Thursday, June 16, 2011

crônica da cidade




 
Laurecence Oliver em Rei Lear 



Por Conceição Freitas 
A ministra ao lado
 


Nesses quase 30 anos de Brasília, nunca havia dividido com uma ministra um mesmo restaurante. Foi na sexta-feira da semana passada. Certamente não a veria se não tivesse sido alertada por quem dividia a mesa comigo. Nem havia terminado de acomodar a bolsa na cadeira quando a amiga me cutucou: olha a ministra Miriam Belchior. Experimentei então a sensação insidiosa que acomete a maioria dos que se aproximam do poder: certa euforia, sensação meio infantil meio debilóide de usufruir dos privilégios de quem tudo pode ou de quem pode muito. 


Trata-se de um terreno pantanoso sobre o qual toda a capital da República se sustenta. Vivemos deslizando perigosamente nesse assoalho sedutor pronto para nos devorar. 


Euzinha, que desdenho de toda e qualquer subserviência ao poder, estava lá, a menos de dois metros de uma ministra fazendo de conta que não a estava vendo, mas tentando observar, na fronteira da indiscrição, o que ela fazia, o que comia, o que bebia, o que vestia e, delírio dos delírios, o que pensava. Estava sozinha, a ministra. Vestia-se muito discretamente, em tons de bege. Lia o clipping dos jornais à moda antiga — encadernação de papel ofício com xérox de matérias. Não atendeu ao celular nenhuma vez. Se havia um aparelho, estava no silencioso. 


A ministra ali e eu bem perto fazendo de conta que prestava atenção no cardápio, na amiga, nos assuntos a serem tratados, mas da Belchior não me desvencilhava. Como assim, Conceição? Você passou boa parte da vida criticando a doença infantil da sabujice ao poder — epidemia brasiliense, registre-se —,e agora está inquieta porque ao alcance de sua visão está uma ministra do governo Dilma? Eu tentava me perguntar, mas não me ouvia. Penso agora que o fato de ser uma mulher a representante do poder tenha atiçado mais ainda minha inesperada inquietude. 


O que não reduziu o tamanho do mico. Minha sorte é que tive o cuidado de me conter enquanto levava o garfo à boca e os olhos à ministra. Fazia de conta que estava concentrada na conversa com a amiga, fazia pose de quem estava muito à vontade, mas a outra mesa continuava ali, exibindo seu quinhão de poder para minha curiosidade insana. 


Gosto muito de observar a reação das pessoas diante de um poderoso, em qualquer instância de poder. Há uma mudança constrangedora de personalidade em quem se aproxima de um exemplar da raça dos que mandam, dos que têm e dos que podem. Não sei o que diz a psicanálise a respeito, mas arrisco a supor que a presença de um poderoso  invoca nos não-poderosos a imagem do pai. É preciso agradá-lo, atrair a atenção dele, para se sentir legitimado. A presença de um poderoso nos imuniza, temporariamente, do anonimato e da desproteção do viver. Nos faz importantes. O grave nisso é que, em busca dessa ilusão, não poucos vendem a alma. A minha, por ora, ainda me pertence. 


Tão logo a ministra pagou a conta e entrou no carro preto que a esperava, me recolhi ao meu tamanho. E tive assunto pra mais uma crônica. 

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