Monday, June 27, 2011

Dilbert não é só um quadrinho. É um documentário da vida nas empresas

O trabalho é um horror


Dilbert não é só um quadrinho. É um documentário da vida nas empresas


Um engenheiro sem boca, de gravata torta, que vive engolindo insultos de chefes incompetentes, poderia virar um herói dos anos 90? Já virou. Dilbert, um perdedor nato, que vegeta em cubículos e se dá muito melhor com as máquinas do que com seres humanos, é esse herói. Suas desventuras no torturado e estressante submundo dos escritórios aparecem, sob a forma de quadrinhos, em aproximadamente 1 100 jornais, todos os dias, em quase trinta países. Sua página na Internet registra 1,5 milhão de hits diariamente. Escondido atrás dos óculos, com seu rosto em forma de caneca e a barriga ligeiramente saliente de todo nerd típico, ele enfeita bonés e camisas pólo, mouse pads e calendários, suspensórios e cartões da Hallmark.
A mais recente prova de sua popularidade está na lista dos livros americanos de maior sucesso. The Dilbert Principle, uma peça acusatória do ambiente de trabalho nas grandes empresas, chegou ao topo entre os títulos mais vendidos na classificação feita pelo jornal The New York Times. Vendeu, até meados de agosto, 750 000 cópias. Este é o princípio de Dilbert: "Os trabalhadores mais incapazes são sistematicamente promovidos para o lugar onde podem causar menor dano: a chefia." Em algumas livrarias, The Dilbert Principle aparece entre os livros de humor: com texto entremeado por 100 tirinhas, é radicalmente engraçado. Em outras, se coloca entre os livros de negócios, por seu caráter documental. Nada da vida das grandes empresas passa incólume ali: as reuniões intermináveis, a perplexidade dos executivos diante das mudanças tecnológicas, a burocracia nonsense, o downsizing permanente, a arbitrariedade dos gerentes, tudo é motivo de gozação. Desempate como quiser.
Nos Estados Unidos, a editora é a HarperBusiness. No Brasil, O Princípio de Dilbert será lançado em novembro pela Ediouro. Desde julho passado, também, Dilbert pode ser encontrado na seção Vitrine, de EXAME. "Os quadrinhos são uma caracterização mais colorida do que acontece dentro das empresas", diz Richard Conolly, sócio da consultoria Price Waterhouse no Brasil. "Fazem sucesso pela identificação com o cotidiano dos leitores." Dilbert é uma criação de Scott Adams, um economista de 38 anos, que fugiu do frio da Costa Leste dos Estados Unidos para a Califórnia (veja entrevista na pág. 94). Por ali penou, como Dilbert, em empregos medíocres. O que Kafka aprendeu numa companhia de seguros Adams aprendeu na Pacific Bell, a empresa onde teve seu último cubículo e sua última dúzia de chefes. Hoje é mais fácil encontrar um retrato acurado da vida nas grandes corporações no humor corrosivo dos quadrinhos assinados por Adams do que nos livros dos gurus de administração. "O humor não é nada mais do que as situações comuns ligeiramente torcidas", diz ele.
HAMMER DIZ AMÉM - É um humor que faz sentido em qualquer lugar, em qualquer país: as empresas ficam a cada dia mais parecidas. Visite-se o escritório da Booz Allen & Hamilton em São Paulo e o que se verá aqui é o mesmo que acontece em Paris ou Tóquio: consultores recortando as tirinhas de Dilbert para mandar uns aos outros. "Elas transformam as questões complicadas da administração em quadrinhos simpáticos", diz Maurizio Mauro, vice-presidente da Booz Allen no Brasil. As mazelas apontadas por Dilbert têm caráter universal. Quem, num escritório, nunca teve vontade de socar um computador completamente ultrapassado? Ou jamais olhou com descrédito o oitavo plano de motivação dos funcionários?
Muita gente se pergunta se Dilbert é ficção ou realidade. A revista Newsweek publicou este mês uma reportagem de capa sobre o mundo de Dilbert, fez um diagnóstico das corporações americanas e concluiu: a realidade é pior. Os motivos: os funcionários trabalham demais, às vezes nem têm sua própria mesa, agüentam chefes rudes, estão sempre ameaçados pelo downsizing. Soa familiar? Nada simboliza a situação melhor do que a frase das camisetas da equipe da Apple que desenvolveu o Macintosh: "90 horas por semana e adorando!"
Até consultores sobre cujas idéias Adams tripudia concordam em que ele põe o dedo na ferida. "Dilbert não é um quadrinho de humor, é um documentário que oferece a melhor janela aberta para a realidade da vida corporativa que eu jamais vi", diz Michael Hammer, autor de Reengenharia. Segundo Hammer, há dois tipos de empresas: as que reconhecem que são como o mundo de Dilbert e as que também são mas ainda não reconhecem. Os cartoons de Adams trazem a marca dos engenheiros incompreendidos com as quais ele conviveu. Na sua definição, Dilbert é um sujeito que pode configurar uma rede mais rápido do que qualquer um consegue dizer "ciberespaço", mas é o tipo que jamais conseguirá um cubículo com uma porta, dada a sua inocência política. Na cidade californiana de San Ramón, na Pacific Bell, Adams circulou nove anos, mais ou menos anônimo, entre 7 000 funcionários, consumido por tarefas que considerava sem sentido. Ganhava 70 000 dólares por ano. Em junho de 1995, quando alcançava a celebridade como cartunista, foi demitido sob a alegação de corte de despesas.
No meio das reuniões chatas que tinha de aturar na Pacific Bell, Adams criou Dilbert. Ou melhor, Dilbert surgiu, com seus óculos grossos, sua cabeça enorme, suas meias brancas, seu pendor para criar coisas absolutamente inúteis e sua passividade bovina diante das humilhações sem fim no trabalho. O vice-presidente que chega atrasado para uma reunião faz que Dilbert espere no corredor... enquanto toca violão. Chefes idiotas o pisoteiam a qualquer pretexto ou mesmo sem pretexto, e não só eles. Dogbert, o cachorro cínico e megalomaníaco que lhe faz companhia, também o joga para baixo. Quando Dilbert pergunta a ele o que acha de seu novo poema, por exemplo, Dogbert responde que leu certa vez que mil macacos com máquinas de datilografar, com todo o tempo do mundo, poderiam escrever as obras completas de Shakespeare. Dilbert insiste: "E o meu poema?" Responde Dogbert: "Três macacos, 10 minutos". Para entender melhor Dogbert: sua meta é dominar o mundo e transformar todas as pessoas que se assemelham a indivíduos numa subclasse de serviçais domésticos.
Os modismos da administração estão entre os alvos favoritos de Adams - seja qualidade total, seja a maré de empowerment, seja a reengenharia. Se é um mantra da gestão moderna, ele demole. Não que Adams ache isso tudo bobagem. Ele ridiculariza o modismo que vira religião ou palavra oca. "Não existe idéia tão boa que não possa ser arruinada por alguns idiotas bem colocados", diz. Ele é implacável com o downsizing, talvez o seu tema mais recorrente. Nem por isso Dilbert foi banido da vida das empresas. Em primeiro lugar, suas tirinhas são colocadas nas paredes pelos funcionários dos mais diversos escalões. Em segundo, Dilbert virou produto de consumo dos próprios chefes que critica. A revista Fortune fez questão de publicar em primeira mão um capítulo de The Dilbert Principle. Adams sabe capitalizar essa atenção. Um exemplo: bolou vídeos de negócios para quebrar o gelo no início de reuniões de empresas.
CAPÍTULO Á PARTE - Com tanta receptividade do mercado a suas tiradas, Adams criou em torno de si uma máquina de vendas formidável. Os sete livros publicados antes de The Dilbert Principle, todos eles, ainda estão à venda. Na Internet, é possível comprar qualquer bugiganga estampada com a figura de Dilbert. De quebra, de graça, dá para ler as hilariantes newletters que Adams escreve três ou quatro vezes por ano. Seu endereço na Web: http: //www.unitedmedia.com/comics/dilbert A Internet é um capítulo à parte na vida de Adams. Foi recebendo dicas de funcionários de grandes empresas pelo correio eletrônico que ele centrou o foco no mundo dos escritórios e em tecnologia e aumentou tremendamente a sua popularidade. As dicas por e-mail são a sua bússola. Adams recebe atualmente mais de 300 dessas mensagens por dia, e diz que lê tudo pessoalmente. Ele trabalha sozinho em sua casa em Dublin, uma cidadezinha dormitório do norte da Califórnia, onde mora com a namorada, uma funcionária da Pacific Bell. As histórias que chegam são tão absurdas que parecem... histórias de quadrinhos.
Uma delas: num almoço de despedida para um funcionário muito querido que tinha sido cortado em meio a um enxugamento, o gerente diz: "Isso é muito divertido. Nós deveríamos ter mais almoços como esse". O desprezo que Adams expressa por chefes idiotas foi sintezado por ele no primeiro capítulo de The Dilbert Principle. Como esse tipo é promovido? "Bem, ele não sabe escrever códigos para computador, não sabe projetar uma rede, não tem qualquer habilidade para vendas. Mas ele tem um cabelo bárbaro..."
A vida profissional de Adams, antes de sua carreira de cartunista decolar, foi uma sucessão de frustrações - seja na Pacific Bell ou no Crocker National Bank, onde trabalhava de dia na época em que fazia seu MBA à noite no campus de Berkeley da Universidade da Califórnia. "Eu odiava meu trabalho", ele diz. "A maioria das pessoas é espremida em pequenos cubículos e sua criatividade é expulsa para outro lugar." Bem que Adams tentou carreiras mais criativas. Durante anos criou e tentou vender jogos para videogame. Depois quis criar um equipamento estranhíssimo, que descreve como sendo uma máquina em perpétuo movimento. Mas seu desejo, desde criança, era mesmo ser cartunista. Agora que escapou dos cubículos dos escritórios e realizou sua vocação de empreendedor, está ficando um tanto parecido com os seus ídolos na área de negócios, Bill Gates, o fundador da Microsof, e Steve Case, da America Online. O motivo da semelhança: está virando milionário. Uma diferença: faz sua fortuna num vôo solo, sem ser chefe de ninguém.
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