Monday, June 27, 2011

Filosofia de gibi e o sentido da vida


Por Érico Assis
Esses dias alguém deixou comentário num dos meus textos dizendo que pensar demais sobre os quadrinhos — e, por conseguinte, escrever sobre o que se pensa demais sobre quadrinhos — pode estragar algo feito para ser uma diversão leve, entretenimento. Não lembro das palavras exatas, mas acredito que o sentido era este.
Digamos que eu discorde em 90% do comentário. Deixo 10% reservados para comentar mais abaixo.
No meu trabalho como jornalista, acompanho diariamente aí por uma dúzia de blogs cujo único propósito é discutir gibi. Tem os puramente geeks, cuja joie de vivre é fazer listas das 10 melhores sagas dos Vingadores, 20 melhores desenhistas do Batman, 100 namoradas mais gostosas dos super-heróis. Tem os fervorosos, que escrevem ensaios de deixar fininho o nível da barra de rolagem para convocar linchamentos contra o atual escritor dos X-Men. Tem os nostálgicos, para ficar admirando o traço do Hal Foster, do Alex Toth, do Milton Caniff, do Neal Adams.
É um nicho, que tem até microcelebridades. Matt Seneca, de Los Angeles, tem umacoluna semanal para analisar quadros ou sequências de HQ num nível que lembra os ensaístas clássicos da Rolling Stone ou da NME destrinchando os thesaurus para explicar o gosto pelo Velvet Underground. Douglas Wolk, de Portland, aborda desde o impacto de tecnologias digitais até a metafísica lisérgica dos gibis do Warlock em freelas na Wired, naSalon e no New York Times. Chegou a escrever um livro chamado Reading comics (“Ler gibi”) que, veja só, é um monte de textos sobre gibis e quase nenhuma página de gibi.
Há também o Comics Grid, um blog que reúne gente que faz pesquisa acadêmica sobre quadrinhos, principalmente em universidades da Europa (incluindo brasileiros). São paperscurtos, com direito a referência bibliográfica, de várias pesquisas maiores sobre linguagem, discurso, arte e técnica das HQs. No mesmo sentido, sabia que a USP tem umObservatório de Histórias em Quadrinhos, com pesquisadores que publicam trabalhos sobre quadrinhos no mundo inteiro? (E que vai organizar um congresso próprio agora em agosto?)
Dos geeks aos acadêmicos, todos são analíticos a seu modo e estão aí para pensar sobre as pretensões e despretensões dos quadrinhos. Mesmo que não goste de todos, é impossível não considerá-los válidos. E acredito que o fim deles não é apenas produzir filosofia sem propósito para os gatos pingados que, além de ler gibi, gostam de discutir e pensar sobre os gibis que leem. Eles propõem argumentos para explicar o que os gibis têm de essencial e específico. Conseguem esquecer que não existe um preconceito histórico contra os quadrinhos e falar deles com a mesma propriedade que se fala de outras mídias. Podem dar camadas novas de significado a algo que, à primeira vista, devia ter como significado único alguns minutos de escapismo.
Acima de tudo, eles constroem o aspecto social e necessário a qualquer tipo de leitura: o de falar para os outros sobre o que gostamos num livro, num filme, numa exposição e, enfim, num gibi. E, a partir daí, conversar. Há quem diga que o sentido da vida — fora a subsistência de pagar contas e preservar a espécie — seja esse: conversar sobre a nossa cultura. Concordo e recomendo.
Quanto àqueles 10%, aceito que ficar falando sobre gibi não seja pra todo mundo, e que às vezes você queira guardar seus significados e emoções com uma leitura para você. E pode-se encaixar aí também as discussões com instransigentes, que lhe chamam de imbecil por ter curtido um gibi mais ou menos do que “devia”. Como em qualquer área, há os teimosos. Porém, o problema é com as pessoas, não com os quadrinhos — culpe o mensageiro, não a mensagem.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

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