Sunday, June 19, 2011

Brasiliense é tipo assim




por Jorge Alexandre Machado 

Outro dia me vi com uma grande interrogação. O que caracteriza um brasiliense? Em todo o Brasil, seja pelo sotaque, comportamentos, seja outros aspectos, é possível se inferir de que região é a pessoa com que nos deparamos. E quem nasce em Brasília? Essa naturalidade parece ser uma incógnita. 

Resolvi então me aventurar na descoberta de elementos comuns ao candango que poderiam marcá-lo como tal. Em época de discussões sobre variantes lingüísticas, imaginei logo identificar o “dialeto” local. 

Foi assim que me pareceu genial a ideia de tomar um ônibus, no horário de “rush”, é claro, apurar os ouvidos para captar o maior número de expressões e identificar, finalmente, o sotaque local. Seria a glória. 

Logo que entrei pude perceber um rapaz, de uns 16 anos, que falava a outro, aparentemente da mesma idade: “Oxe, meu, a guria nem me deu ideia. Segurei os trem que ela estava carregando e, quando chegou na parada, ela saiu avexada e nem me disse obrigado, véi!" Em uma frase, o adolescente viajou de Norte a Sul, passando pelo Sudeste, sem imaginar o quanto complicava o meu estudo linguístico. 

No trajeto, além de muito empurra-empurra, esbarrei com um vocabulário repleto de expressões regionais dos mais diversos rincões dessa nossa terrinha verde e amarela. Cheguei até a pensar que o Brasil inteiro tinha resolvido tomar aquele coletivo, naquela manhã. 

Desci na próxima parada com uma nova ideia. Qual seria o vestuário típico do brasiliense? Nada melhor do que o shopping para essa avaliação reveladora. Lá, seria o laboratório perfeito para verificar, entre milhares de pessoas, o que prevalece de vestimenta na capital federal. 

Frustração total. Não havia nada de diferente, em relação ao que podia ser observado em qualquer outro shopping do país. O modo de vestir parece que se nacionalizou e todos usam o mesmo que atores e atrizes das novelas de tevê. 

Mas espera aí, falei comigo mesmo. Tem um momento em que o brasiliense é único. É só cair um pouquinho a temperatura, pode estar uns vinte graus, todos os apetrechos de frio são sacados das gavetas e armários e o candango fica parecendo uma loja ambulante de artigos de inverno. Botas, luvas, gorros, cachecóis, sobretudos e, sobretudo, muitas roupas, uma em cima da outra, são a indumentária da vez. 

Mas, para meu desencanto, lembrei que no exterior, no inverno, todos os brasileiros são meio brasilienses nas roupas de frio e ainda não conseguem entender como os gringos reconhecem a nossa nacionalidade só de olhar. 

Precisava de uma particularidade mais decisiva. Já sei, exclamei entusiasmado, a gastronomia vai ser a solução. Percorri todos os restaurantes da 404/405 Sul, também passei pelos da 201/202 Sul e terminei naqueles da Feira do Guará. Só consegui concluir que o Brasil inteiro resolveu servir seus pratos no Planalto Central, sem falar de alguns cardápios estrangeiros que se come muito por aqui. 

Foi em um fim de semana que pude constatar uma especialidade recorrente nas mesas brasilienses: o churrasco. Embora de origem gaúcha, creio que uma estatística séria provaria que queimamos mais brasas por metro quadrado do que os nossos irmãos do sul. Sábado e domingo a cidade cheira à picanha e à lingüiça. 

Fui então caminhar no Parque da Cidade para organizar as ideias. Estava desolado, prestes a entregar os pontos. Não havia tido êxito na minha missão de reconhecer pelo menos um ícone exclusivo de nosso nativo. 

Sentei em um banco e ao meu lado estava uma jovem de 21 anos, talvez. Como que a invadir os meus pensamentos mais profundos disse: Moço, eu nasci aqui em Brasília. Estava vendo todo esse povo caminhar e pensei: "A miscigenação no Brasil fez com que não houvesse uma característica específica do brasileiro. Somos uma mistura que traz muita diversidade. Não há uma característica só. Assim acontece em Brasília, nós brasilienses, temos o Brasil inteiro nas veias. Essa é a nossa verdadeira identidade." 

Levantei radiante. Encontrara uma resposta. Ela então me perguntou: o senhor é natural de onde? Do Rio de Janeiro. Sou carioca, respondi. Andei alguns passos, retornei e corrigi: Acho que eu era. 

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