Friday, September 3, 2010

A pesquisa sobre histórias em quadrinhos na Universidade de São Paulo


UNIrevista - Vol. 1, n° 3: (julho 2006) ISSN 1809-4561
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A pesquisa sobre histórias em quadrinhos
na Universidade de São Paulo:
análise da produção de 1972 a 2005
Waldomiro Vergueiro
Professor titular, coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos
wdcsverg@usp.br
ECA/USP, SP
Roberto Elísio dos Santos
Jornalista, pós-doutor em Comunicação, professor
roberto.elisio@imes.edu.br
IMES, SP
Introdução
No Brasil, embora tendo enfrentado dificuldades para sua aceitação no meio acadêmico, a pesquisa sobre
histórias em quadrinhos é realizada em diversas universidades do país com uma relativa freqüência. Grande
parte dos trabalhos acadêmicos formais apresentados sobre o tema como dissertações e teses tem se
relacionado com as ciências da comunicação, mas também é possível encontrar trabalhos investigativos
sobre histórias em quadrinhos nas áreas de Letras, Psicologia, História, Pedagogia e Medicina. Isto ocorre
não apenas pelos quadrinhos se constituírem em um dos mais pujantes produtos culturais da comunicação
de massa e terem grande popularidade entre a população, mas também por terem despertado o interesse
dos pesquisadores da mais diversas áreas.
Desde cedo a ampla divulgação das revistas de histórias em quadrinhos no país fez surgir um grupo de
admiradores que se destacava dos demais por buscar uma maior valorização de suas preferências de leitura.
Embora relativamente pequeno, este grupo revelou-se bastante ruidoso e ativo na realização de eventos
ligados à área, realizando, já em 1951, antes que qualquer outra exposição utilizando originais de histórias
em quadrinhos fosse realizada no mundo, a I Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos na cidade
de São Paulo. Esta primeira exposição foi o estopim do interesse pelas histórias em quadrinhos no país, com
alguns de seus organizadores posteriormente se dedicando a elas de forma sistemática, como aconteceu
com Álvaro de Moya (autor de diversos livros sobre quadrinhos e uma extensa produção jornalística), Jayme
Cortez (desenhista e diretor de estúdios de arte), Reynaldo de Oliveira, Syllas Roberg e Miguel Penteado
(editores) (MOYA, 1970; 2001).
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Durante a década de 1960, outro pólo de atenção aos quadrinhos surgiu no Rio de Janeiro, na Revista de
Cultura Vozes, que, ao final dessa década, dedicou dois números específicos às histórias em quadrinhos
(REVISTA DE CULTURA VOZES, 1969). Dos participantes dessa revista, dois nomes se destacaram
posteriormente pela constância na abordagem do tema: o jornalista Sérgio Augusto, um dos primeiros
profissionais do mundo a dedicar-se à crítica de quadrinhos na imprensa diária, e Moacy Cirne, professor da
Universidade Federal Fluminense, que centrou seus esforços de pesquisa acadêmica nas histórias em
quadrinhos e revelou-se, ao longo dos anos, como um dos mais sérios pesquisadores do tema no país, com
vários artigos editados em revistas especializadas, assim como diversos livros publicados (CIRNE, 1970;
1972; 1982, 1990, 2000, 2005).
No âmbito das ciências da comunicação, a pesquisa em quadrinhos ocorreu nas diversas universidades ou
instituições isoladas em que alguns pesquisadores se debruçaram sobre eles – destacando-se, neste aspecto,
as universidades de São Paulo e Federal Fluminense -, mas também no das associações científicas da área;
neste último espaço, ocupou papel de destaque no país a INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares de Comunicação. Nesta associação, desde meados da década de 1990, um diversificado
grupo de pesquisadores, alunos e interessados em geral reuniu-se anualmente durante os Congressos
Anuais da sociedade, constituindo inicialmente o Grupo de Trabalho Humor e Quadrinhos, depois
denominado Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos, em que eram apresentadas reflexões e
discutidos os resultados de pesquisas sobre histórias em quadrinhos desenvolvidas nas várias universidades
brasileiras.
Levando a discussão para o ambiente acadêmico, constata-se o pioneirismo do Brasil na atenção às histórias
em quadrinhos, destacando-se a criação de uma disciplina sobre esse assunto em um curso de graduação de
Comunicação na Universidade de Brasília (VERGUEIRO, 1985) e a pesquisa realizada no Centro de Pesquisas
da Comunicação Social da Faculdade de Jornalismo Casper Líbero, na cidade de São Paulo em ambiente
universitário, com coordenação do professor José Marques de Melo (1970).
Ainda no que se refere às pesquisas universitárias, é importante destacar a Universidade de São Paulo no
panorama das instituições de pesquisa do país por apresentar uma constância maior no estudo das histórias
em quadrinhos. Nesse sentido, registram-se nessa instituição teses pioneiras relacionadas com os
quadrinhos, posteriormente publicadas em forma de livro: a de Zilda Augusta Anselmo no Instituto de
Psicologia da USP (ANSELMO, 1975) e a de Antonio Luis Cagnin na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
da USP (CAGNIN, 1975).
A Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) tem o mérito de ter dedicado
um esforço sistemático e duradouro às histórias em quadrinhos, tornando-se um ponto de referência
nacional para a pesquisa na área. Para isto colaboraram a introdução de uma disciplina centrada nos
aspectos editoriais das histórias em quadrinhos, no Curso de Editoração dessa escola, ministrada durante
vários anos pela Profa. Sonia Bibe Luyten, autora da proposta original, e a posterior criação, em 1990, do
Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos, em torno do qual se reuniram os três professores que então
se dedicavam ao ensino e pesquisa de histórias em quadrinhos na ECA (Álvaro de Moya, Antonio Luiz Cagnin
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e Waldomiro Vergueiro), constituindo um fórum permanente de pesquisa e discussão sobre histórias em
quadrinhos, gerando diversos estudos e pesquisas.
Pelos motivos acima apontados, entendeu-se que a reflexão sobre a pesquisa acadêmica sobre histórias em
quadrinhos realizada na Universidade de São Paulo (USP) se faz necessária para compreender o
desenvolvimento, a abrangência e os resultados desses estudos, de forma a possibilitar a sistematização de
estratégias metodológicas para a evolução da pesquisa científica na área. Isso motivou a realização do
presente estudo, elaborado a partir do corpus de dissertações e teses defendidas na USP nas últimas três
décadas.
A evolução da visão teórica sobre as histórias em quadrinhos
Para realização do estudo pretendido, entendeu-se necessária a identificação, na literatura especializada, de
autores que tenham elaborado categorias para classificação das pesquisas sobre a linguagem gráfica
seqüencial, visando a construção de um quadro referencial que pudesse ser aplicado no corpus escolhido.
Entre os autores e textos identificados, destaca-se Thierry Groensteen (2000) que realizou uma análise
cronológica das visões teóricas a respeito das histórias em quadrinhos dominantes nas seis primeiras
décadas do século 20, identificando uma rejeição inicial por parte dos educadores em relação a todas as
formas de comunicação popular, consideradas, indistintamente, como vulgares e sujeitas a reprovação
moral, avaliação compartilhada tanto por estudiosos de linha conservadora como pelos marxistas. Segundo
ele, um exemplo dessa rejeição pode ser encontrado na revista Enfance, de 1954, em que um articulista
considera que “os efeitos (dos quadrinhos) são extremamente excessivos, tanto na expressão verbal como
na representação gráfica. Essas cores berrantes, rostos disformes, contorcidos em esgares de ódio ou terror,
esta sensualidade, estes longos abraços, tudo fala para a imaginação na mais brutal maneira, tudo é
sugestivo e evocativo” (GROENSTEEN, 2000, p. 33).
A evocação do autor francês é bastante sugestiva de uma visão negativa dos quadrinhos por parte dos
intelectuais, principalmente se considerarmos que do outro lado do Atlântico, nessa mesma época, o
psiquiatra Fredric Wertham (1954) publicava seu famoso livro Seduction of the Innocent, em que acusava as
revistas de histórias em quadrinhos de transformar o jovem leitor em delinqüente, ápice de uma campanha
difamatória contra esse tipo de publicações, que teve como conseqüência a elaboração do Comics Code pela
indústria editorial norte-americana (NYBERG, 1998).
Em geral, os pesquisadores e professores universitários viram os quadrinhos como produtos supérfluos,
feitos para uma leitura rápida e destinados depois ao esquecimento. Eventualmente, alguns pesquisadores
até concordavam que os quadrinhos poderiam representar um produto interessante e uma leitura agradável
para as crianças ou mesmo para os adultos que quisessem espairecer, mas poucos deles se atreviam a ir
além disso. Como prática geral, no entanto, muitos deles se colocaram contra as histórias em quadrinhos,
denunciando-as por sua mediocridade, seus erros de ortografia, suas figuras toscas ou suas mensagens
banais. A história dos quadrinhos está cheia de manifestações desse tipo e deve-se registrar, inclusive, que
a primeira exposição sobre o tema, realizada na Europa, tinha exatamente a essa postura destrutiva
(CREPIN, 1997).
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Em geral, pode-se dizer que a reação do meio acadêmico frente às histórias em quadrinhos foi de quase
total indiferença. Groensteen localiza na década de 1960 o turning point da postura dos intelectuais em
relação às histórias em quadrinhos. Mas isso não aconteceu por acaso: foi necessário que as artes plásticas
começassem a utilizar recursos das histórias em quadrinhos em suas obras - como aconteceu com os
trabalhos de Andy Warhol e Roy Lichtenstein -, e que nomes respeitados do mundo artístico se
confessassem influenciados pelas histórias em quadrinhos – como Orson Welles, Luiz Buñuel, Federico Fellini,
entre outros -, para que o mundo acadêmico passasse a dar um pouco mais de atenção a elas. Nesse
sentido, também colaborou a ousadia de alguns intelectuais europeus, que ousaram utilizar os quadrinhos
como objeto de pesquisa, principalmente no âmbito da lingüística e da semiologia (COMMUNICATIONS,
1976).
Não há dúvida de que a mudança ocorreu de forma paulatina. Ainda assim, pode-se afirmar que os fatos
acima apontados ajudaram a diminuir a rejeição aos quadrinhos no ambiente universitário; atualmente, já é
mais fácil encontrar, nas universidades do mundo inteiro, professores interessados nas histórias em
quadrinhos, que realizam e orientam pesquisas, ministram disciplinas sobre elas e realizam um contato
muito frutífero com produtores e consumidores desse meio de comunicação de massa, ajudando a ampliar a
compreensão sobre as particularidades e potencialidades do meio, como testemunham o Directory of Comics
Scholars (2006) e os diversos acervos especializados sobre histórias em quadrinhos existentes em
universidades norte-americanas como a Michigan State University Libraries (MICHIGAN STATE UNIVERSITY
LIBRARIES, 2006), Ohio State University (THE OHIO STATE UNIVERSITY CARTOON RESEARCH LIBRARY,
2006) e o Comics Research Libraries (2006), na Europa. A par disso, o reconhecimento das histórias em
quadrinhos deu origem a periódicos especializados como o International Journal of Comic Art (1999-) e
ImageText (2003), este último editado em ambiente virtual.
Complementando o trabalho de Groensteen, outros autores expandiram os possíveis enquadramentos
teóricos das pesquisas sobre a 9a Arte. Os teóricos dinamarqueses Hans-Christian Christiansen e Anne
Magnussen (2000) propuseram várias perspectivas de estudo dos quadrinhos: estruturalista, psicanalítica,
marxista, dos estudos culturais, pós-modernista e pós-estruturalista. Já os pesquisadores do Comic Art
Research Group, da Temple University, Estados Unidos (LOMBARD et all., 1999), formularam uma
classificação baseada nos seguintes aspectos: nível temático, nível da perspectiva (psicológica, sociológica,
estética, econômica, histórica, filosófica e médica) e o nível técnico (análises semiótica, do discurso, literária,
retórica, de conteúdo, histórica, bem como estudo de caso, entrevista, aplicação de questionários e
experimentação).
Com base nos autores citados, foram desenvolvidos os possíveis enquadramentos para classificar as
pesquisas sobre histórias em quadrinhos realizadas na USP, centradas nos seguintes aspectos:
Linguagem: o pesquisador, a partir de um corpus definido de histórias, discute teoricamente e conceitua
os elementos que compõem a linguagem específica dos quadrinhos;
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Conteúdo: identificação e discussão dos possíveis significados presentes nas histórias, usando como
ferramenta as análises semiótica, do discurso ou de conteúdo;
História: busca-se a relação de uma produção quadrinhística a um determinado período histórico; engloba
a análise de conjuntura, levantamento de publicações, documentação e recuperação da memória (de
publicações, editoras, autores etc.);
Sociedade/cultura: estudo da abordagem, pelos quadrinhos, de temas sociais como sexo, violência
urbana, guerra, racismo, entre outros; pode abranger também a forma como grupos sociais são retratados
pelas narrativas gráficas seqüenciais e a relação dos quadrinhos com a política ou ideologias;
Técnica-estética: análise dos procedimentos artísticos e estilísticos das histórias em quadrinhos;
Aplicações práticas: o uso dos quadrinhos na Educação, no Marketing, na evangelização ou na
conscientização política e social;
Recepção: pesquisas, normalmente mas não exclusivamente quantitativas, voltadas para determinação do
perfil do público-leitor ou sua reação a produções específicas;
Economia: estudos de mercado que apontam tendências, segmentação de público e de produtos,
concorrência, circulação e consumo, distribuição etc.
Análise dos trabalhos finais de pós-graduação apresentados na USP (1972-2005)
Para identificação do corpus da pesquisa, foi realizado um levantamento na Base de Dados Bibliográficos
DEDALUS, do acervo de bibliotecas da USP, efetuando-se a busca pela palavra-chave “quadrinhos”, no
banco de teses. Sabia-se que, desta forma, não seriam recuperados trabalhos acadêmicos referentes a
charges, caricaturas ou humor gráfico de uma maneira geral, uma vez que, por delimitação de pesquisa,
decidiu-se centrar a análise apenas nos trabalhos que tratassem especificamente de histórias em quadrinhos.
Com o procedimento acima descrito, obteve-se um total de 37 títulos, que foram então analisados quanto a
sua pertinência e conteúdo. A partir desses critérios, 3 textos foram eliminados do corpus por se tratar de
trabalhos apresentados em eventos, de conclusão de curso de aperfeiçoamento ou de capítulo de livro,
enquanto 4 foram descartados por não abordarem especificamente o tema histórias em quadrinhos, embora
o mencionassem indiretamente; posteriormente, foram acrescentados ao corpus dois trabalhos que não
foram recuperados pela base de dados, mas que eram de conhecimento dos autores da pesquisa. Assim,
teve-se, ao final, um total de 30 dissertações e teses, distribuídas temporalmente, como mostra a Tabela 1:
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Tabela 1 – Produção de Dissertações e Teses na USP, por
décadas
ANO Trabalhos Porcentagem
1970-1979 03 10,0 %
1980-1989 04 13,4 %
1990-1999 10 33,3 %
2000-2005 13 43,3 %
TOTAL 30 100 %
A análise da Tabela 1 deixa evidente o crescimento da pesquisa científica sobre histórias em quadrinhos na
Universidade de São Paulo. Esse crescimento pode ser resultado, conforme aponta Groensteen (2000), da
diminuição do preconceito contra essa manifestação artística no ambiente universitário; além disso, deve-se
considerar também o fato de que pesquisadores que realizaram suas pesquisas nas décadas de 1970 e 1980
iniciaram seu trabalho de orientação nas décadas seguintes, aumentando o volume de pesquisas na área.
Quanto ao nível acadêmico dessas pesquisas, nota-se a predominância das dissertações de mestrado, que
totalizaram 19 títulos contra 11 de teses de doutorado. É um dado que não surpreende, uma vez que se
trata de área em formação e desenvolvimento na Universidade. Já no que se refere às áreas em que esses
trabalhos foram apresentados, notou-se a concentração nas de Ciências Sociais Aplicadas e Humanas,
conforme demonstrado na Tabela 2:
Tabela 2 – Produção de Dissertações e Teses na USP, por
áreas
ÁREA Trabalhos Porcentagem
Comunicações 14 46,6 %
Educação 02 6,7 %
Filosofia e Letras 09 30,0 %
Medicina 02 6,7 %
Psicologia 03 10,0 %
TOTAL 30 100 %
As pesquisas foram analisadas nas categorias anteriormente mencionadas, apresentando a seguinte
configuração, apresentada na Tabela 3:
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Tabela 3 – Pesquisas por categoria de análise
Enquadramento No de Trabalhos
Linguagem 03
Conteúdo 12
História 04
Sociedade/Cultura 02
Técnica/Estética 01
Aplicações Práticas 04
Recepção 04
Economia 00
Total 30
Além da constatação óbvia, que aponta uma concentração maior de trabalhos que envolvem discussões
sobre o conteúdo das histórias em quadrinhos, é possível constatar espaço para ampliação de pesquisas que
envolvam aspectos econômicos e de mercado, bem como textos que enfoquem aspectos técnicos e estéticos
da linguagem gráfica seqüencial, além de estudos que enfoquem a relação entre histórias em quadrinhos,
sociedade e cultura. Na seqüência, realiza-se análise pormenorizada dos trabalhos presentes em cada
categoria.
Linguagem
Três trabalhos acadêmicos se dedicaram à discussão teórica e conceitual dos elementos que compõem a
linguagem específica dos quadrinhos, todos eles apresentados na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
Dentre eles encontra-se o estudo pioneiro de Antonio Luiz Cagnin, Introdução à análise das histórias em
quadrinhos, realizado em 1973. Passaram-se quase 30 anos para o aparecimento do segundo, A
representatividade da oralidade nas histórias em quadrinhos, elaborado por Clarícia Akemi Eguti em 2001.
Enquanto o primeiro se caracteriza como um estudo amplo da linguagem e da narrativa quadrinhográfica, o
outro enfoca um aspecto específico das HQs, ou seja, a transposição da linguagem falada para o meio
impresso.
Conteúdo
Como mencionado, os trabalhos que visaram identificar e discutir os possíveis significados presentes nas
histórias em quadrinhos foram os mais numerosos no período de 1972 a 2005. Do total de 29 títulos
recuperados, pouco mais de 40% (12 trabalhos) analisam personagens, autores, gêneros ou formatos
específicos. Do total, 3 trabalhos referem-se a personagens (Horácio e Turma da Mônica) ou autores (Laerte)
brasileiros. Recortes específicos por gêneros foram buscados em 5 pesquisas (humor, shojo mangá,
quadrinhos eróticos e quadrinhos Disney).
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História
A quase totalidade dos 4 trabalhos que buscaram a relação da produção quadrinhística com um determinado
período histórico tratou da produção nacional, enfocando a revista O Tico-Tico, os fanzines de quadrinhos no
Brasil e o quadrinho de terror brasileiro, a partir da obra de dois autores (Nico Rosso e Rubens Lucchetti), o
que é bastante significativo e promissor em termos de pesquisas que visam resgatar a memória do
quadrinho brasileiro. O outro texto tratou da produção iconográfica brasileira à época da Guerra do Paraguai,
tendo como resultado a realização de uma história em quadrinhos (Adeus, Chamigo brasileiro).
Sociedade/Cultura
Dois trabalhos ocuparam-se de temas sociais nas histórias em quadrinhos. Em ambos prevalece a análise do
contexto sócio-cultural de uma nação pela perspectiva dos quadrinhos. O primeiro deles, realizado pela
pesquisadora Sonia Bibe Luyten, demonstra como o mangá reflete a sociedade japonesa em seus conteúdos,
narrativas e estética. O outro envolve a representação da realidade brasileira nas histórias em quadrinhos,
sem restrições temporais, evidenciando a utilização da linguagem gráfica seqüencial para a exteriorização de
preconceitos e estereótipos.
Técnica e Estética
Apenas uma dissertação de mestrado abordou aspectos estéticos da história em quadrinhos. No caso, a
pesquisa envolveu a conceituação da categoria do quadrinho autoral adulto, analisando suas principais
características e realizando um estudo de caso da obra do artista Lourenço Mutarelli.
Aplicações práticas
Neste enquadramento foram realizadas pesquisas que aplicaram as histórias em quadrinhos nos campos da
Educação, Medicina, Medicina Veterinária e Psicologia. Nesse sentido, é interessante notar a prevalência da
área de Ciências Biológicas, em que se situam 3 dos 4 trabalhos acadêmicos identificados, embora as
histórias em quadrinhos apareçam, como objeto de aplicação, juntamente com outros meios. De uma certa
forma, pode-se inferir a existência da percepção de que as histórias em quadrinhos oferecem reais
benefícios para a prevenção de doenças e a disseminação de hábitos saudáveis, assim como para o
aprendizado em geral.
Recepção
Dentre os 4 trabalhos que tiveram esta abordagem como prioritária, destaca-se o pioneiro estudo de Zilda
Augusto Anselmo, realizado em 1972, já mencionado. Nessa pesquisa, realizado com adolescentes da cidade
de Santo André, SP, a autora demonstrou a relação existente entre a leitura de histórias em quadrinhos e
outras formas de leitura, como livros e revistas em geral, além de evidenciar que os leitores de quadrinhos
não se afastavam do estudo, como se pensava à época. Das demais pesquisas realizadas na USP, duas
focaram a recepção de histórias em quadrinhos por adolescentes deficientes auditivos, enquanto a última
tratou da construção do significado de “amizade” a partir da interação entre crianças leitoras de quadrinhos.
Economia
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Até o momento de conclusão deste artigo, nenhuma pesquisa enfocando aspectos econômicos e
mercadológicos das histórias em quadrinhos foi realizada na Universidade de São Paulo, refletindo a
precariedade da indústria editorial de quadrinhos no país.
Conclusão
A análise da produção científica sobre histórias em quadrinhos na USP permitiu identificar práticas de
pesquisa que explicam a diversidade temática e metodológica encontradas de 1972 a 2005. Destaca-se,
assim, o paulatino crescimento do interesse pelas histórias em quadrinhos como objeto de pesquisa na
Universidade de São Paulo, sinalizando para a derrubada de preconceitos e maior aceitação da linguagem
gráfica seqüencial nos meios acadêmicos.
Apesar de a grande maioria dos trabalhos pertencer a cursos das áreas de Ciências Sociais e Humanas
torna-se evidente o interesse despertado pelas Histórias em Quadrinhos em outros setores do conhecimento.
A aplicação dos quadrinhos em áreas biológicas é a evidência concreta de sua importância, tanto para a
pesquisa acadêmica como para profissionais de diferentes formações e também para a sociedade.
A análise das pesquisas acadêmicos realizados na Universidade de São Paulo no período de 1972 a 2005
aponta o espaço para o crescimento de trabalhos que apresentem reflexão sobre a relação entre quadrinhos
e sociedade. Da mesma forma, é necessário um maior incentivo a trabalhos na área de estudos
mercadológicos e econômicos dos quadrinhos no Brasil. Entretanto, espera-se que a continuidade da
ampliação dos trabalhos de pesquisa sobre quadrinhos no âmbito universitário, como é evidenciado pela
ascendente produção ao longo das décadas de 1970 a 2000, faculte o preenchimento dessas lacunas.
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Fonte:
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