Sunday, May 22, 2011

O homem que inventava mundos


Publicado por admin - Sunday, 22 May 2011

VISUAL

O Centro Cultural Banco do Brasil apresenta a exposição “O Mundo Mágico de Escher”, que reúne 95 obras do artista holandês que subverteu perspectivas e criou um universo onírico

MARCELLO ROLLEMBERG

Subverter as linhas lógicas da realidade observada, criar figuras improváveis, fustigar a ordem para redefini-la em construções impossíveis. Essa parecia ser a missão artística do gravurista e artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972), ou apenas M. C. Escher, como se assinava. A ilusão visual – nem sempre perceptível em um primeiro momento – que ele criou em suas gravuras ao mesmo tempo que fustigam e surpreendem o observador, também o levam à reflexão. Escher gostava de brincar com os sentidos de seu público, assim como retorcia teorias matemáticas para fazê-las caber em suas obras. O artista holandês criou mais do que lito ou xilogravuras em seu mais de meio século de trabalho – ele criou sonhos entalhados em madeira ou desenhados em papel, e reordenou o mundo sensível. Pelo menos seu mundo muito particular de metamorfoses e jogos visuais. “Nas minhas gravuras eu tento mostrar que vivemos em um mundo belo e ordenado, e não em um caos sem regras… Eu não consigo deixar de brincar com as nossas certezas estabelecidas. Tenho grande prazer, por exemplo, em confundir deliberadamente a segunda e a terceira dimensões, plana e espacial, e ignorar a gravidade”, disse ele certa vez.
E ele soube como poucos brincar com as tais “certezas estabelecidas” e traduzir em obras únicas aquilo que a natureza diz ser impossível. Se Nietszche disse que “é necessário o caos para se gerar uma estrela”, Escher criou verdadeiras galáxias. E uma parte significativa desses mundos luminosos nascidos na mente desse holandês sonhador estão ao alcance dos olhos – e de outros sentidos – do público paulistano. Depois de passar por Brasília e Rio de Janeiro, agora é a vez de São Paulo assistir à mostra “O Mundo Mágico de Escher”, até o dia 17 de julho em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. Trata-se, na verdade, da mais completa exposição de obras do artista, que conta com 95 de seus mais conhecidos e enigmáticos trabalhos, entre gravuras originais, desenhos e – poucos – fac-símiles. O acervo da coleção do Haags Gemeentemuseum, que mantém o Museu Escher, na cidade de Haia, na Holanda, ocupa todo o belo e histórico prédio do CCBB no centro antigo da capital paulista. Do terceiro andar até o subsolo, o convite é para uma experiência sensorial e também onírica, passeando por um universo que parece ter nascido de devaneios, mas que tem concretude e lógica.

Arte e matemática – “Escher era um gênio da imaginação lúdica e um artesão habilidoso nas artes gráficas, mas a chave para muitos de seus efeitos surpreendentes é a matemática”, revela na apresentação do catálogo da exposição Pieter Tjabbes, curador da mostra. “Não a matemática dos números e das fórmulas, mas a geometria em todos os seus aspectos. Escher podia imaginar os efeitos fantásticos, mas a geometria era uma ferramenta necessária para capturar esses efeitos.” Não é por outra razão que duas de suas obras mais conhecidas têm fundamentos matemáticos explícitos: Fita de Moebius II (1963), e Cascata (1961) – esta última esgarçando o conceito de “tribarra” ou “triângulo de Penrose”, ao criar a ilusão visual de uma improvável queda d’água que sobe ao invés de descer a partir de três barras fincadas ao longo de arestas consecutivas de um cubo. Foram os próprios matemáticos Lionel e Roger Penrose – criadores desse triângulo absurdo – que deram a ideia a Escher. E o resultado é tão bem concebido que o observador demora um pouco para perceber da impossibilidade física do que está desenhado.
Impossibilidade física, sim, mas não artística. Afinal, Escher se especializou por toda a sua vida artística a ultrapassar as barreiras daquilo que, preguiçosamente, achamos por bem chamar de “normalidade”. Mas essa ida para além do “normal” não significa bizarrice ou incômodos, traduzido num certo mal-estar sensorial. Pelo contrário. As obras do holandês provocam, sim, mas atraem de uma forma quase hipnótica, como se suas gravuras estivessem imantadas e nossos olhos, metalizados. É assim em qualquer uma de suas criações.Como Belvedere, de 1958. Ali – mas não apenas ali, é claro – está a chave mágica para tentar se desvendar esse mundo que abre os portais da percepção. À primeira – e desatenta – olhada, trata-se de uma construção normal, de três andares, onde um homem sobe uma escada. Mas, atenção: a construção é impossível, posto que os pilares (como as arestas de um cubo improvável) se cruzam e se confundem. E, de repente, está, ao mesmo tempo, dentro e fora do belvedere. E alheio a tudo, uma outra figura observa, justamente, a maquete e o desenho do tal cubo improvável. Essa é outra brincadeira/fantasia de Escher: inserir, vez por outra, um personagem em suas gravuras, ora observando, ora parecendo refletir sobre as contradições físicas e, ainda assim, tão reais criadas por ele.

Arte interativa – A mostra no CCBB, além de ser um convite (e um desafio) à observação estética, também é um chamamento à experimentação sensorial. Isso se dá porque, além das obras expostas, há ainda uma série de provocações interativas que tornam a visita ao Centro ainda mais instigante. E não estamos falando aqui do minidocumentário de sete minutos e em 3 D que percorre e tenta explicar (ou confundir ainda mais) a percepção do observador quanto à obra de M. C. Escher. O filminho, que pode ser assistido no segundo andar do CCBB, é imperdível, mas se o visitante estiver com labirintite, é melhor deixá-lo de lado – a viagem pelo universo sinuoso e multiforme de Escher é real demais.
A interatividade mais à flor da pele se dá em outras proporções, como logo na entrada do Centro Cultural. Ali está a “Sala da Relatividade”, que convida o visitante a “entrar” numa versão grande de uma obra de Escher, e se confundir com ela, misturando perspectivas. A mesma confusão visual e embaralhamento de perspectivas que se tem ao se chegar no “Poço Infinito”, no terceiro andar. Trata-se de um alucinante jogo de espelhos no qual o observador, como se estivesse olhando (e sendo olhado) por um periscópio gigante, vê e é visto por todos, além de, em determinado momento, ter realmente a sensação de estar flutuando no éter, sem nada sob seus pés ou acima de sua cabeça. A sensação de infinitude é real, por mais que os pés continuem bem fincados no piso do andar refrigerado.

Aos vários universos de Escher: “Cada vez menor” (1958), “Outro mundo” (1947) e ”Belvedere” (1958). “Autorretrato com esfera espelhada” (1935), “Cascata” (1961), “Fita de Moebius II” (1963), “desenhando” (1948) e “natureza-morta e rua” (1937). Nessas obras, o artista holandês mesclava teorias matemáticas e subvertia perspectivas e realidade para criar um mundo onírico e improvável

O desafio sensorial continua em outros ambientes, como na “Sala dos Lenticulares” – onde obras em terceira dimensão do artista fazem com que visitantes se retorçam para ver todas as suas possíveis e impossíveis perspectivas –, no “Olho Mágico” – uma enorme instalação baseada na obra homônima –, na “Sala Impossível” – onde, por uma janela observa-se uma cena estática e cândida de um gato sobre uma pilha de livros, e em outra vê-se os elementos flutuando soltos no ar. Mas talvez aquela que mais instigue a participação do visitante seja a “Casa de Escher”, instalada no subsolo – onde, aliás, estão suas gravuras mais conhecidas.

Numa sala hipotética, procurou-se reproduzir o mesmo ambiente que se vê refletido em sua famosa litografia Autorretrato em esfera espelhada, de 1935. O visitante senta-se a uma mesa e ali, à sua espera, está… uma esfera espelhada. Ao colocar-se a mão esquerda nela, pode-se brincar de Escher. O que, no final das contas, é uma justíssima homenagem a esse artista que brincou de criar mundos impossíveis durante boa parte de seus 74 anos de vida e que dizia “não saber desenhar”. Escher brincou – a sério – de Escher. E realmente não desenhava: ele inventava e reinventava universos paralelos e sonhos.

“O Mundo Mágico de Escher”. Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 1.123, Centro. De terça a domingo, das 9h às 20h. Grátis.

Fonte:

http://espaber.uspnet.usp.br/jorusp/?p=15448

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