Wednesday, April 20, 2011

A renovação dos quadrinhos em Brasília


1975 / 2005: A renovação dos quadrinhos
ANO XXX / Número 220 - Novembro de 2005
1975 / 2005: A renovação dos quadrinhos
A revista Abigraf, desde 1991, registra em suas páginas o mundo dos comics, suas raízes, personagens e autores. Nesta edição, uma retrospectiva dos últimos 30 anos na história dos quadrinhos.
Texto: Álvaro de Moya
Os últimos 30 anos mudaram o mundo dos quadrinhos. Em 1975, na França, surgiu a revista Metal Hurlant. Nesta publicação, o artista Jean Hurlant, adotou o pseudônimo de Moebius. No ano seguinte, o italiano Milo Manara abandona os fumetti eróticos e inicia uma carreira importante, ligando-se a Hugo Pratt, Fellini e Jodorowsky. Surge, nas tiras americanas diárias, em jornais, no ano de 1978, um dos maiores sucessos comerciais do gênero: o Garfield.
Nesse ano foi lançado o livro "Um Contrato com Deus", que se tornou o acontecimento mais importante dos quadrinhos na década. Quando o editor ligou para o autor e perguntou o que era aquilo, recebeu a resposta inventada na hora: "É uma graphic novel!" Foi assim que o gênio Will Eisner criou um novo estilo e abriu caminho para o futuro dos comics. Também em 1978, Hollywood apostou numa super (literalmente) produção enfocando um personagem dos quadrinhos, Super-Homem, iniciando uma série de filmes com ídolos dos comics, com grande sucesso nas bilheterias.
Em 1980, Art Spiegelman ganha o Prêmio Pulitzer de Literatura com a obra "Maus". A Itália se faz presente nesse ano com o surgimento de dois artistas insólitos: Pazienza e Mattioli. No ano seguinte, o italiano Tamburini lança Ranxerox. Na Espanha, Segrelles pinta "El Eternauta" e a dupla Bernet e Abuli cria "Torpedo 36". A Argélia edita a revista Pango.
Os latinos Aragonés, com "Groo", e os irmãos Hernández, com "Love and Rockets", invadem os EUA em 1982, mesmo ano em que, na Itália, Vittorio Giardino cria o detetive judeu "Max Fridman" e o editor Sergio Bonelli lança "Martin Mysterè". No ano seguinte, aparece uma das melhores tiras de jornais de todos os tempos: "Calvin", de Bill Watterson, que, infelizmente, há poucos anos, findou por decisão de seu criador.
Em 1984, dois amigos, num ônibus, tirando sarro, bolaram uma historieta absurda: "Tartarugas Ninjas". Peter Laird e Kevin Eastman ficaram milionários e o último realizou um sonho: comprou os direitos de "Heavy Metal", versão americana da "Métal Hurlant". No mesmo ano, o inglês Alan Moore escreve "O Monstro do Pântano". O ano seguinte seria um dos mais importantes: De Matteis e Jon Muth introduzem a cor de forma revolucionária em "Moonshadow". Porém, é Frank Miller que muda os comics no mundo com a versão de Batman em "O Cavaleiro das Trevas". E o escritor Neil Gaiman eleva os textos ao nível de literatura com a versão de Sandman.
O emigrado Enki Bilal, na França, em 1986, faz ilustrações deslumbrantes em "A Mulher Enigma". O mesmo ano revela o japonês Katsuhiro Otomo, com "Akira", depois em animação, prevendo o domínio nipônico com os mangás e animés. A editora Bonelli descobre o sucesso com "Dylan Dog". No ano seguinte, a influência japonesa se faz sentir em "Lobo Solitário", de Koike e Kojima, e na releitura de Frank Miller em "Ronin". A exuberante "Druuna" excita o mundo, nos desenhos de Serpieri - uma italiana calcada no bumbum das brasileiras, segundo o autor. "Hellblazer" vive a violência criada por Delano e Ridgeway.
No ano seguinte, os super-heróis são dissecados numa graphic novel inovadora que os coloca em crise no mundo real. Nunca mais serão os mesmos de "Watchmen", de Alan Moore e Gibbons. Alan Moore já tinha reeditado uma obra sua feita na Inglaterra, antes de trabalhar para os Estados Unidos. Trata-se de "V de Vingança". No ano seguinte, o mesmo autor, com desenhos de Brian Bolland, faria outra obra-prima usando o personagem Batman, mas destacando o Coringa: "A Piada Mortal". O mesmo Homem-Morcego estrelaria "Asilo Arkham", escrito por Grant Morrison e desenhado por David McKean. Ilustrações lindíssimas de McKean para "Orquídea Negra", escrita por Neil Gaiman.
Mil novecentos e noventa marca a década em que excelentes desenhistas brasileiros começam a ilustrar roteiros americanos, escolhidos por editoras "major". Em 1991, Dave Gibbons ilustra a Amazônia, com texto de Frank Miller criticando o nazismo em "Give Me Liberty". No ano seguinte, Todd McFarlane inventa "Spaw". Serpieri, em 1993, rompe a barreira entre erotismo e pornografia em "Druuna X". Em 1994, os desenhos pintados de Alex Ross começam a impressionar com "Marvels", escrito por Kurt Busiek, e em "Ghost 2099".
Em 1966, Frank Miller evoluciona os comics, novamente, com a série "Sin Citty", O ano de 1988 traz "A Ffamily Matter", de Will Eisner. Em 200, o Japão de novo assina o ponto com "Gen", um sobrevivente de Hiroshima, com autoria de Keiji Nakazawa. No mesmo ano, "O Último Dia no Vietnã", de Eisner, e, também dele, "O Nome do Jogo".
Na transição do século, o resultado da crise generalizada no País, desde Brasília até o futebol, reflete-se em todas as áreas, inclusive na editorial. As revistas em quadrinhos, deficitárias nas bancas de jornais, dão lugar nas livrarias a livros de qualidade que, curiosamente, quanto mais caros, mais vendidos. Os editores descobrem então um nicho de compradores de qualidade, localizado nas lojas de livros. Obras encadernadas, em cores, impressas em papel de primeira, texto caprichado e com repercussão na mídia. É a salvação da lavoura.
Onze de setembro de 2001, o atentado do século 21, é retratado no livrão de Art Spiegelman, "À Sombra das Torres Ausentes". Will Eisner coopta Charles Dickens, retratando humanamente o vilão de Oliver Twist na graphic novel Fagin, o "Judeu", no ano de 2004. Em 2005, no dia 3 de janeiro, morre Will Eisner, encerrando o ciclo atual dos quadrinhos no mundo.

Fonte:
http://www.abigraf.org.br/index.php?Itemid=5&id=739&option=com_content&task=view&lang=br

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