Wednesday, June 1, 2011

A Distribuição de Quadrinhos no Brasil



Por Frank Delmindo
revistatalentosnacionais@gmail.com

O quadrinista brasileiro, abnegado e batalhador, acostumado a financiar os exemplares daquela sua revista ou volume, quase sempre um zine mais incrementado, ao finalizar uma edição sua e fitar, olhos cintilantes, aquele montinho de exemplares, pode olhar para trás e regozijar. “Como eu cheguei longe”, sentimento de realização a percorrer-lhe o pensamento, olhando lá atrás na sinuosa estrada diária. Daí, voltando-se rumo ao outro lado da tal estrada, e logo um bafejar cáustico o abate, ameaçando desequilibrá-lo. Um monstro de dimensões descomunais o fita, aterrador, olhos cintilantes, costas a arranhar o céu. O nome deste dragão? Chama-se DISTRIBUIÇÃO.
“Ah, mas eu posso ir lá, na distribuidora das minhas revistas em quadrinhos prediletas. Os caras não vão se negar a ajudar neste meu sonho”, imagina, tão inocente, o quadrinista auto-editor. Tão inocente. E tão burro, também.
Dá até pena ver a figura deste quadrinista saindo da sede da tal Distribuidora. Não quiseram nem ver sua tão bela revistinha. E sabe por quê? Primeiro, tiragem baixa. Baixíssima no caso de quadrinistas independentes. Para este nosso audacioso colega, os mil exemplares de sua revista pareceram a Cordilheira dos Andes, quando empilhados dentro de seu quarto, no balcão onde desenha ou mesmo em cima de sua cama. Mas se não ultrapassar a dezena de milhares, não interessa no esquema milionário da tal grande Distribuidora. Isso porque os caras, além de distribuírem em todo o território nacional – um país de dimensões continentais como o Brasil – ainda mandam o encalhe, a preço de banana, para Portugal e alguma outra republiqueta que fale a Língüa Portuguesa. Ouvindo risinhos abafados e olhares de deboche, sai do belo edifício da tal Distribuidora, olhar cabisbaixo, ombros caídos a arrastar no chão...
“Ah, então eu vou procurar os concorrentes dos caras”, imagina-se a duo-décima maravilha da Terra este quadrinista independente ao considerar tal idéia. Contudo, em um país como este nosso – e como eu gostaria que alguém me (com)provasse o contrário – a tal Distribuidora principal simplesmente COMPROU sua concorrente, segundona na distribuição de revistas em banca, alcançando as alturas de um verdadeiro trust, algo proibido em países de governantes sérios e com vergonha na cara, inconcebível para qualquer administrador ou mercadólogo pueril – implica claramente em monopólio de mercado, a fáceis passos do acartelamento de preços, da imposição de certas editorias em detrimento de outras.
Já percebendo a gravidade da situação, nosso quadrinista independente logo tenta buscar alternativas para distribuir seus agora bem mais pesados exemplares. Quando se é uma formiguinha, não dá para carregar aquela folha gigante inteira rumo ao formigueiro. Mas pode arrancar-lhe pedacinhos e, com tempo e muito trabalho, terminar por escoar todos seus exemplares. “Mas, por onde começar?”. Vamos lá, então.
Considero esta parte da Distribuição, e abandonando a, até o momento, improdutiva jornada deste quadrinista independente, a grande barreira a ser vencida – até mais do que a profissionalização – pelos quadrinistas brasileiros.

GARIMPANDO A DISTRIBUIÇÃO – como não se pode contar com as Distribuidoras brasileiras para comercializar tão ínfima tiragem – estamos pensando na hipótese de 500 a 1.000 exemplares – parte-se para a tática da formiguinha perante a imensa folha esverdeada. Pensa-se em dividir sua tiragem em pequenos lotes, pesquisar na Net e-mails e fones de distribuidores locais ou regionais, e enviar estes pequenos lotes para distribuição.
Mas não vá mandando logo de cara os exemplares, ok. NUNCA mande exemplares sem antes acertar, detalhe por detalhe, com seus distribuidores. Acerte percentuais de divisão do preço de capa, períodos para exposição dos exemplares, etc. Use sempre CONTRATOS DE DISTRIBUIÇÃO para serem assinados por seus distribuidores. Existem diversos modelos de contratos de distribuição em consignação na Internet. Procure um, preencha com seus dados e os de seu distribuidor, envie por e-mail para ele, e SOMENTE quando receber sua cópia assinada e reconhecida em Cartório, mande os exemplares. Distribuir revistas em quadrinhos é um negócio como qualquer outro, e quanto mais legalmente paramentado você estiver, melhores condições de lutar terá na hora de alguma eventual interpelação judicial.
Uma coisa é garantida: você vai desperdiçar uma boa quantidade de exemplares. Como? Eu explico. Por experiência própria, independente se a cidade em questão for ou não Capital de algum estado brasileiro, é meio-a-meio a chance de vender bem. Tem Capital aonde não vende nada. Só uns 5 ou 8 exemplares. E tem cidades, até tidas como pequenas, onde vende tudo. Tudo mesmo. Você recebe o depósito bancário do tal distribuidor local, e ainda por cima um e-mail do cara, perguntando “quando vem mais destas revistas pra cá?”. Entendam: são distribuidores de revistas e publicações MESMO, que atuam nas cidades contatadas. Os caras trabalham direto para a grande distribuidora. Na maioria das vezes, aceitam distribuir a revista em quadrinhos do autor independente. N´outras, se negam por completo, desligando na sua cara quando perguntados os motivos desta recusa. Talvez também não lhes interesse trabalhar com poucos exemplares. Quais as razões disso? Quem sabe, quem realmente pode saber...
O problema são os locais onde não vende nada, ou vende bem pouco. Os exemplares de sua revista vão ficar lá, no depósito da distribuidora local, esperando você pagar o frete de retorno por eles. E se você os quiser, vai ter de desembolsar grana pra isso. E quase sempre tais exemplares voltam danificados, alguns em péssimo estado de conservação.
Uma questão relevante é esta, da devolução de exemplares. Caro quadrinista independente, não interessa em absolutamente NADA receber revistas destinadas à venda. Portanto, se for possível, articule o envio destes exemplares não vendidos para outras praças de venda, em outras cidades. Veja o que pode ser utilizado, o que está irremediavelmente danificado, e faça este re-envio. Ás vezes, sai bem barato, e você só tem a ganhar com isso.
Serão mais gastos, mas não um desperdício. Vai valer a pena, pois você terá GARIMPADO distribuidores locais eficientes, gente profissional do ramo com quem o quadrinista independente inicia uma relação de confiança e reciprocidade na comercialização de suas revistas. Anote e guarde os mails e fones desta gente. Quando ligar ou emeiar para eles, trate-os pelo primeiro nome. Fale de suas dificuldades em produzir suas revistas e, se sentir clima para isso, até mesmo de seus familiares e vida pessoal. Sem demagogia ou utilitarismos. Inicie uma relação pessoal e de confiança com seu distribuidor eficiente, sabendo que, sem ele, você NUNCA alcançará seus objetivos como autor de Quadrinhos. Lembre-se de que, enquanto a tal grande Distribuidora nacional te rejeitou, o tal aceitou trabalhar com sua revista. Então, nada mais justo que tratá-lo o melhor possível.
Outra ótima dica são as comic shops brasileiras. De novo, entre na Internet, faça aquela lista de comic shops ao longo de todo o país, contate-as e veja quais aceitam trabalhar com suas revistas.
Por fim, as grandes megastores literárias, que vendem de tudo, inclusive quadrinhos de editores independentes. Na maioria, aqui vão te solicitar um único exemplar, para avaliação. Pode demorar, mas se ultrapassar um mês, comece a telefonar pros caras, de quinze e quinze dias, para saber do resultado da avaliação de sua revista. Não telefone com maior freqüência, pois os caras vivem com montes de livros, revistas, manuais e quadrinhos também para avaliar, e não vai custar nada te dar uma resposta negativa somente para se livrar da pentelhação. Se não aprovarem, tente com outra edição ou lançamento.
Com sorte, e sua revista tendo qualidade autoral, mas principalmente QUALIDADE GRÁFICA, os caras colocam os dados de sua HQ à mostra no site, ou press release deles. Chegando pedidos, te solicitam o envio da quantidade correspondente. Há ainda algumas poucas megastores, que compram exemplares seus, sempre por um preço bem abaixo do preço de capa. E ainda pagam antecipado por estes. Quer uma dica: ACEITE NA HORA. Se vender bem, ainda que demore algum tempo para isso, os caras voltam a te procurar, quase sempre em busca de novas edições da revista ou de outros lançamentos seus.
Uma outra opção são os Sebos. De novo, entre na net, faça uma lista quilométrica com endereço, fone e mail destes estabelecimentos e contate-os. Muitos recusam sua hq, pois a maioria só trabalha com revista usadas. Mas existem os que vão te aceitar, disponibilizar suas revistas e atuar como qualquer outro local de vendas.
Além destas opções, temos distribuidores variados para sua hq, tais como as máquinas que vendem livros da 24x7 Cultural e o Núcleo de Distribuição do 4º Mundo, coletivo de quadrinistas do qual faço parte, com distribuidores espalhados por todas as regiões do país e participação ativa em diversos eventos culturais.
Novamente, contate-os, veja as formas de disponibilizarem suas hq´s e continue na luta.
Pronto! Meses depois, seus mil exemplares foram todos distribuídos, a maioria vendeu, outro tanto encalhou e você mandou para outros distribuidores, e algumas partes menores se extraviaram ou retornaram mesmo, danificadas.
E onde encalhou tudo e não vendeu nada? Seja com distribuidores locais, comic shops, livrarias ou demais pontos de venda, aconselho a não enviar mais para lá. A menos que o tal quadrinista tenha bala na agulha suficiente e queira fazê-lo.
Portanto, se você, caro quadrinista independente, dispuser de capital e exemplares à vontade e paciência para garimpar distribuidores Brasil afora, boa sorte. Daqui a pouco, com muito trabalho, contatos, seus pontos de venda garimpados escoarão com mais velocidade suas tiragens. Serão mais exemplares vendidos, menos encalhe e mais lucro para você.
Dentro em breve, seus mil exemplares, tantos no princípio, serão vendidos rapidamente. Mas somente com muito trabalho, contatos, negociações e produção de HQ´s para novos lançamentos. Quem sabe, com uns 100 quadrinistas independentes deste naipe, e dentro de umas duas décadas, tenhamos o tão sonhado mercado de quadrinhos brasileiro.

Um sonho a acalentar, um objetivo pelo qual lutar e, quem sabe um dia, uma realidade de cuja construção nós, Quadrinistas atuantes, nos orgulharemos de ter participado.

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