelas editoras interessadas
no lucro fácil e aliadas a um jogo ideológico alheio aos interesses do
povo brasileiro.
Perspectivas
Diante deste quadro, é patente a necessidade do crescimento
da participação do quadrinho nacional, marginalizado constantemente.
E isto só pode ser alcançado com duas coisas: leis que
impeçam a publicação indiscriminada de histórias estrangeiras e a
união dos desenhistas brasileiros numa entidade capaz de pressionar
os editores para abrir espaço para o material nacional. E estas
duas alavancas já foram acionadas. A primeira através de projetos
de lei, que prevêm a ampliação da participação do quadrinho nacional
no mercado, restringindo a importação. A segunda alavanca se-
48
ria a união dos desenhistas para, através de uma entidade própria,
tornar-se uma força de pressão a fim de se contrapor à pressão dos
editores, mostrando que os artistas nacionais podem apresentar,
em termos de quantidade e de qualidade, trabalhos ao nível dos
que vêm sendo importados.
A AGRAF, antiga entidade dos desenhistas que funcionava no
Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, fechou por dificuldades na
sua organização e encaminhamento dos seus objetivos. Uma nova
entidade poderia surgir para estabelecer tabelas de preço e criar
uma regulamentação com relação à porcentagem de participação
da produção estrangeira em nosso mercado.
É um desafio para as futuras gerações!
Leituras recomendadas
CIRNE, Moacy, Uma introdução política aos quadrinhos, Ed.
Achiamé, Rio de Janeiro, 1982.
MOYA, Álvaro, Shazan, Ed. Perspectiva São Paulo, 1972, págs.
197-236.
LUYTEN, Sônia M. Bibe, “Quadrinhos estrangeiros no mercado
nacional” “in Rev. Comunicação e Sociedade. Cortez/IMS, São
Paulo, n.° 3:42-49, Julho/ 1981.
49
HQ E AS CRIANÇAS
ISMAR DE OLIVEIRA SOARES
Presidente da UCBC, Membro da equipe do SEP AC, Mestre
em Comunicação pela ECA/ USP
Nos tempos em que os filmes de “cow-boy” eram a diversão
obrigatória nos domingos das cidades do interior, muitas catequistas
advertiam nas reuniões: “Crianças, cuidado com estes filmes.
Hoje mocinhos, amanhã bandidos”.
Não foi feita nenhuma pesquisa para saber se as crianças dos
anos 50 ou 60 são hoje adultos com desvios graves de comportamento.
O certo é que poucos deram importância às advertências
dos adultos daqueles tempos. Tanto assim é que, com o desenvolvimento
da indústria cultural, os “bandidos” e “mocinhos” continuaram
sendo produzidos e consumidos, penetrando as escolas e os
lares. A TV e os gibis encarregaram-se de povoar o mundo mágico
das crianças e dos adolescentes.
Muito se tem falado, em reuniões de pais ou de professores,
sobre a presença da TV e de suas possíveis conseqüências na educação.
Esquecem-se os educadores de que parte substancial dos
mitos explorados pelo vídeo tiveram sua origem anos antes de a
TV tornar-se unanimidade nacional. Grande parte dos heróis dos
desenhos animados foram antes, e continuam sendo ainda agora,
heróis das histórias em quadrinhos.
As histórias em quadrinhos, debatidas em seus vários aspectos
neste livro, devem ser analisadas também sob o aspecto de seu
relacionamento com seu grande público leitor: a criança.
O que nos anima a levar adiante este debate não é a preocupação
um tanto moralista e fatalista dos adultos das gerações passadas.
O que está em jogo é, antes de tudo, a questão cultural apresentada
pela difusão dos quadrinhos: questão cultural que pode
ser traduzida pelo projeto de atrelamento das mentes infantis ao
universo conceituai imposto pelas nações industrializadas centrais,
notadamente os Estados Unidos da América do Norte.
50
Quanto à existência deste projeto, as pesquisas realizadas na
América Latina, a partir da década de 70, não apenas a confirmam
como também delineiam o perfil do “pacote cultural” que se quer
impor. Dorfman e Mattelart, por exemplo, em seu livro Comunicación
de Masa y Colonialismo, analisam o conteúdo latente de algumas
criações de Walt Disney, como por exemplo a do Pato Donald e
outras. Segundo esses autores, elas apresentam a imagem de uma
sociedade sem estrutura familiar, na qual as atividades principais
são as de lazer, uma sociedade na qual a economia se reduziu aos
setores primários e terciários, um mundo subdesenvolvido e dependente
onde as aspirações materiais constituem a força motriz
da sociedade.
Em outra análise semelhante, Tapia Delgado observou que os
Flintstones, conhecido seriado de televisão, são seres que vivem
numa sociedade primitiva dispondo, contudo, de todas as características
de uma sociedade de consumo moderna. Não existem con-
flitos de classe e todos os problemas são apresentados a nível individual.
Lendo as histórias de Donald ou assistindo aos Flintstones,
notamos, sem muita dificuldade, que as soluções para o desenvolvimento
dos povos estão representadas num modelo consumista e
individualista de sociedade. Os temas mais comuns são o sucesso,
a competição, o status, o poder aquisitivo, o escapismo na solução
dos problemas.
Além de difundir preconceitos como, entre outros, o racismo
(Tarzan) ou o individualismo capitalista (Tio Patinhas), apontados
como via natural e justa de se entender as relações sociais e econômicas,
a ideologia difundida pelas HQ reforça e justifica a dependência
cultural, dos povos pobres para com os centros hegemônicos
produtores desses bens culturais. Isto é feito com a conivência
e a participação das classes dominantes brasileiras, quer pelo fato
de dificultar ao máximo a produção cultural nacional, quer pelo fato
de facilitar a difusão da produção estrangeira.
Como o público infantil recebe toda essa imposição cultural?
Parece que com entusiasmo. Para analisar esta afirmação, reportamo-
nos a duas pesquisas realizadas recentemente.
51
HISTÓRIA EM QUADRINHOS:
uma leitura conservadora
Orlando Miranda, em seu livro Tio Patinhas e os mitos da Comunicação,
publicado pela Summus em 1976, relata uma pesquisa
que realizou com 1.276 estudantes de São Paulo (591 alunos de
3.a e 4.a séries — idade entre 9 e 12 anos; 539 alunos de 7.a a 8.a
— idade entre 13 e 18 anos; e 146 universitários, com mais de 19
anos). A primeira conclusão a que chegou: 80% (ou, exatamente,
79,3%) das pessoas pesquisadas lêem HQ. Por segmento pesquisado,
as porcentagens são as seguintes:
Lêem histórias em quadrinhos:
85,7% entre crianças de 9 a 12 anos
80,0% entre adolescentes de 13 a 19 anos
67,9% entre jovens de 19 a 30 anos
36,1% entre adultos com mais de 30 anos.
Outra pesquisa, realizada em 1980 por um grupo de estudantes
do Curso de Comunicação Social do Centro de Ensino Unificado
de Brasília (Alvisto Skeff Sobrinho, Célia Maria Bacchi, Eduardo
do Amaral Pessoa, Ivani Pulga, Paulo César Roxo Ramos, Ronaldo
Faria e Rosali Barreiras Caetano), cujo relatório encontra-se ainda
em versão preliminar, com indicação de “circulação restrita”, indica
que 92,8% das crianças de Brasília, entre 8 e 10 anos, lêem HQ
e informa, ainda, que 78,5% destas crianças compram revistas de
quadrinhos todo mês.
A pesquisa de Brasília foi feita com crianças pertencentes a
três classes sócio-econômicas distintas: crianças pobres (da cidade
satélite de Ceilândia, com renda per capita, em 1978, de Cr$
7.666,72), da classe média baixa (da cidade satélite de Taquaritinga,
com renda per capita de Cr$ 18.333,24); e da classe média alta (do
Plano Piloto, com renda per capita de Cr$ 62.140,67). Entre estas
crianças, no que toca ao acesso às HQ, um fato surpreendente chama
a atenção: 62% das crianças pertencentes à classe mais baixa
têm o hábito de comprar revistas. Os que não as adquirem, as to-
52
mam emprestado.
Concluíram os pesquisadores, tanto Orlando Miranda, em
São Paulo, como os alunos do CEUB, em Brasília, que as revistas em
quadrinhos mais lidas são aquelas oriundas dos estúdios Disney,
sendo que, em termos individuais, a mais consumida é uma revista
brasileira, produzida por Maurício de Souza, a Mônica, cujo apogeu
de venda deu-se após 1967.
Na pesquisa de Brasília, procurou-se obter informações sobre
as relações das crianças com o universo das histórias em quadrinhos.
Eis algumas conclusões:
• Poucas são as crianças que sabem identificar o nosso ambiente
físico e cultural na leitura dos quadrinhos. A linearidade da
leitura se perde na interpretação horizontal ícono-verbal mais próxima,
dificultando a interpretação de símbolos mais aprofundados
(as crianças não souberam indicar, por exemplo, qual a personagem
das histórias de Disney que mora no Brasil: somente 26% identi-
ficaram Zé Carioca, 40,4% apontaram várias personagens e 33,6%
responderam desconhecer o assunto).
• As crianças demonstram identificar-se mais com personagens
bem comportadas, equilibradas, cumpridoras dos deveres
consigo e com os outros, obedientes à lei e à ordem.
• Quanto às expectativas sócio-econômicas refletidas na pesquisa,
observou-se, na questão que apontava para uma opção entre
Pato Donald e Tio Patinhas, que 92% das respostas apontaram
Donald como o mais feliz e apenas 8% indicavam Tio Patinhas. A
curiosidade é que 56% das crianças de classe alta (Plano Piloto)
apontaram Tio Patinhas como o mais feliz, com algumas crianças
apontando a razão: “porque é rico”. As crianças de classe média
ficaram indecisas: 48% a 52% a favor do Pato Donald.
O que se constata, na verdade, nas crianças brasileiras, é uma
atitude intelectual e afetiva conservadora, indicando, naturalmente,
que a leitura é feita sem outras preocupações que a do lazer.
Em artigo publicado na revista Veja (edição de 13 de julho de
1983, pág. 73 e 76), o crítico Gabriel Priolli, depois de referir-se às
27 novas personagens de desenho animado que passaram a povoar
a TV brasileira, afirma despreocupado: “De todo modo, mesmo
53
com tantas horas de desenho no ar, não há nisto uma ameaça à
integridade mental ou emocional das crianças. Afinal, a maior parte
delas vem crescendo de maneira sadia e equilibrada e, como diz a
professora Cecília Maringoni, da escola infantil Indaiá, de São Paulo,
os poderes dos super-heróis não frustram as crianças. Elas realmente
acham que podem voar”.
Tanto Priolli quanto os produtores das HQ podem ficar tranqüilos:
nenhuma criança se lançará pelas janelas, nenhuma destruirá
a casa do vizinho ou porá fogo no prédio dos Correios. Seria
ingênuo acreditar neste tipo de imitação. Acreditamos que nossos
críticos, nossos produtores e os leitores são, neste ponto, eminentemente
conservadores. A indústria cultural conseguiu moldar não
apenas o produto, mas o próprio consumidor.
O conservadorismo reflete, na verdade, a influência das próprias
HQ, deixando os educadores tranqüilos quanto ao alerta das
catequistas de décadas passadas: não haverá conseqüências perturbadoras
da ordem. Mas, pelo que nos parece, o problema reside
exatamente aí. As idéias mestras (a utopia da abundância, com todas
as personagens de Disney; a consciência individual em plenitude,
com Mickey; a necessidade premente de acumulação de riqueza,
com Patinhas; a frustrante realidade de ser pobre e ter de subir
na vida, com Donald) passam da revista ao coração e do coração à
mente, desmobilizando as sucessivas gerações para uma luta mais
afetiva pelos seus próprios projetos de vida.
Os heróis das HQ devem ser discutidos por pais e educadores.
Não são inocentes e sua leitura não é simples lazer. Muitos livros já
foram escritos apontando a ideologia dos quadrinhos. É necessário
conhecê-los. O educador que não dispuser de tempo para grandes
leituras poderá realizar, também ele, seu trabalho junto a seus alunos.
Basta ler as histórias com eles e elaborar um roteiro de questões
para debates que apontem para a identificação do roteiro, a
coerência das atitudes, os interesses envolvidos. A leitura repetida
de várias histórias de uma mesma personagem ajudará a formar o
perfil dos heróis e anti-heróis.
Desmascarar a indústria cultural dos quadrinhos é um primeiro
passo para o entendimento da manipulação de toda a produção
54
que nos é imposta a partir das agências noticiosas, agências de publicidades,
estúdios de cinema e de TV e outros meios de comunicação
contratados a partir do exterior.
55
HQ NOS LIVROS DIDÁTICOS
JOÃO NELSON SILVA
Bacharel em Relações Públicas, Professor de Comunicação
na Universidade de Rondônia, Técnico em Educação — SEDUC/RO,
Mestrando em Ciências da Comunicação na ECA/USP
Há uma revolução nos meios de comunicação, com incríveis
inovações tecnológicas nos audiovisuais e na área dos impressos.
Da impressão a chumbo passa-se à do laser. E a chegada da eletrônica
aos meios impressos tem favorecido milhões de pessoas,
tendo em vista a imensa possibilidade de difusão de textos onde
não somente predomina o código alfabético, mas, também, as riquíssimas
ilustrações.
As revistas de histórias em quadrinhos, como meio de comunicação,
acompanharam o desenvolvimento tecnológico.
Com o tempo, a história em quadrinhos foi sendo aprimorada
na sua forma gráfica de apresentação, impressa no papel com cores
variadas, traços sutis, balões, enredos variando desde o modo lúdico
de viver até às situações de trabalho e de conflitos da sociedade.
E, por vários motivos, as pessoas procuram as revistas com histórias
em quadrinhos, ou são induzidas a comprá-las. Daí o aumento da
produção dessas revistas com o aparecimento da cultura de massa.
Em virtude da aceitação e do uso generalizados, as histórias em
quadrinhos foram introduzidas nos livros didáticos como recurso
adicional à aprendizagem. Passaram a ser um instrumento de ensino
para adultos e, principalmente, para crianças. E tratam de assuntos
os mais diversos, como Matemática, Comunicação e Expressão,
Ciências Físicas e Biológicas, História, Moral e Civismo, Religião e
outros temas do interesse da escola.
E por assim estar sendo, é pertinente que se estudem as histórias
em quadrinhos sob o ponto de vista de como os conteúdos
ideológicos dos assuntos estampados podem ou não interferir de
modo positivo ou negativo na vida das pessoas e, principalmente,
na das crianças, a quem elas mais se destinam.
56
As revistas de histórias em quadrinhos são tidas como um
meio de comunicação de massa. E, por tudo que este meio possa
induzir, deveria ser discutido nas salas de aula, no sentido de se
poder desvendar o caráter mitológico e ideológico das ações das
personagens que trabalham o comportamento psicológico e social
dos seres humanos na sua realidade e em situações concretas. Portanto,
é uma questão de coerência educacional observar as ilusões,
desilusões e embustes veiculados pelas histórias em quadrinhos
nos livros didáticos destinados às crianças.
Ora, comprova-se o cuidado e a obstinação das classes e dos
grupos, responsáveis por educação e comunicação, com o produto
da indústria cultural enquanto produção quantitativa, preocupação
que se remete à tecnologia dos meios de comunicação de massa.
Esta, por si mesma, gera grande confusão, que, com intencionalidade,
chega a comprometer tanto comunicólogos como educadores,
atingindo por tabela milhões de consumidores acríticos da indústria
cultural, tirando-lhes a possibilidade de refletir a comunicação
enquanto mensagem docente.
É claro que existe um condutor, cuja astúcia se atribui ao sistema
capitalista de organização que forma a sociedade de massa. A
influência desse sistema reside no nível ideológico e regulamenta o
modo de pensar das pessoas. Isto não se constitui numa novidade
na sociedade de consumo.
Entretanto, novidades são as análises, muitas vezes isoladas,
de estudiosos dos meios de comunicação de massa. São também
as pesquisas que se remetem a fundo à ideologia desses meios. E
a grande novidade dessas intervenções é a constatação do obsoletismo
dos programas de ensino, as inovações já acabadas sem a
discussão dos seus rumos e impostas às escolas das crianças, dos
comunicólogos e pedagogos. E descobre-se que o cotidiano é um
mundo de plena harmonia, de total felicidade espiritual e social,
onde nada se contesta porque tudo é despolitizado.
Assegurar que a criança é apolítica e que o ambiente onde
ela se forma é de pura neutralidade, é reducionismo pedagógico.
Burra teimosia. E, por conta dessa ilusão, dissemina-se a ideologia
escolarizada, burocrata e dominadora, que a leva à passividade
57
reprodutora do vazio intelectual do estado dominante. Conteúdos
que escorrem através dos meios de comunicação de massa, das
messiânicas histórias em quadrinhos dos livros didáticos.
Por tudo isso, e por toda penetração da indústria cultural,
percebemos a necessidade de refletir sobre ela e de questionar
seu produto: a história em quadrinho. Mas pensá-la criticamente
só será possível a partir do momento em que cada um dos responsáveis,
seja comunicólogo ou pedagogo, tenha um projeto político
que o torne capaz de intervir socialmente, e de forma crítica e renovadora,
sobre os meios que deseducam, dia a dia, milhões de
jovens em todo o mundo.
Como fator didático-pedagógico, os quadrinhos vêm assumindo
importância nos livros escolares e se tornando mais um modismo
no ensino como tantos outros instrumentos visuais destinados
ao consumismo tecnológico.
Várias edições didáticas contêm os quadrinhos como um recurso
a mais à atração de crianças e docentes, já acostumados aos
desenhos animados da TV e às revistas em quadrinhos tradicionais.
Nestas, ainda se observa a “preocupação” com um mínimo de esté-
tica, enquanto nos livros didáticos, com poucas exceções, impera o
grotesco. Estão aí livros escolares cheios da fantasia do tecnicismo,
com falas realizadas num mundo de passividade, cor-de-rosa, idílico
e puro; com mensagens de autoritarismo e de preconceitos; resgatando
um consenso de dominação e de incomunicação que leva a
se comprovar nas histórias em quadrinhos uma perda da visão real
do mundo pelas crianças.
E quando refletimos sobre esse recurso, história em quadrinhos
nos livros didáticos destinados às crianças, recurso instrumental
à educação e à formação de futuros cidadãos, torna-se interessante
um posicionamento sobre a Declaração Universal dos Direitos
da Criança, enunciada em Genebra em 1924.
Diante da clareza dos fatos que solapam a instituição do menor
sob as mais diversas justificativas promocionais (como: desenhos
animados, Papai Noel, Disneylândia, festividades guloseímicas,
histórias em quadrinhos didático-pedagógicas de falsos heróis
e fanfarrões e por toda a ingenuidade dos que analisam o livro di-
58
dático), passamos à seguinte reflexão: a possibilidade de proteção
aos direitos humanos dos educandos, dentro e fora das muralhas
escolares, entre várias opções, está na participação política dos desenhistas
dos quadrinhos, dos que os criam, na atuação política de
grupos e comunidades organizados diante dos meios de comunicação
de massa, na reelaboração do sistema educacional, na competência
política dos educadores em fazer frente à “competência”
burocrática e tecnicista que privilegia os aspectos alienadores da
realidade.
Pensar e repensar criticamente as figuras, o que dizem e
como dizem, pode-se tornar uma forma lúdica, agradável e comunicacional
de se trabalhar com os quadrinhos no processo ensino-
-aprendizagem.
Leituras recomendadas
CIRNE, Moacy — Uma introdução política aos quadrinhos,
ACHIAMÉ, Rio de Janeiro, 1982.
ECO, Umberto & BONAZZI, Marisa, Mentiras que parecem
verdades, Summus, São Paulo, 1980.
LUYTEN, Sônia M. Bibe, “HQ nacional: a ideologia de uma clas-
59
se em luta” Comunicação e Ideologia, Ed. Loyola, São Paulo, 1980.
MARQUES DE MELO, José, Contribuição para uma pedagogia
da comunicação, Edições Paulinas, São Paulo, 1974.
MARQUES, J. B. de Azevedo, Democracia, violência e direitos
humanos, Cortez Editora, São Paulo, 1982.
NOSELLA, Maria de Lourdes Chagas Deiró, As belas mentiras:
a ideologia subjacente aos textos didáticos, Editora Moraes, São
Paulo, 1981.
OLIVEIRA CARDOSO, Onésimo de, “Didática emancipatória da
comunicação: reflexões sobre as novas técnicas de ensino” in Caderno
Intercom., São Paulo, 4, 44-53, out. 1982.
60
HQ E PUBLICAÇÕES POPULARES
ISMAR DE OLIVEIRA SOARES
Presidente da UCBC, Membro da equipe do SEP AC, Mestre
em Comunicação pela ECA/ USP
1. UM ESPAÇO PARA O QUADRINHO CONSCIENTIZADOR
O desenvolvimento da literatura e da produção cultural está
intimamente vinculado às contradições do momento histórico. Assim
ocorreu com as histórias em quadrinhos surgidas no Ocidente
(principalmente nos Estados Unidos), desde o final do século XIX.
Para cada grande momento, uma temática, uma estrutura de enredo,
um tipo de herói, muitos dos quais com vida longa e penetração
universal.
No Brasil, como já é sabido, as HQ expandiram-se pela força
da implantação de projetos americanos, como aliás ocorreu em todos
os países do Terceiro Mundo. Os quadrinhos nacionais, ainda
que lutando por um lugar ao sol — ou por isso mesmo — acompanharam
ideologicamente a produção estrangeira, como confessou
Maurício de Souza a Dagomir Marquezi: “Na verdade, nossos argumentos
seguem a linha americana, o desenvolvimento dos quadrinhos
americanos. Afinal, o nosso público está acostumado com
eles, e o público do mundo inteiro também está acostumado. Então
ela virou universal. E nós temos uma grande vantagem, aqui no Brasil:
tudo o que produzimos aqui é universal”.
Os leitores brasileiros, por sua vez, desde o início do século,
mas principalmente a partir da década de 30, viveram as emoções
das vitórias do “modo de viver americano” sobre os “perturbadores
da ordem”, desde os piratas de alto mar, os guerreiros nazistas, os
vilões comunistas e os monstros de outros planetas.
Formou-se então, ao público, a expectativa de uma produção
estereotipada. E, de pai para filho, consolidou-se o gosto por
personagens e tipos de enredo que exercem, inclusive, a função
de excluir qualquer tentativa de exceção. Mesmo as experiências
61
brasileiras mais notáveis por seu avanço na área política não passaram
de crítica de costumes, a partir da ótica da pequena burguesia.
História em quadrinhos significou sempre, para a maioria dos brasileiros,
Walt Disney.
A partir da produção “underground” da década de 70 — produção
carente de um projeto político mais compromissado com as
classes subalternas — é que surgiu o envolvimento de inúmeros desenhistas
brasileiros com a literatura popular. Abriu-se, então, espaço
para o quadrinho conscientizador de um Lor, em Belo Horizonte,
ou de um Bira, em São Paulo. Muitos destes desenhistas emprestam
seus talentos às classes populares em intervalos de refeições
ou em fins de semana.
2. AS “SÉRIES SAGRADAS”, SUBSTITUÍDAS PELAS PUBLICAÇÕES
POPULARES
Nas duas primeiras décadas deste século, o Brasil viveu, nos
centros urbanos que cresciam com a chegada dos imigrantes, intensos
movimentos culturais. Os sindicatos, dada a omissão do Estado
na área, ofereciam serviços no campo cultural, promovendo
a alfabetização dos operários e de seus filhos, organizando espetáculos
teatrais de orientação anárquica, imprimindo jornais. Os
jornais, editados muitas vezes na língua de origem dos operários
imigrantes, representaram tentativas de comunicação popular. Neles,
o desenho, a caricatura, o quadro humorístico apareciam com
freqüência.
À medida que o movimento operário foi sendo cerceado e o
populismo, na era Vargas, tomou conta do espaço cultural do país,
a Igreja ensaiou algumas experiências com folhetos e livrinhos, reproduzindo,
em quadrinhos, passagens da Bíblia ou narrando a vida
dos santos mais populares. Os quadrinhos das “Séries Sagradas”
serviram para as crianças como complemento do catecismo de primeira
comunhão.
Hoje, esta literatura saiu praticamente de circulação, sendo
substituída por uma produção mais artesanal, igualmente comprometida
com a catequese, dentro, porém, de fundamentos teológi-
62
cos renovados.
3. O QUADRINHO COMO CONDUTOR DO PROCESSO COMUNICACIONAL
Assistimos, durante a década de 70, certamente como resposta
à censura e às perseguições políticas da ditadura militar à imprensa,
principalmente a alternativa, a um florescer de publicações
populares, editadas pelas comunidades, associações de moradores,
sindicatos e oposições sindicais e pelos centros de documentação e
de comunicação popular, muitos deles vinculados à Igreja.
Ao esforço deste trabalho voluntário e eminentemente polí-
tico, uniram-se inúmeros desenhistas e o quadrinho foi incorporado
como instrumento de luta. E do quadrinho alienador, copiado
de modelos estrangeiros pela maioria dos desenhistas brasileiros,
passou-se ao quadrinho agitador e conscientizador.
Inicialmente, o quadrinho político dos textos populares funcionou
como simples ilustração de uma narrativa literária que podia
incluir dissertações, poesias de cordel, explanações didáticas sobre
temas de interesse do grupo. Posteriormente, com os recursos colocados
à disposição dos artistas, pelos centros de documentação
e comunicação, introduziu-se o enredo quadrinhos, com tema, personagens,
ação. Tal fato acabou por transformar o quadrinho, de
elemento periférico, em condutor do processo comunicacional.
4. O VILÃO É O CAPITALISMO.
O HERÓI, A COMUNIDADE ORGANIZADA
As publicações populares são pobres. Podemos afirmar, contudo,
que o que os quadrinhos populares perdem em qualidade
técnica, ganham em definição política. Neles, os problemas parti-
culares ou individuais, que caracterizam a temática que envolve os
quadrinhos comerciais, desaparecem para dar lugar à questão social:
o vilão não é qualquer monstro submarino ou gênio malfeitor;
o vilão é o sistema capitalista opressor.
A solidariedade grupal e comunitária substitui os heróis eter-
63
namente sós, universais, apátridas, superdotados com poderes mágicos,
sempre a serviço da “ordem” que não pode ser perturbada. O
herói é o próprio povo, enquanto comunidade organizada, em luta
pelos seus direitos.
Os quadrinhos populares, pelo que parece, ainda divagam
entre o maniqueísmo clássico (a luta entre o “bem” e o “mal”) e a
dialética histórica. Em ambos os casos são obrigados, pela natureza
dos enredos ou pela pobreza dos recursos, a trabalhar com conceitos
simplificados, ou mesmo chavões ou palavras de ordem. Tal fato
dificulta a aceitação da produção popular por setores mais conservadores
das Igrejas cristãs e das lideranças trabalhistas.
5. FORMAS DE UTILIZAÇÃO DO QUADRINHO
Podemos distinguir, nas publicações populares que se utilizam
do desenho quadrinizado, três objetivos quanto ao emprego
deste recurso artístico:
1° Ilustração de textos
O texto (narração, dissertação, versos) forma o conteúdo básico
da comunicação e traz a mensagem explícita. O desenho é secundário
e substituível, tendo a função de embelezar a página ou
chamar a atenção do leitor para algum detalhe, ou mesmo para o
essencial do discurso.
2° Articulação da mensagem
Quando o desenho é o organizador do conteúdo veiculado,
transformando-se em elemento essencial à compreensão do comunicado,
ao lado da explicitação verbal, faz-se uso do balão e do
“recordatório” (textos dentro do quadro ou entre os quadros, esclarecendo,
acrescentando informações, apresentando conclusões).
64
30 Tradução semiótica da mensagem para a linguagem própria
das HQ
A tradução semiótica leva em consideração a personagem, o
enredo e a ação.
A personagem protagonista é o herói das histórias convencionais.
É apenas ponto de referência ou coordenador de algum grupo
de oprimidos. Na verdade, não se criou, ainda, histórias para personagens,
mas apenas personagens para histórias.
O enredo é a luta do povo. São identificáveis, nos quadrinhos
populares, algumas preocupações quanto aos enredos:
65
a. Recuperação da memória popular, quando são recordadas
aos trabalhadores passagens da luta de determinado grupo, em
momentos dados da história da comunidade, da fábrica, da cidade,
ou mesmo do país. Os cadernos do CET — Centro de Estudo do
Trabalho, de Belo Horizonte — publicaram, em 1982, uma história
sobre “O Massacre de Ipatinga”, relatando a greve de 7 de setembro
de 1963 na metalúrgica Usiminas, quando pelo menos oito empregados
foram assassinados pelas forças de repressão a convite da
própria direção da empresa.
b. Articulação da luta para fins específicos e imediatos. É o
trabalho de propaganda, da orientação, utilizado em épocas de
campanhas salariais, de preparação ou execução de movimentos
paredistas, entre outros.
66
c. Conscientização dos trabalhadores sobre problemas da
classe. O objetivo, aqui, é a permanente educação política dos
membros da comunidade, num esforço para se passar as informações
necessárias para manter a coesão do grupo e seu espírito de
luta.
A ação, dentro do espaço do quadrinho popular, está em função
da trama. Basicamente, os enredos se compõem dos seguintes
momentos de ação:
1. apresentação do problema;
2. diálogo de esclarecimentos;
3. violências causadas pela situação de conflitos;
4. organização dos trabalhadores para a luta em conjunto.
Em decorrência da proximidade dos leitores com o enredo
apresentado, os quadros oferecem a desejável síntese, economizando
espaço e favorecendo um entendimento imediato das relações
entre os instantes focalizados.
6. A PRODUÇÃO DE QUADRINHOS POPULARES
Os teóricos da educação popular na América Latina vem insistindo,
em vários congressos realizados, nos últimos anos (e isto
se constatou no IX Congresso da UCBC — União Cristã Brasileira
de Comunicação Social, realizado em São Bernardo do Campo, em
1980), que a autêntica comunicação popular deve ser dialógica.
Neste sentido, a produção de material popular exige a participação
de grupos de base testando os subsídios que serão repassados a
todo o movimento popular.
O processo dialógico é moroso e necessita de recursos e de
disponibilidade de mão-de-obra. Esta realidade limita a possibilidade
de produção em larga escala. No Brasil, há cerca de 80 centros
de documentação e de comunicação popular dedicados a esta tarefa,
trabalhando junto a públicos específicos (trabalhadores rurais,
trabalhadores urbanos, determinadas categorias de trabalhadores,
índios, movimentos contra a carestia, associações de moradores,
oposições sindicais etc).
Estes centros organizam-se a partir da colaboração de volun-
67
tários e profissionais remunerados. Os desenhistas estão presentes
em boa parte desses centros, ou pelo menos prestam serviços esporádicos.
Aos interessados em informações sobre os quadrinhos populares
e os centros produtores mais próximos de suas cidades, damos
o endereço do CPV — Centro de Pastoral Vergueiro, instituição
dedicada a distribuir quase todo o material produzido, atualmente,
no país: Rua Vergueiro, 7290, Cep 04272 — São Paulo — SP.
68
HQ E ÁLBUM DE FIGURINHAS
PAULO CEZAR ALVES GOULART
Arquiteto, pesquisador de artes gráficas, editor da Escola de
Folclore e Edições Linha-d’água
Toda vez que alguém se propõe a escrever algo sobre um objeto
já conhecido, mas que nunca, ou raras vezes, mereceu um estudo
mais detalhado, a dificuldade parece se iniciar em como apresentar
o objeto — já que devem ser boas as razões para que seja
investigado e divulgados os resultados. No caso do álbum de figurinhas,
a superação mais significativa a ser feita não se situa tanto
no levantamento e na correlação de dados, mas em qual critério de
leitura seu entendimento se torna mais visível e consistente.
Que razões justificam uma abordagem mais minuciosa dos álbuns
de figurinhas? O que constitui o álbum de figurinhas?
Nesta primeira tentativa procurou-se levantar, ainda embrionariamente,
alguns dos pontos que se observou relevantes. Considerou-
se, todavia, de maior importância, não estritamente as respostas,
mas que perguntas são úteis fazer para compreender mais
adequadamente o álbum de figurinhas.
FIGURINHAS E ÁLBUNS DE FIGURINHAS
Anterior ao surgimento dos álbuns de figurinhas, no Brasil, na
década de 30, e dentro das características em que é atualmente conhecido,
as figurinhas, sem o álbum para serem colecionadas, têm
uma pequena história a contar.
O seu ancestral mais remoto, considerando que a figurinha é
uma impressão sobre folha que se tornará avulsa e circulável, está
localizado na Idade Média. Por volta do século XV, surgiu um tipo
de estampa, isto é, figura impressa, cuja finalidade era divulgar conhecimentos,
curiosidades, datas comemorativas ou propícias ao
agricultor, eventos e vultos religiosos etc. Esta estampa, denominada
popular, supria uma série de necessidades de visualização de
69
informações que habitualmente percorriam a população através
da tradição oral. As estampas populares tornaram-se verdadeiras
disseminadoras da imagem impressa para uma população que não
tinha acesso às obras de artistas nem às bibliotecas.
Com a introdução do processo de impressão cromo-litográfi-
co, inventado em 1826, na França, estas estampas passam a ter a
possibilidade de serem reproduzidas em várias cores, em melhor
qualidade e maior quantidade. Disto se aproveita a publicidade
para tornar mais atrativos seus produtos, com a inserção de pequenas
estampas para a ornamentação de caixas e calendários.
Na última década do século XIX é que estas estampas passam
a ser adotadas no Brasil: carteiras de cigarros, balas, produtos
alimentícios e farmacêuticos fizeram uso de estampas, em caráter
de brinde. Mesmo após o aparecimento de álbuns, muitas figuras
avulsas continuaram a aparecer.
Em 1934, surge um dos primeiros álbuns que tiveram grande
repercussão e a partir do qual as figurinhas, que vinham princi-
70
palmente em balas, passaram a ser lançadas sistematicamente no
mercado com os respectivos álbuns. A fábrica de balas “A Hollandeza”
fez um álbum com este mesmo nome, cujos assuntos tratavam
de: lugares e construções, natureza, invenções, histórias, personalidades,
curiosidades em geral, inaugurando um tipo de coleção que
iria servir de modelo a muitos outros (fig. 1); além da novidade, a
possibilidade de participar de concurso com direito a prêmios deu
impulso a este veículo (desde então, as “figurinhas difíceis” sempre
estiveram acompanhando os álbuns, direta ou disfarçadamente).
Entre as décadas de 20 e 50, circularam as estampas Eucalol,
numa das mais longas séries lançadas no Brasil, e com grande
receptividade, formando ao todo um conjunto de mais de 2000 estampas
(fig. 2). Nos anos 30 e 40, certamente, os álbuns de figurinhas
(cerca de 50 títulos surgiram neste período) tiveram um papel
muito importante na divulgação didática de imagens, de caráter escolar
ou não: artistas, personalidades históricas, regiões do mundo,
animais, cidades etc. tornaram-se acessíveis visualmente, já que livros
escolares e outras publicações não contavam com estes temas
organizados em série e ilustrados em cores.
71
Apesar de as figurinhas terem sido utilizadas intensamente
como brindes de empresas até os anos 50 e, a partir daí, bem moderadamente,
já em 1949, com o álbum “Branca de Neve e os Sete
Anões”, publicado pela Editora Vecchi, duas novas modificações
ocorrem:
1) as figurinhas vão se desvinculando do uso promocional de
produtos e passam a ser colocadas em envelopes;
2) os álbuns de figurinhas deixam de ser utilizados exclusivamente
por empresas e passam a ser publicados por editoras (Mar-
tins Fontes, Ebal, Aquarela e outras, além da própria Vecchi).
Os álbuns vão ampliando espaço para temas nacionais (ar-
tistas, produção, história, cidades, curiosidades). Surgem, a partir
de 1954, álbuns trazendo o jogo completo de figurinhas. Junto a
outros temas (desenhos animados, fábulas, animais etc.) os álbuns
ampliam, nesta década, seu caráter de memória, com as imagens
procurando fixar aquilo que ficará como lembrança de um evento,
de uma situação, extrapolando assim o objetivo de ilustrar, de esclarecer
(fig. 3).
Durante os últimos 20 anos, alguns temas tiveram seu uso reduzido
(artistas de rádio, progresso humano, flores e frutos, espor-
72
tes — exceto futebol), enquanto outros permanceram ou aumentaram
(animais, futebol, Brasil, HQ, artistas, filmes e personagens de
desenho animado para TV). Para esses anos, além das novidades
temáticas — destaque-se aqui dois álbuns: um sobre discos voadores
e outro a respeito da origem da vida —, sobressaem-se as
técnicas, com a execução de figurinhas em diversos tipos de materiais.
O que mais se evidencia neste período, em termos numéricos
de títulos publicados, é o álbum como divulgador das idéias e dos
produtos de ‘Brasil grande’, principalmente entre 69 a 76; e como
aproveitamento de outras áreas ou personagens de veículos específicos
(futebol, revistas de quadrinhos, TV). Observe-se ainda que,
desde 1979, vários governos estaduais passaram a fazer uso dos
álbuns de figurinhas como meio indireto fiscalizador do ICM.
COMPONENTES GRÁFICOS
O álbum de figurinhas utiliza três elementos materiais distintos:
1) álbum; 2) figurinhas; 3) envelope — sendo que este é o que
identifica a coleção, protege, veda e torna transportável a figurinha.
Uma característica primordial para o entendimento dos álbuns
de figurinhas, e que o diferencia das demais publicações, é a
necessidade de articular dois componentes gráficos para se formar:
álbum e figurinha. Esta distinção é útil para se entender como é
trabalhada cada uma destas partes e como interagem, desde a produção
até a colagem.
Esquematicamente, pode-se entender um álbum de figurinhas
do seguinte modo:
• O álbum é, em geral, um caderno onde se encontra uma
série de espaços delimitados e numerados (aqui designados de
quadros), acompanhados de um título ou texto explicativo e reservados
às figurinhas (quer sejam assim designadas ou não).
• As páginas deste álbum podem conter: a) apenas os quadros;
b) algumas ilustrações entre os quadros; c) ilustração de página
toda, mas sem relação imediata com a disposição da figurinha;
d) ilustração de página toda sob a forma de um cenário onde as
figurinhas só podem ser colocadas em determinados lugares para o
73
conjunto da ilustração fazer sentido.
• Os quadros poder ser: a) um retângulo (ou qualquer outra
forma geométrica) delimitado por um traço; b) delimitados por vinhetas
de quaisquer tipos; c) inexistentes, estando a figurinha indicada
apenas pelo número e a colagem se faz coincidindo a imagem
da figurinha com a respectiva imagem impressa no álbum.
• As figurinhas reproduzem imagens fotográficas, personagens
de HQ, caricaturas, desenhos realistas, mapas, diagramas, frases.
• Na relação entre figurinhas e álbum é que surgem, graficamente,
soluções criativas de imagem. Há duas relações possíveis: a)
uma objetiva, através da colagem; b) outra, subjetiva, decorrente
do vazio existente no álbum a ser preenchido e que causa alguma
espécie de expectativa.
• A colagem pode ocorrer nos seguintes modos: a) integral
da figurinha na superfície do quadro, estando o texto situado fora
deste; b) parcial (pela margem superior), pois o texto fica dentro do
quadro e é preciso erguer a figurinha para ler o que está impresso;
c) a figurinha é encaixada (poucos são os casos atuais), pois a informação
está no verso desta, contendo o álbum cortes adequados
para a introdução da figurinha.
• A expectativa (e a resolução desta esgotam, praticamente,
toda leitura que um álbum oferece) surge em função do quadro
estar vazio, apenas com a indicação numérica, ou já ter impressa
a mesma imagem da respectiva figurinha. Neste segundo caso, o
álbum ‘Como diz o ditado’ (Editora Abril, 1982) faz um jogo interessante:
a imagem impressa no álbum é a representação de um
ditado que só será esclarecido através deste ditado impresso textualmente
na figurinha.
É nesta particularidade do álbum de figurinhas, de poder trabalhar
a relação entre álbum e figurinha, onde se situam as maiores
alternativas gráficas e lúdicas. O álbum, como um objeto a ser
preenchido, é algo que vem antes — aquilo que se torna imediatamente
conhecido e que vai regulamentar, graficamente, o preenchimento;
a figurinha, como aquilo que vai elucidar o quadro e sua
informação, é o que vem depois. Neste intervalo de tempo, de onde
74
se extrai a noção de mudança através de dois momentos distintos
(passado e presente), está uma das significativas contribuições que
o álbum de figurinhas pode dar, já que esta separação (física e temporal)
é parte integrante de sua estrutura.
Outro fator importante, decorrente desta separação álbum e
figurinhas, é a possibilidade de se fazer o álbum numa técnica de
reprodução e utilizando-se um determinado tipo de papel, e a figurinha
em outras técnicas de impressão sobre os mais diversos tipos
de materiais: entre estes estão as figurinhas adesivas, transfer, fi-
gurinhas em material plástico ou em folha de flandres (chapinhas
metálicas). Como técnica de reprodução de figurinhas, é oportuno
lembrar o álbum de artistas (com fotos autênticas) que a Aquarela
publicou em 1955; o álbum “Quem vê cara. . . não vê coração”,
de 1977 (com tiragem reduzida), de Luiz Tatit e Giba Gomes, cujas
figurinhas foram feitas na técnica de gravura em metal (fig. 4);e o
“Almanaque das Bandeiras”, com figurinhas mimeografadas, executado
pelas crianças da 1.a série da Escola Carandá (1982, São
Paulo). Em perspectiva semelhante, considerem-se ainda aquelas
figurinhas que são obtidas a partir de recortes de folhas impressas
(“Guerreiros e soldados”, Editora Abril, 1976), que fazem sugerir
múltiplas formas de participação do leitor-colecionador na própria
montagem do álbum.
75
A COLEÇÃO DE FIGURINHAS
O álbum de figurinhas estabelece, usualmente, duas simplifi-
cações: a) ser destinado a um público quase que exclusiva e necessariamente
infantil; b) explorar o aspecto mais elementar e quanti-
tativo do ato de colecionar: o vir a ter a série completa.
O colecionismo (de qualquer coisa) é uma característica natural,
a partir dos 7 anos de idade, ocorrendo mais intensamente
até os 12; neste período, o álbum de figurinhas aparece como um
meio atraente de sistematizar esse fator psicossocial. Após isto, o
colecionismo se reorganiza e vai assumindo outras formas, desde
as mais divulgadas (selos e moedas) até as mais abstratas e imprevisíveis.
Considerando-se o álbum um suporte para as peças de uma
coleção, sua finalidade é estar completo. Assim, há duas alternati-
vas: ou se completa durante a permanência e interesse pelos envelopes
nas bancas (em média, de três a seis meses), ou não será completo.
Em qualquer hipótese, o fato de se preencher integralmente
ou não acaba por se tornar, num segundo momento, questão sem
importância, a partir do momento em que é guardado, inutilizado
de diversas formas até ser jogado fora como artigo desnecessário,
não se observando um retorno ao álbum para qualquer espécie de
consulta, reiterando, assim, seu caráter efêmero, circunstancial e
descartável.
Sendo o álbum um produto que, com o gradual preenchimento,
acaba tornando-se caro (em relação a gibis, revistas e livros),
não seria pertinente estudar formas de torná-lo mais permanente?
Por ter características essenciais de coleção, o dado que prevalece
na figurinha é ser feita para ser obtida e pouco lida, e que
pode ser resumido do seguinte modo: “Esta eu tenho, esta eu não
tenho”. O texto torna-se elemento praticamente dispensável, já
que a regra é o uso de pessoas, personagens, eventos e objetos já
conhecidos. A leitura de um álbum de figurinhas é substituída pela
diversidade de motivações paralelas como, por exemplo, a troca e o
bafo, também possíveis devido às repetidas, às excedentes da série
e decorrentes da necessidade de se adquirir envelopes com figuri-
76
nhas, entre as quais podem estar aquelas que faltam na coleção.
Enfim, já que o álbum constitui um projeto para coleção, para
organização, para se colocar nos lugares e posições indicadas —
num exercício restrito de associação — e já que o leitor-colecionador
tem uma interferência necessária, através da colocação das fi-
gurinhas, por que não possibilitar uma participação mais inventiva,
mais integral?
UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA
Figurinhas e álbuns já foram utilizados em algumas escolas
como recurso de apoio às atividades curriculares, quer servindo
como imagem a partir da qual se elabora uma redação, quer sendo
aplicada de várias formas aos exercícios práticos de Educação Artís-
tica.
Uma experiência que vale ser lembrada se refere ao “Almanaque
das Bandeiras”, feito em 1982, pelos alunos da 1.a série da
Escola Carandá, em São Paulo.
Este álbum surgiu na tentativa de se orientar o interesse das
crianças, então concentrado nas figurinhas de jogadores de futebol,
por ocasião da Copa do Mundo de 82 na Espanha. Como esta dis-
77
puta envolvia vários países, e este dado já vinha sendo tratado nas
aulas (onde fica este país? qual sua língua? etc), houve uma proposta
no sentido de se fazer um álbum com figurinhas que falasse,
de alguma maneira, de diferentes países, catalisando, deste modo,
as necessidades de aprendizagem e a motivação das crianças em
torno das figurinhas.
Discutiu-se sobre qual assunto o álbum iria tratar; o tema
bandeiras foi o escolhido. A partir disto, ocorreu todo o processo de
produção: definição do título, tamanho, número de figurinhas (80),
como fazer as imagens, execução de arte final (cópia das bandeiras
a partir de um atlas geográfico, cópia esta que, nesta faixa etária, é
atividade indispensável), preparação para reprodução em mimeógrafo,
acabamento e vendagem.
Todas as etapas foram executadas pelos alunos, com a orientação
das professoras, onde, além do aprendizado imediato (português,
matemática, geografia, idiomas, operações manuais), outras
atividades, mais complexas, puderam ser extraídas da execução do
álbum: programação das tarefas, articulação das diversas etapas,
manuseio do mimeógrafo, sistema de vendas. Como complementação,
ficou para as crianças da escola que adquiriram o álbum o preenchimento
das figurinhas com as respectivas cores das bandeiras.
Trata-se, portanto, não só de um fato que pode ser adequado
a experiências em outras séries, de acordo com as diferentes necessidades
pedagógicas, como também, de um modo mais amplo,
introduz o estudante no conhecimento do processo editorial, que
serve não só para álbuns como também para jornais, histórias em
quadrinhos, revistas e um variado número de publicações passíveis
de serem incorporadas às práticas disciplinares.
CONCLUSÃO
O álbum de figurinhas tem mantido uma atuação cautelosa
em demasia, identificando-se várias vezes com a desinformação ou
mesmo com abordagens ou temáticas alienantes. Apontam para
questões sem tensão, sem inquietação, explorando muito pouco o
amplo território de assuntos e tratamentos à disposição. Alie-se a
78
isto o fato fundamental de que figurinhas e álbum são duas unidades
distintas e isto permite um amplo jogo de articulação entre
ambos.
As experiências que tentam tornar o álbum de figurinhas um
produto mais saudável estão acontecendo muito timidamente. A
tendência puramente comercial de utilizar imagens — pessoas e
objetos — já aceitos deixa muito pouco espaço para que aflorem
outras atualidades (enquanto assunto): a mulher, o negro, o operário,
o índio, o ambiente, a informação, a terra, a cidade, o menor,
o carnaval, as festas, as religiões etc. — isto sem considerar
as diferentes abordagens que podem ter futebol, atores, animais,
transportes, brincadeiras e outros temas já incorporados ao universo
temático do álbum de figurinhas, já que tais temas fazem parte,
de diversos modos, de nossa vivência cotidiana. Lembre-se ainda
do âmbito ficcional que foi pouquíssimo tratado pelos álbuns.
Uma das constatações que tornam claro este problema é a
ausência de espaço estético próprio, pois na maior parte do material
que se observou não há um álbum de figurinhas enquanto um
projeto gráfico-artístico profissional; há uma encomenda com os limites
muito definidos para o trabalho deste profissional. Este espaço,
assim como o experimental e o pedagógico, constituem, muito
provavelmente, o campo de onde podem surgir álbuns que reflitam
uma busca mais incisiva das potencialidades de sua linguagem, por
suas funções lúdicas, artísticas, didáticas, documentais e políticas,
onde só através deste conjunto será possível um compromisso mais
conseqüente para com os álbuns de figurinhas.
Leituras recomendadas
Parte significativa do que foi feito até o momento, nesta pesquisa,
deve-se ao acesso às fontes primárias, entre as quais mencione-
se, especialmente, a coleção de Álbuns de Figurinhas de Jorge
Pinto Coelho.
Como o assunto é inédito, não há praticamente nada escrito
a respeito. Fica esta contribuição.
79
HQ COMO PRÁTICA PEDAGÓGICA
SÔNIA M. BIBE LUYTEN
Jornalista, Mestre em Comunicações pela ECA/USP, Professora
de HQ na ECA/USP e SEPAC
No momento em que pais e pedagogos considerarem as histórias
em quadrinhos como seus aliados, isso virá a possibilitar um
niímero ilimitado de práticas a seu serviço. Os quadrinhos podem,
de um lado, despertar manifestações artísticas e, de outro, ser um
poderoso auxiliar em sala de aula e comunidades.
Desta maneira, a prática pedagógica poderá ser realizada de
inúmeras maneiras a partir deste roteiro, contando também com a
criatividade de pedagogos e de agentes de pastorais. É de grande
importância estimular a consciência crítica, a partir da leitura dos
quadrinhos para extrapolar as discussões sobre a realidade brasileira
e o meio em que vivemos.
As possibilidades são muitas. Segue-se um roteiro, apenas
como sugestão, que pode ser desenvolvido de acordo com o momento,
o local e a circunstância de sua utilização.
1. ANALISE DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS
Desenvolver e promover estudos, em grupos, de leitura crí-
tica dos quadrinhos, conforme o estágio de desenvolvimento da
criança e/ou do adulto. As análises de revistas e personagens podem
ser feitas, após sua leitura, de acordo com:
a. Forma
• Como é apresentada a expressão física das personagens (reais,
estilizadas, caricatas etc).
• Se há dinamismo na ação da história (movimentada, monótona).
• Como a realidade é apresentada e representada graficamente
(cenários grandiosos ou simples, recursos gráficos).
80
• Quantidade de quadrinhos por página (equilíbrio e dinamismo).
• Como é feito o enquadramento (ângulos, planos, perspec-
tivas).
• Uso adequado de cores como símbolo ou como são feitos os
recursos em branco e preto; efeitos de iluminação.
• Registro de impressão em cores (imagens duplas, contornos
mal definidos).
• Qualidade do papel impresso.
• Uso adequado de títulos, legendas, balões, onomatopéias
(como o desenhista faz uso destas técnicas para dar mais movimento
à história).
b. Conteúdo
• Como o autor mantém o suspense e a ação da narrativa
(análise do enredo da história).
• Análise das personagens a partir dos heróis (o aspecto físico
em combinação com o psicológico; tipo de vocabulário que emprega;
sentimentos que desperta no leitor; como reage nas situações
que enfrenta — com coragem, medo, amor, covardia etc).
• Se a história dá margem a estereótipos tais como: familiares
(como são apresentadas as figuras do pai, da mãe, dos irmãos,
dos avós); profissionais (o conceito de certas profissões: médicos,
operários, lixeiros, industriais); sociais (como são vistos os ricos, os
pobres, os turistas, os marginais); nacionais (em que circunstâncias
aparecem os negros, os asiáticos, os americanos etc); culturais
(como é vista a família, o trabalho, a arte, a juventude, a velhice
etc). Estes são pontos importantes que devem ser desenvolvidos
e analisados não só a partir de uma história, mas também do conjunto
da produção de algum determinado autor e desenhista de
quadrinhos.
2. O USO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS COMO TEMA DE
DISCUSSÕES
A partir de uma reflexão sobre os conteúdos, pode-se fazer
81
uma identificação das personagens das histórias em quadrinhos a
partir de atitudes, sistemas ideológicos e, inclusive, a justificativa
de êxito pelo mecanismo de projeção que os heróis transmitem.
Através disso podemos diferenciar a “linguagem aparente” e a
“linguagem oculta” a nível do discurso que aparecem em todos os
meios de comunicação. Alguns exemplos de como se pode abordar
isso em sala de aula:
• Utilização de uma revista como centro de interesse em torno
de um tema de aula. Exemplos: a partir de uma personagem
índia, fazer uma abordagem histórica; das histórias de guerra, dar
explicações sociais e econômicas.
• Considerações de temas gerais através de qualquer história
em quadrinhos, propiciando um debate. Exemplos: a violência, o
amor, o racismo.
• A partir de características dominantes da personalidade de
certos heróis ou heroínas, pode-se efetuar, também, um juízo críti-
co de valores que são aceitos pela sociedade.
3. O USO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA LINGUAGEM
ESCRITA E ORAL
Os quadrinhos podem estimular muitos exercícios de linguagem
escrita e oral, sendo um excelente veículo de estímulo para
revelar aptidões pessoais — tanto literárias como desenho — no
momento em que se utilizam as HQ nas seguintes áreas:
• Criação de uma HQ sobre um tema ou tópico de interesse,
como trabalho individual ou de grupo, utilizando-se os roteiristas
(que fazem o texto) e os desenhistas (imagem).
• Leitura de um texto e, posteriormente, a quadrinização da
história, delimitando-se o tamanho da mesma (uma, duas ou mais
páginas). É uma boa forma de exercício usar, simultaneamente, o
mesmo texto e sua quadrinização em diferentes extensões.
• Pode-se utilizar também o sistema inverso: a partir da leitura
de uma história em quadrinhos, transpor o conteúdo para a
82
linguagem literária, como prática de redação.
• No ensino de línguas estrangeiras, há muitas oportunidades
de utilização: propiciar a formação de diálogos nos “balõezinhos”
em uma história desenhada, recortada ou adaptada para essa fi-
nalidade; criação de uma HQ sobre um tema de gramática (uso de
verbos, substantivos etc).
• Feitura de cartazes específicos para salas de aulas, escolas,
comunidades, paróquias, onde se queira veicular uma mensagem,
de forma quadrinizada, ou utilizando-se devidamente seus elementos:
balões, personagens, onomatopéias.
4. HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA
DE PERSONALIDADE
É possível realizar inúmeras brincadeiras ou testes com crianças
e adultos a partir de certos critérios como: dentre uma gama
de personagens — heróis, heroínas, vilões, animais, personagens
secundárias —, pedir para escolher as de que mais gostam, as que
repudiam, quais escolheriam como seus amigos, as que gostariam
de ser etc. Com a ajuda da psicologia, isto se torna um instrumento
para a identificação leitor-personagem onde, através da fantasia,
projeta sua personalidade ou aquilo que gostaria de ser.
5. HISTÓRIAS EM QUADRINHOS E LIVROS DIDÁTICOS
Com o uso crescente das HQ nos livros didáticos (muitas vezes,
apenas com o intuito comercial), é possível e conveniente fazer
uma leitura crítica com os alunos a fim de observar certos pontos:
• Se há uma linguagem própria das HQ: esta linguagem estará
adequada na proporção texto-imagem, na sua disposição na
página e na utilização dos recursos expressivos para a dinâmica da
ação (balões, onomatopéias etc). Os erros mais comuns que aparecem
nos livros didáticos que usam as HQ são:
— Quadrinhos com excesso de texto: isto põe a perder
o que mais caracteriza as HQ, que são o dinamismo e a ação.
83
— Imagens muito chamativas: há casos de livros com
imagens tão berrantes que o aluno se distrai com o visual e as
personagens e se esquece do conteúdo veiculado.
— Roupa nova para velhas imagens: há livros que, apenas
para vender mais, inserem alguns elementos de quadrinhos
(balões ou onomatopéias) em velhas imagens conhecidas.
A figura de uma estátua de D. Pedro I, por exemplo,
apenas acrescida de um balão contendo a frase “Independência
ou morte!”, não quer dizer que seja HQ.
• Verificar se a disciplina é afeita à quadrinização: o ensino
de línguas, por exemplo, presta-se muito bem para o uso dos quadrinhos
como auxílio na conversação, fixação da gramática etc. No
campo das Ciências Humanas (Geografia, História, Sociologia), contudo,
quando a quadrinização é mal feita, a imagem pode transmitir
figuras deturpadas, gerar estereótipos, conotações ideológicas, ou
seja, interpretações errôneas dos acontecimentos. Este é um ponto
muito questionável e perigoso, pois o aluno poderá levar muito
tempo para desfazer-se de uma imagem negativa adquirida nos livros
didáticos e dissociá-la do conteúdo veiculado conjuntamente.
• Se o livro for ruim, os alunos podem quadrinizar uma outra
versão: o objetivo de se fazer uma leitura crítica com os alunos sobre
seus livros didáticos será saudável na medida em que se puder
reagir com uma contraproposta. Assim, os próprios alunos poderão
quadrinizar alguns conteúdos e fazer, por meio de pesquisa, novas
versões, porém, sempre com o auxílio do professor.
6. USO DE HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NAS COMUNIDADES,
PARÓQUIAS E GRUPOS
• Veicular na forma quadrinizada os temas e as mensagens
que se queira transmitir e discutir. Além de ser de fácil leitura e
captação, incentiva os membros do grupo com aptidão para roteiro
e desenho.
• Através da escolha de determinadas histórias em quadrinhos,
propiciar debates com temas de interesse para o grupo.
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Exemplos: a família, o amor, a sociedade, a violência.
7. A UTILIZAÇÃO DO ÁLBUM DE FIGURINHAS NO CONTEXTO
PEDAGÓGICO
• Explorando a idéia de coleção: eleger um tema em jornais
e revistas para ser recortado e organizado em álbum. As imagens e
os textos arquivados poderão ser os mesmos que os da publicação
ou sofrer um processo de adequação a um projeto para compor o
álbum de figurinha. As imagens podem ser reproduzidas manualmente,
xerox etc, para que várias pessoas possam ter o álbum e as
figurinhas.
• Temática: os assuntos são ilimitados. Seguem algumas sugestões:
álbum da família (sua história, personagens, hábitos, curiosidades
— tudo isso munindo-se de fotos, cartas); álbum do bairro,
da paróquia, da comunidade, da escola (sua história, personagens,
acontecimentos etc); álbum de questões nacionais e/ou locais (projetos
visuais e textuais incentivando a melhoria de condições de
vida, dos problemas etc).
• A execução do álbum: o álbum pode ser: a) ajuntamento de
papéis em branco; b) execução de originais para tirar cópias de forma
aspiralada, para torná-lo mais resistente. As figurinhas podem
ser: a) desenhadas uma a uma; b) recortadas de jornais e revistas;
c) aproveitamento de rótulos, folhinhas, envelopes, papéis, fotos —
num exercício de colagem; d) feitas para serem reproduzidas (mimeógrafo,
xerox, carimbo). As diferenças que surgirem de álbum
para álbum e de figurinha para figurinha não devem ser consideradas
inadequadas e, sim, providenciais, para discutir o universo da
interpretação e da importância da visão pessoal.
• O tratamento da imagem: sugere-se a impressão no álbum
em contraste com a imagem das figurinhas. Exemplos: a) passado
x presente: enquanto no álbum aparece a impressão de uma foto
antiga, a figurinha traz uma reprodução da foto desse mesmo lugar
de forma recente; b) verdade x mentira ou certo x errado: no álbum
há uma versão mentirosa sobre um fato e, na figurinha, a certa. A
imagem da figurinha terá um aproveitamento maior se servir de
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oposição ou de complementação à informação já impressa no álbum.
• A participação do leitor-colecionador: as várias formas de
recorte, pintura, colagem no álbum, e, enfim, o aspecto lúdico, proporcionarão,
sem dúvida, elementos consistentes para sensibilização
e, principalmente, aprendizado.
8. ESTIMULO A PESQUISA DE HISTÓRIA EM QUADRINHOS
— MUSEUS E CURSOS
Promover com os alunos, com fins específicos, visitas a bibliotecas
e a museus especializados em HQ. Em São Paulo, existe o
Museu de História em Quadrinhos, na Biblioteca da Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo (Cidade Universitária),
com grande acervo de gibis, antigos e novos, principalmente
material nacional. No Sesc-Pompéia também há uma biblioteca de
quadrinhos, composta por edições encadernadas e por revistas estrangeiras.
O Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola
de Comunicações da USP criou, em 1972, um curso regular de História
em Quadrinhos, que desde então está a cargo da Prof.a Sônia
M. Bibe Luyten.
No Paraná, a Prefeitura de Curitiba mantém a Gibiteca, também
com grande acervo de HQ.

Fonte:
http://desenvolvimentoemquestao.wordpress.com/2011/04/27/historias-em-quadrinhos-leitura-critica-sonia-luyten-org/
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