Sunday, June 19, 2011

Frank Miller criticou a Wizard

[O Silêncio dos Inocentes] O fim está próximo!


Há um ditado antigo relacionado aos quadrinhos que diz que o fim estará muito próximo quando Bucky e Tio Ben voltarem.
Se você nunca leu quadrinhos Bucky é o parceiro do Capitão América e está morto desde o retorno do herói no início dos anos 1.960. Tio Ben é o tio de Peter Parker, o Homem-Aranha, e está morto desde Amazing Fantasy #15, ou seja, antes de Amazing Spider-Man #01. Hoje ambas as séries (do Capitão e do Aranha) ultrapassaram as 600 edições e significa que a morte destes personagens está bem solidificada no inconsciente coletivo.
Retornar com estes personagens poderia ser o maior erro da Marvel Comics, se ela tiver chance para tanto algum dia…
(A bem da verdade Bucky já voltou há cinco anos!)
(Mas Tio Ben continua morto!)
(Como a regra é “quando Bucky e Tio Ben voltarem”, ou seja, os dois e não apenas um ou o outro voltar, a regra continua valendo.)
Talvez nem a Marvel nem a DC Comics tenham chance para retornar novamente com seus mortos, por que os quadrinhos estão passando por mais uma das fases de vacas magras e desta vez a coisa está feia. E visivelmente a cada fim de ciclo a recuperação não alcança os índices de vendas anteriores.
A DC e a Archie Comics anunciaram o desligamento do Comic Code Authority em favor de um sistema de censura próprio, algo que a Marvel já havia feito no início da década passada para dar vazão aos experimentalismos de selos como Marvel Knights e Marvel MAX. Na época foi uma grande jogada, mas hoje parece que ninguém se importou com a decisão mais recente.
Semana passada foi divulgado que a Wizard Comics está encerrando sua carreira. Não se apavore pensando que defendo a Wizard. Era uma péssima revista e só serviu para dar relevância para a Image Comics e seus estúdios. No Brasil a revista teve versões pela Globo, Hangar 18 e Panini, onde teve seu nome alterado para “Wizmania” em função de uma escola de idiomas. Nos quase 100 números publicados por aqui é difícil encontrar 25 ou 30 boas matérias, ainda que a principal crítica realmente tenha sido o formato defendido pela Panini (matérias + uma HQ da Marvel ou DC) que não agradava aos leitores.
Quando Frank Miller criticou a Wizard (o roto falando do rasgado, diga-se de passagem) ficou claro para mim que a versão original da publicação atingia praças que não eram alcançadas pelas comics shops e poderia aumentar o público de quadrinhos. Ao ver uma revista bonita – ela era bonita, colorida, chamava a atenção – falando sobre personagens que o sujeito conhecia de vista, poderia surgir uma afinidade e logo folhearia a edição e encontraria algo interessante. Talvez surgisse aí um leitor ocasional ou definitivo.
Ironicamente, com sua famosa lista de preços de quadrinhos antigos, a Wizard só serviu para manipular as cotações das hq’s e afugentar quem realmente gosta desta arte. Ainda que reconheça o valor histórico de determinada edição, jamais pagaria muito além do preço-padrão de mercado – o preço de capa. Respeito o colecionador que paga R$ 1.000,00 pela Superman #01 da EBAL, mas vou na livraria-virtual mais próxima e compro a versão mais recente, recolorida, remasterizada da história em uma revista de capa dura por R$ 40,00 com mais 10 ou 11 aventuras; ou se não foi lançado por aqui compro no original pagando, em alguns casos como no de Absolute Sandman, mais barato que a versão nacional.
Uma grande parte do público da Wizard era formado pelos leitores-investidores. Eles compravam quadrinhos e cards como investimento para pagar a faculdade num futuro próximo. O sujeito comprava 20 edições de “X-Men” com o objetivo de dentro de quatro ou cinco anos revender com lucros gigantescos. Este “povinho” deteriorou o mercado de quadrinhos criando índices artificiais de vendas e interesse nos anos 1.980/1.990. Não há tantas pessoas assim comprando quadrinhos.
Estou exagerando? Vamos fazer um teste?
Você certamente já ouviu falar da Image Comics (editora do Spawn, Savage Dragon, Youngblood… espera aí, quem?). Explico: o nome Image Comics é mais forte que seus produtos. A principal publicação da editora hoje é The Walking Dead do Robert Kirkman, que vende mensalmente cerca de 25 mil cópias, ainda que seus encadernados constantemente relançados tenham vendas cumulativas gigantescas. The Walking Dead sequer é um dos cinquenta títulos mais vendidos dos EUA.
Atualmente a série está em ascensão por causa de uma série de TV e o produto realmente é muito bom, mas chamo a atenção que 25 mil cópias significa que apenas 0,01% dos americanos compram a revista! Isto mesmo zero ponto zero um por cento dos americanos! Significa a grosso modo que apenas um a cada 10 mil americanos lê a edição.
Ou seja: ninguém!
Estamos falando de um produto que não ultrapassa a barreira do público ao qual se destina. Como este público morre, fale, muda de interesses ou simplesmente passa a comprar menos e as editoras não conseguem repor os compradores a situação fica feia e piora gradativamente a cada mês.
Perder a Wizard significa que é inviável manter nas bancas dos EUA – um país com 250 milhões de pessoas e onde as revistas que vendem mais não alcançam tiragens superiores à 100 mil cópias – uma publicação que fale sobre quadrinhos, mesmo numa época em que a cada temporada temos três ou quatro filmes com versões de criações originárias dos comics.
Mesmo com os intricados planos da Marvel em fazer uma franquia dos Vingadores (Hulk, Homem de Ferro, Thor, Capitão América e finalmente a equipe), restaurar a franquia dos mutantes e do aracnídeo e estender para dezenas os filmes de personagens secundários (como o Pantera Negra); e mesmo com o sucesso incontestável de Batman Begin e Batman: Dark Knight e as expectativas com relação ao filme Green Lantern e a nova franquia do Superman, a Wizard of the Coast (editora da revista) decidiu que as vendas, ou seja, o interesse do público estadunidense não justificava mais a publicação.
Lembre-se ninguém cancela um produto que dá lucro!
Não pense que o interesse nos filmes é a prova cabal que ainda há esperanças para as hq’s. A indústria de cinema já não tem mais idéias próprias e agora se apropria da literatura, dos games e das hq’s para criar suas novas “próprias ideias” – adaptadas e roubadas de outras mídias. Quando se esgotar este filão irá se iniciar um novo ciclo de ideias próprias, depois de adaptações de literatura clássica, depois de romance, depois de …
Apesar de oferecer uma boa diversão, adaptação de hq’s para cinema é apenas isto: adaptação para cinema. Não é a salvação dos quadrinhos.
A salvação (será que existe?) será a produção de boas histórias e um bom plano de geração de novos leitores.
Mesmo que haja realmente boas histórias sendo publicadas você conhece algum plano de geração de novos leitores?
Logo os leitores de hq’s serão apenas “meia dúzia de três ou quatro gatos pingados”.

Jamerson Albuquerque Tiossi[¹]
(jamersontiossi@yahoo.com.br)
[¹]: O autor é Gestor de Sistemas Informatizados, pós-graduado em Engenharia de Software (com ênfase em software livre), e bacharelando em Administração Pública.
Desenvolve sistemas de base de dados desde o início dos anos 1.990 e atualmente trabalha com Java, NetBeans, Ubuntu e MySQL, não exatamente nesta ordem.
Lê quadrinhos desde 1.979 e mantêm um blog sobre quadrinhos e mídias emhttp://osilenciodoscarneiros.blogspot.com
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