Monday, September 20, 2010

OS QUADRINHOS DA LINGUAGEM:



O preconceito linguístico analisado nas histórias em quadrinhos da Turma da Mônica e da
Turma do Chico Bento
Bethânia Nogueira de LIMA
Giuliana Troilo de OLIVEIRA
Mariana Helena MESSIAS
Profa. Ms. Maria Sílvia P. Rodrigues Alves BARBOSA (Orientadora)
Resumo: o presente trabalho tem como principal objetivo identificar, por meio de uma
análise feita através das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica e da Turma do Chico
Bento, o Preconceito Linguístico existente em torno de variantes linguísticas como a gíria e a
fala do caipira. Para que essa análise pudesse ser realizada, fizemos primeiro um estudo sobre
Variação e Mudança Linguística. Em seguida, apresentamos alguns aspectos estudados pela
Sociolinguística e, finalmente, abordamos o tema Preconceito Linguístico. O próximo item de
nosso trabalho foi um estudo realizado sobre a origem e estrutura das histórias em quadrinhos
assim como sobre a origem e estrutura do mangá, que é o formato das novas histórias da
Turma da Mônica na versão Jovem. Outro ponto importante que nos auxiliou na realização
desse trabalho foi o estudo sobre a relação da criança e do adolescente com as histórias em
quadrinhos. Escolhemos como corpus dessa análise, tiras das histórias da Turma da Mônica
Infantil, da Turma do Chico Bento e da Turma da Mônica Jovem. As análises da linguagem
dessas tiras constituem o principal foco deste trabalho.
Palavras-chave: variação linguística; preconceito linguístico; histórias em quadrinhos.
Abstract: The following study has as main purpose identify, by mean of done analysis among
Monica’s Gang Comics and Chico Bento’s Gang, the Linguistic Prejudice existent on the
Language Variation, as the dialect and the rustic’s speech. Toward this analysis be performed,
we first did a research among the Linguistic Variation and Linguistic Changes. The following
step we presented some aspects studied by sociolinguistic and finally we have approached the
Linguistic Prejudice. The next point of our research has been an analysis done about the
source and framing of the comics such as the source and framing of ‘manga’, which is the
format of new comics about Monica’s Gang in Youth version. Another main point of our
research had been the study among the relationship of the children and the youthful herewith
the comics. We chose as corpus of our analysis, strips of the Monica’s Gang, of the Chico
Bento’s Gang and Monica’s Gang Youth stories. The analysis of these languages maintained
on the strips is the main purpose of our research.
Keywords: linguistic variation; linguistic prejudice; comics.
Introdução
Essa pesquisa tem por objetivo abordar relações de linguagem da criança e do
adolescente nas histórias em quadrinhos, e apontar através delas, o preconceito linguístico em
relação ao dialeto caipira e a valorização da gíria entre os adolescentes. Para isso, contamos
com estudos de Marcos Bagno, Ronald Beline, Paulo Chagas e Raquel Santos, em que
encontramos apoio e sustentação para nossa pesquisa.
Através destes estudos, percebemos o quanto os fenômenos da língua são
variados e as muitas possibilidades de pesquisa que poderíamos abordar. Escolhemos, pois,
mostrar o preconceito linguístico e a valorização da gíria expostos em uma mídia de livre
acesso tanto à criança como aos adolescentes e que representa, hoje, um produto de grande
circulação.
As histórias em quadrinhos, atualmente, são usadas nas salas de aula como
textos complementares e também são consideradas como leitura para diversão. Justamente por
esse fato, é que as histórias em quadrinhos foram escolhidas para mostrar os fenômenos que
iremos abordar nesta pesquisa. Elas estão presentes tanto na vivência escolar como no
cotidiano da criança e do adolescente. Para que esse público goste tanto deste tipo de leitura,
acreditamos que as histórias em quadrinhos continuam sendo um gênero muito apreciado e
valorizado por seus leitores. Acreditamos, também, que seus produtores tentam aproximá-las
o máximo possível do cotidiano, das vivências reais e, portanto, da língua falada, para atrair
cada vez mais leitores.
Para abordar sobre as histórias em quadrinhos, pesquisamos em monografias,
artigos de revistas e reportagens, tanto impressas como digitais. Constituímos como corpus de
pesquisa a Turma da Mônica, a Turma do Chico Bento e a Turma da Mônica Jovem. Para
isso, pesquisamos em versões on-line, aspectos sobre Mauricio de Sousa e sobre a Turma da
Mônica e colhemos, no site oficial, a maioria das informações.
Abordamos também sobre alguns aspectos relacionados à linguagem da criança
e do adolescente. Procuramos mostrar através das teorias de Chomsky, Piaget e Vygotsky a
aquisição da linguagem e sua importância como objeto de relacionamento com o mundo, isto
é, com o meio social. Mostramos como as crianças se apegam à leitura com figuras, e como as
histórias em quadrinhos são valorizadas por várias faixas etárias. Verificamos também como
essas relações se dão na adolescência e mostramos que a linguagem é uma marca de
identidade para o adolescente e forma de socialização entre eles.
Para a análise do corpus, selecionamos tiras da Turma da Mônica, da Turma do
Chico Bento e da Turma da Mônica Jovem. Analisamos como a fala é marcada em cada
ambiente – cidade e interior – e nas duas faixas etárias – criança e adolescente. Mostramos a
abordagem linguística utilizada em cada uma e apontamos as diferenças e preconceitos
expostos na fala dos personagens.
Acreditamos que, através dessa pesquisa, as percepções de preconceito
linguístico e valorização da língua possam ser identificadas, não somente nas histórias em
quadrinhos, mas também em todos os meios de comunicação, principalmente na fala
cotidiana. Esperamos também que os professores que utilizam esse tipo de texto em sala de
aula abordem, além da leitura e gramática, outros fenômenos da língua, os que estão mais
presentes na fala, e com isso, os alunos possam perceber o quanto a língua portuguesa é
variada e que não importa a maneira como se fala e, sim, o que se fala.
1 Língua, variação e sociedade
Fizemos, ainda, um estudo teórico sobre importantes temas que serão usados
em nossas análises ao longo deste trabalho. Este estudo compreende os principais conceitos
de Variação Linguística. Para isso, foi necessária também uma breve reflexão sobre Mudança
Linguística e Sociolinguística, temas que estabelecem relações entre a sociedade e a língua.
Em seguida, apresentamos um estudo sobre o Preconceito Linguístico, tema que estará muito
presente durante a análise do corpus desse trabalho.
Para e realização desse estudo teórico, baseamo-nos em reflexões de alguns
estudiosos, são eles: Beline (2004), Chagas (2004), Scherre (2005) e Bagno (2004).
1.1 Variação linguística
A Língua Portuguesa é dotada de uma grande variação, uma vez que a língua é
um fato social e o falante, portanto, tem autonomia no seu uso. A variação linguística deve-se
a uma porção de fatores como: classe social, idade, sexo, contexto, escolaridade, formalidade
ou informalidade na situação de fala, entre outros, formando, assim, uma enorme diversidade
nacional.
Há muitos anos os linguistas estudam as variações da língua, desde o sentido
amplo da questão – as diferentes línguas que existem no mundo – até fatos corriqueiros como
as diferentes maneiras de se falar determinadas palavras no português do Brasil. A linguística
estuda as línguas levando em consideração todos os fatores que podem fazer com que haja a
variação na fala ou na escrita. Sendo assim, a base do pensamento linguístico é o estudo da
língua e seus fenômenos. A variação linguística é construída pela forma individual com que
cada falante se expressa. Uma mesma língua pode apresentar variações lexicais, fonéticas,
morfológicas e sintáticas. Segundo Beline (2004), o interesse principal do linguista “é o de
localizar e descrever, regional e socialmente os dialetos de uma língua, os diferentes falares
que ela pode apresentar”. Nesse sentido, este mesmo autor, afirma que:
Atualmente, quando se fala em variação, é comum fazer referência à
sociolinguística, essa área da ciência da linguagem que procura, basicamente,
verificar de que modo fatores da natureza linguística e extralinguística estão
correlacionados ao uso de variantes nos diferentes níveis da gramática de uma língua
– a fonética, a morfologia e a sintaxe – e também no seu léxico (BELINE, 2004, p.
125).
Dentre as áreas da linguística, há uma denominada Sociolinguística, que estuda
especificamente as relações existentes entre a língua e a sociedade. O que para a Gramática
Tradicional é visto como erro, para a Sociolinguística é visto como diversidade tendo em vista
que não existe apenas um único grau de escolaridade, nem uma única vivência cultural. As
pessoas falam diferentemente porque elas são diferentes e únicas. Segundo Belini (2004),
numa mesma língua, uma mesma palavra pode ser pronunciada de formas diferentes
interferindo ou não em seu léxico. Quando essa diferença acontece de acordo com a
localização geográfica do falante, é chamada de variação diatópica, se ocorrer de acordo com
a situação de fala (contexto mais formal ou mais informal) recebe o nome de variação
diafásica, e ainda há a variação diastrática que se realiza de acordo com o nível
socioeconômico do falante.
Um exemplo de variação diatópica que se dá no nível fonético é a diferença
existente entre a fala dos cariocas e a dos paulistanos. A mais visível diferença é apresentada
na forma como eles pronunciam o -r em final de sílaba. Paulistanos fazem essa pronúncia
como uma vibrante simples, já os cariocas são conhecidos por aspirar o mesmo -r. Podemos
observar outras variações em diferentes grupos como a alternância do -lh em -i: mulher/muié,
velho/véio; redução dos ditongos: caixa/caxa, peixe/pexe; redução do -r no infinitivo:
amar/amá, andar/andá, fazer/fazê, entre outros casos.
A variação pode ser também lexical, isso acontece quando mais de uma palavra
é usada para fazer referência a um mesmo objeto. Na Bahia “jerimum” é usado para chamar
aquilo que no Sul e Sudeste conhecemos como “abóbora”. Se fizermos um levantamento dos
nomes que as pessoas usam para a palavra “diabo”, nos surpreenderemos. Muitas pessoas não
gostam de pronunciar a palavra “diabo” e, por isso, criam uma nova forma para substituí-la, é
o que vemos como exemplo na obra Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, que traz
uma linguagem muito característica do sertão centro-oeste do Brasil em que a palavra “diabo”
deixa de ser pronunciada apresentando os seguintes nomes: Demo, Cujo, Tinhoso, O
indivíduo, O sujo, O coisa ruim, O pai do mal, dentre outros.
Os estudos da Sociolinguística foram desenvolvidos em sua grande parte pelo
linguista americano William Labov que inicia, nos anos de 1960, uma série de investigações
sobre a variação linguística. Os estudos apresentados por Labov revolucionaram a
compreensão de como os falantes utilizam sua língua, pois apresentam uma nova forma de
pensar sobre o seu uso. Para a Gramática Tradicional, essas variações são vistas como erros e,
por isso, não são aceitas em determinadas situações.
Pela perspectiva Sociolinguística variacionista, iniciada por Labov, toda língua
apresenta variação sendo um fator desencadeador de mudança linguística. A mudança
linguística é caracterizada principalmente pelo contato com pessoas de faixas etárias
diferentes, ou seja, quanto maior a diferença de idade, maior a probabilidade de encontrarmos
diferenças na maneira de falar. Segundo o estudioso Paulo Chagas, percebemos uma
mudança linguística não somente através das comunidades de fala, mas também pelos textos
escritos ou falados – filmes, gravações ou qualquer tipo de registro no qual possamos ouvir os
sons utilizados – de outras épocas. “Embora seja algo conhecido que as línguas mudam, tanto
em sua forma falada quanto em sua forma escrita, a língua escrita é sempre mais conservadora
do que a língua falada” (CHAGAS, 2004, p. 141). Portanto, o que ocorre é que, muitas vezes,
vários tipos de palavras têm a sua pronúncia alterada, mas continuam a ser escritas da mesma
forma, existindo, assim, um distanciamento entre a língua escrita e a língua falada. De acordo
com Chagas (2004), essas mudanças ocorrem tanto no nível gramatical, como nos níveis
morfológicos, sintáticos, fonológicos e semânticos. Chagas afirma que “Uma mudança que
ocorre em um desses componentes da gramática pode levar a alterações em outro, como o
surgimento de formas como “você”, que acabou afetando o sistema de pronomes possessivos”
(CHAGAS, 2004, p. 147). Essa mudança não ocorre rapidamente, mas gradualmente, pois
passa por um período de transição em que ocorre a variação. Somente depois desse período de
transição é que se estabelece uma mudança. Percebemos, então, o quanto a mudança e
variação estão relacionadas, sendo necessário estudarmos as duas concomitantemente.
Dentro de uma perspectiva variacionista se tem como certo que toda mudança
pressupõe variação, ou seja, para que ocorra a mudança a língua tem necessidade de
passar por um período em que há variação, em que coexistem duas ou mais
variantes (CHAGAS, 2004, p.152).
As mudanças que ocorrem na sociedade são refletidas na língua. É importante
ressaltar que as línguas não são sistemas perfeitos, acabados. A língua está sempre sendo
renovada, mas nem toda inovação é realmente incorporada e difundida pelos falantes. A
língua é heterogênea, é um sistema vivo. “Essa heterogeneidade é no fundo a raiz de toda
mudança e podemos verificar que a heterogeneidade na sociedade pode gerar heterogeneidade
na língua e vice-versa” (CHAGAS, 2004, p.151). Fica clara a relação estreita entre língua e
sociedade, em que uma interfere na outra, consequentemente, uma modifica a outra.
As escolas tentam ensinar o que os livros defendem como certo e, muitas
vezes, se esquecem de que o falante tem a sua própria característica enquanto pessoa, ele
aprendeu a falar em sua comunidade e em sua família, por isso traz com ele aquela forma de
se expressar que sempre usou em seu meio e sempre foi entendido através dela. O que as
escolas deveriam fazer é ensinar aos seus alunos que, no Brasil, existe uma forma de falar
prestigiada que é aquela aprendida nas gramáticas, forma essa que precisa, sim, ser estudada,
pois é através dela que se tem acesso a bens culturais mais valorizados, mas que essa forma
não seja considerada como única e absoluta. Quando essa forma de falar passa a ser defendida
como o jeito certo de falar, ela faz com que as variações sejam vistas como o jeito errado de
falar, fazendo, assim, com que o seu usuário seja menos valorizado do que os falantes de
norma culta.
Certa tradição cultural nega a existência de determinadas variedades
linguísticas dentro do país, o que acaba por rejeitar algumas manifestações linguísticas por
considerá-las deficiências do usuário. Nesse sentido, vários mitos são construídos, a partir do
preconceito linguístico.
1.2 O preconceito linguístico
Preconceito linguístico é a atitude de discriminar uma pessoa quando seu modo
de falar se difere das regras estabelecidas pela Gramatica Tradicional. De acordo com Scherre
(2005), o preconceito vai além da forma de falar, atingindo assim, o indivíduo que traz
consigo uma variante linguística menos prestigiada. A esse respeito, afirma:
Na maior parte das vezes, o ensino de gramática é feito de forma rígida, como se
tudo que fosse diferente do que está registrado ou codificado por nossas gramáticas
fosse inerentemente errado. O ensino normativo tem o objetivo explícito de banir
da(s) língua(s) formas ditas empobrecedoras, formas ditas desviantes, formas
consideradas indignas de uma língua bem falada e, portanto, consideradas indignas
de serem usadas por homens de bem. [...] com frequência, banem-se da escola não as
formas linguísticas consideradas indesejáveis, mas, sim, as pessoas que as produzem
(SCHERRE, 2005, p. 42).
O preconceito, na maior parte das vezes, é exercido por aqueles que tiveram
acesso à educação de qualidade, à norma padrão de prestígio. Geralmente essas pessoas
ocupam as classes sociais dominantes e, sob o pretexto de defender a língua portuguesa,
acreditam que o falar daqueles com menor ou nenhuma instrução formal e com pouca
escolarização seja inferior, denominam a variação com o nome de erro. O preconceito
linguístico é, portanto, um preconceito social: não é a maneira de falar que sofre preconceito,
mas a identidade social e individual do falante.
Em diversos momentos, podemos constatar esse preconceito, isso acontece em
torno do jovem que usa gírias, mesmo que não seja uma pessoa sem escolaridade, na maioria
das vezes em que ele utiliza dessa variante para se expressar, passa a ser visto como tal. Em
entrevistas de emprego, por exemplo, muitas vezes, a capacidade do indivíduo passa a ser
menos importante se sua forma de falar não agrada ao entrevistador. Podemos observar na
televisão que em grande parte das novelas ou programas de humor, sempre que algum
personagem apresenta uma variante menos prestigiada em sua maneira de falar, é colocado
como um empregado, um negro, ou seja, sempre em posição inferior em relação a dos demais.
Bagno (2004) afirma que “a mídia poderia ser um elemento precioso no combate ao
preconceito linguístico, mas infelizmente, ela é hoje o maior propagador deste preconceito”.
Nem todas as variações linguísticas têm o mesmo prestígio social no Brasil,
basta lembrar de algumas variações usadas por pessoas de determinadas classes sociais ou
regiões para perceber o quanto há preconceito em relação a elas, por exemplo, o uso de gírias
pelos adolescentes.
A gíria é uma variante linguística com termos e expressões que caracterizam
um determinado grupo. Esse meio de se expressar contém uma linguagem codificada com a
finalidade de não ser entendida por quem não pertence ao grupo. Com o objetivo de manter a
identidade, o uso da gíria serve como signo de grupo, contribuindo, assim, para o processo de
auto-afirmação do indivíduo. Os termos são criados, na maioria das vezes, a partir da
linguagem comum, o que os indivíduos fazem é uma alteração do significante mudando
categorias gramaticais e criando metáforas e/ou metonímias que expressam a visão de mundo
do grupo. De acordo com a professora Bulhões (2007):
A gíria é, portanto, derivada de contribuições variadas da língua comum,
abrangendo arcaísmos, neologismos, aspectos estilísticos, mudanças sintáticas e
outros recursos que, a princípio, teriam o objetivo de tornar uma linguagem
irreconhecível (BULHÕES, 2007, p. 58-59).
Algumas vezes o uso de gírias reflete ironia, agressividade ou humor. Seu
processo de criação baseia-se no aspecto lúdico, tornando-se um jogo de adivinhação para
quem é estranho ao grupo. Por esse fato, a gíria e os falantes que fazem uso dela são, muitas
vezes, vítimas de preconceito.
Outra variante que tem sofrido muitos preconceitos é o dialeto caipira. A forma
normalmente utilizada por falantes das regiões interiores rurais dos estados de Minas Gerais,
Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, e interior de São Paulo, na maioria das
vezes, é vista com um olhar pejorativo por falantes da norma culta. O preconceito com esse
dialeto, em determinados momentos, deixa de ser só em torno da língua e passa a ser
especificamente contra o falante. A partir desse preconceito, o termo caipira deixou de
representar seu verdadeiro sentido de homem ligado à terra, à cultura original e passou a ser
sinônimo de brega, mal vestido, velho e de alguém que utiliza uma linguagem com aspectos
peculiares.
Bagno (2004), no livro Preconceito linguístico – o que é, como se faz, analisa
oito pontos que ele chama de mitos em torno da língua. De acordo com o autor, é por
acreditar nesses mitos que grande parte do preconceito linguístico é gerado. No primeiro mito
– A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente – o autor fala
sobre a diversidade do português falado no Brasil e destaca a importância de as escolas e
todas as demais instituições voltadas para a educação e a cultura abandonarem esse mito da
unidade do português no Brasil e passarem a reconhecer a verdadeira diversidade linguística
de nosso país. No segundo mito – Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem
o português – Bagno faz uma longa análise levando em conta a história desses dois países e
desmitifica esse preconceito. De acordo com o autor, o mito – Brasileiro não sabe português –
afeta o ensino da língua estrangeira, pois é comum escutar professores dizerem: os alunos já
não sabem português, imagine se vão conseguir aprender outra língua, fazendo a velha
confusão entre a língua e a gramática tradicional. No terceiro mito – Português é muito difícil
– o autor se baseia na ideia de que as regras gramaticais consideradas certas são aquelas
usadas em Portugal, e como o ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical
portuguesa, as regras que aprendemos na escola, segundo o autor, em boa parte não
correspondem à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por esse motivo,
achamos que português é uma língua difícil. O quarto mito – As pessoas sem instrução falam
tudo errado – trata da ideia de que toda variação que se apresente de forma diferente àquela
apresentada pela gramática e pelos dicionários, é vista como erro. Bagno, no quinto mito – O
lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão – diz ser este um mito sem
nenhuma fundamentação científica, uma vez que nenhuma variedade, nacional, regional ou
local seja melhor, mais pura ou mais correta do que outra. No sexto mito – O certo é falar
assim porque se escreve assim – Bagno analisa a forte tendência presente no ensino da língua
de obrigar o aluno a pronunciar do jeito que se escreve como se fosse a única maneira de falar
português. No sétimo mito – É preciso saber gramática para falar e escrever bem – o autor
afirma que é difícil encontrar alguém que não concorde com esse mito, ele discorda dessa
idéia e apresenta a simples reflexão de que se isso fosse verdade, todos os gramáticos seriam
grandes escritores, e os bons escritores seriam especialistas em gramática. Na visão do autor,
a gramática passou a ser um instrumento de poder e controle. O oitavo mito – O domínio da
norma culta é um instrumento de ascensão social – tem forte relação com o primeiro, pois
ambos refletem sérias questões sociais. Bagno diz que o domínio da norma culta nada vai
adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente e que
não basta ensinar a norma culta a uma criança de classe baixa para que ela suba na vida,
precisa haver um reconhecimento da variação linguística, porque segundo o autor, o mero
domínio da norma culta não é uma fórmula mágica que, de um momento para outro, vai
resolver todos os problemas de um indivíduo julgado inferior aos demais.
2 As histórias em quadrinhos: histórico, criação e principais aspectos
As histórias contadas através de desenhos iniciaram-se primeiramente com as
figuras pintadas nas cavernas nos tempos da pré-história; os desenhos simbolizavam enredos
de uma situação de vivência, portanto essas imagens se fazem valer dos fatos que
aconteceram na época.
Com o passar do tempo, o homem foi se aperfeiçoando no modo de explicar,
desenhando e tentando mostrar de forma ilustrativa o que se passava ao seu redor, contendo
desde a pintura da pré-história até os desenhos que narravam aventuras de caça. No Japão,
surgiram formas de quadrinhos contendo balões com uma estrutura já montada e agrupada em
um mesmo quadro, existem desenhos datados de 1702. Até meados de 1930, os quadrinhos
eram mais simples, contendo animações, temas suaves, com personagens menos
problemáticas. A sociedade considerava o quadrinho como piada e o gênero predominante era
o humor suave, não havia cenas eróticas nem tanta profundidade textual, o que os tornava
apenas diversão. Com a queda da bolsa de valores de Nova Iorque, e a mudança de vários
fatores na estrutura econômica e social, desencadeou-se na sociedade um certo desespero. Os
leitores necessitavam, naquele momento, de heróis para os salvarem de seus problemas,
encontrando nos personagens dos quadrinhos, principalmente nos heróis com poderes
surreais, a esperança de uma melhoria de vida. Com isso, a indústria cartunista alavancou no
apogeu de sua cronologia. Houve, então, o seu conhecimento global, colocando as histórias
em quadrinhos na mídia real.
Nos Estados Unidos, as histórias publicadas em tiras são denominadas comic
strips (tiras cômicas) por terem caráter humorístico, este mesmo nome segue nos países de
língua inglesa. Na França, são denominados bandes dessinéias (tiras desenhadas). Na Itália,
são conhecidos como funetti (fumacinhas ou balões que indicam falas dos personagens). Na
Espanha, fica conhecido como tebeo, nome que se originou de uma revista infantil chamada
TBO. Em Portugal, é chamado de história aos quadrinhos. No Japão, recebe o nome de
mangá, e são publicadas em três versões: uma para rapazes, uma para moças e uma para
crianças, cada um contendo características próprias. No Brasil, são conhecidas por dois
nomes, histórias em quadrinhos ou gibi, este último significa moleque, nome de uma revista
da Editora Globo publicada nas décadas de 1930 e 1940.
As agências que distribuem as revistas em quadrinhos tiveram e têm ainda um
papel muito importante, pois são elas que contribuem para a distribuição das histórias para o
mundo todo e controlam sua produção. Com a contratação dos desenhistas e o controle de
distribuição, as agências permitem que a comercialização de tiras seja realizada por um preço
mais baixo, o que impossibilita a sobrevivência de outros quadrinistas que não se englobam
no esquema.
O quadrinista Henfil1 teve seu contrato cancelado no exterior por apresentar em
suas histórias um humor feroz que, consequentemente, não agradou ao público. Para
conseguir o contrato novamente, Henfil participou de um concurso muito disputado, porém
não garantiu a continuidade de suas histórias. O fato é que esse mercado de revistas em
quadrinhos pressiona fortemente muitos artistas.
Segundo Mauricio de Sousa, em entrevista para a revista Vozes, os cartunistas
brasileiros encontram muitas dificuldades:
O material americano foi até hoje o responsável pelo não aparecimento de
desenhistas nacionais. Digo desenhistas nós tivemos vários, mas hoje estão-se
1 Henrique de Sousa Filho, conhecido como Henfil, (1944 - 1988) foi um cartunista, quadrinista,
jornalista e escritor brasileiro.
dedicando à publicidade ou foram para os Estados Unidos. É a velha lei da oferta e
da procura. A estória estrangeira, não só americana, mas também a inglesa e
algumas francesas, chega aqui a preço de banana. A tira de jornal está custando
apenas um dólar. Ora, enquanto isso qualquer desenhista profissionalmente bom vai
sentar à prancheta e desenhar uma tira que custa em homem-hora duas ou três vezes
mais. Fatalmente ele vai vender para um só jornal porque não temos distribuidoras
nem sindicatos nos moldes dos sindicatos americanos. A única tentativa no Brasil é
a nossa redistribuidora aqui na Mauricio de Sousa Produções.
A venda de história em quadrinhos, para um jovem que começa, é difícil.
Infelizmente, até eu estou concorrendo com os desenhistas brasileiros que estão
surgindo por aí. Preciso vender minhas histórias pelo preço das histórias americanas,
senão não coloco a produção do estúdio...
Quando houver mais equipes e mais condições provavelmente vai haver mais
desenhistas de histórias em quadrinhos no Brasil e alguns excelentes estão no forno
para sair (MAURICIO DE SOUSA apud HIGUCHI, 2002, p. 127-128).
Segundo José Alberto Lovetro, cartunista conhecido como JAL, o registro da
primeira história em quadrinhos no Brasil aconteceu em 1869 com Ângelo Agustini e a
criação do personagem Nhô Quim.
A preocupação com o nacionalismo presente nas obras românticas do século
passado, e mais acentuada nos escritores modernistas, manifestará na produção das histórias
em quadrinhos. Ziraldo, com Pererê e sua Turma, procura fazer uma obra com temática de
nosso país para que o público, que só conhecia revistas americanas, visualizasse o que o
Brasil tinha a oferecer. Para Moacy Cirne, em seu livro A linguagem dos quadrinhos de 1971,
afirma que Pererê está no campo dos quadrinhos mais marcantes dessa fase de 1960 a 1964,
podendo ser um produto artístico ou ideológico. Cirne reproduz um comentário do próprio
Ziraldo de 1969 sobre os concorrentes estrangeiros:
A revista daria mais trabalho do que suas concorrentes estrangeiras (Luluzinha,
Bolinha, etc.) que já vinham dos Estados Unidos com os filmes de cor já prontos, só
faltando tradução e as letrinhas de João Barbosa. O Pererê iria exigir um volume de
produção bem maior, muito mais trabalho, muito mais gente, arte-finalistas,
fotógrafos, selecionadores de cor, gravadores, etc. Mas os anos sessenta começavam
no Brasil com uma grande euforia nacional, todo mundo entusiasmado com a ideia
de fazer deste país uma grande nação, com cultura própria, pensamento próprio.
Essa idéia era animadora e contagiante e de certa forma atingia a todos. A verdade é
que, apesar de todas as dificuldades, todo mundo entrou com o maior ânimo da
história. Inclusive Carlos Estevão e Péricles também foram convidados para criar
suas revistas bem brasileiras, uma grande iniciativa da Empresa O Cruzeiro, no
sentido de valorizar nossas coisas (ZIRALDO apud CIRNE, 1971, p. 31-32).
No Brasil, as histórias em quadrinhos alcançam um público variado, desde
crianças até adultos, mostrando uma grande variedade de assuntos. Segundo Lovetro:
O Brasil desenvolveu seu mercado de quadrinhos mais voltado ao público infantojuvenil.
Histórias de humor e de super-heróis dominaram as bancas até pouco tempo.
O desenvolvimento de um mercado de publicações adultas, com textos mais densos
e de valor plástico em nível de outras artes como a pintura, deu-se há pouco mais de
uma década (LOVETRO, 1995, p. 96).
Como resultado, ocorreu uma melhora no nível de leitores e produtores de
histórias em quadrinhos no país. Atualmente, os artistas nacionais são comparados aos
estrangeiros, competindo de igual para igual artisticamente. Existem várias editoras neste
setor e as tiragens são bem maiores que as de muitos livros, sendo que seu potencial de
público é tão grande quanto ao do cinema.
As histórias em quadrinhos necessitam de textos para complementação, além
das imagens. Segundo Iannone e Iannone (1998), essa linguagem própria para os quadrinhos
aparece em três situações: nos diálogos, pensamentos dos personagens, nas legendas que
expressam o discurso do narrador ou elemento exterior e nas onomatopéias, isto é, vocábulos
que traduzem sons (click, smack, sniff, chuáá).
Podemos caracterizar esses balões dentro das histórias em quadrinhos onde há
textos ou imagens em relação ao diálogo mantido pelos personagens e sonhos.
Tradicionalmente, o balão usado aparece em formato arredondado e um rabicho em sua parte
inferior que aponta para o personagem que expressa o texto contido nele, o que facilita a
leitura e favorece a compreensão do conteúdo. Os balões apresentam um recurso a mais para
o artista que irá transmitir sua mensagem.
O formato mais comum é o da fala (Fig. a), que apresenta todo o contorno em
linha contínua. O balão do pensamento (Fig. b) tem o rabicho em forma de pequenas bolhas e
o seu contorno é ondulado. O balão de grito (Fig. c) tem o contorno bastante tremido e
irregular, esse formato é utilizado para emitir ruídos fortes, sons de aparelhos telefônicos,
espanto, horror e irritação. O balão da onomatopéia (Fig. d) indica um conjunto do som, junto
com a imagem.
Contudo, as formas pelas quais o artista optará serão variadas, pois dependerá
de sua criatividade e o que ele quer expressar. Frequentemente, os cartunistas usam letras de
forma maiúsculas, desenhadas à mão, seja no diálogo ou nos pensamentos. Na maior parte das
vezes, ele só modifica as letras quando deseja traduzir expressões ou alguma coisa que foge
da normalidade. Ao mudar o tamanho da letra para maior, demonstrará uma entonação de voz
alta que poderá ser de firmeza, determinação ou vigor. Ao mudar para a letra menor, a
entonação de voz será novamente modificada para um tom mais baixo que poderá indicar
timidez ou receio. A seguir, apresentamos alguns exemplos:
Figura a: Balão Tradicional
Fonte: Disponível em: Acesso em 20 set. 2009.
Figura b: Balão Pensamento
Fonte: Disponível em: Acesso em 20 set. 2009.
Figura c: Balão Grito
Fonte: Disponível em: Acesso em 20 set. 2009.
Figura d: Onomatopéia
Fonte: Disponível em: Acesso em 20 set. 2009.
Como vimos, o formato dos quadrinhos tem uma grande importância para a
composição da fala do personagem. Sem as características específicas de cada balão não seria
possível entendermos a mensagem transmitida em cada fala.
2.1 O mangá
O mangá é uma nova forma de história em quadrinhos que está para a
sociedade japonesa, assim como os comics estão para os americanos e o gibi está para os
brasileiros. A palavra mangá é constituída de uma união de dois ideogramas japoneses “man”
(irrisório) e “gá” (imagens). Esse termo foi utilizado pelo desenhista Katsushita Hokusai em
1914 para apresentar e definir os cartoons, caricaturas e histórias em quadrinhos.
Considerado o “deus” do mangá, Osamu Tezuka revolucionou as histórias em
quadrinhos japonesas, criando novas formas de narrativa, contemplando ângulos, ritmos
cinematográficos e uma característica importantíssima dos personagens, os grandes olhos
arregalados. Outra característica do mangá que diferencia das histórias em quadrinhos
brasileiras, são que os personagens possuem cabelos pontudos, boca e nariz pequenos, porém,
quando choram, a boca aumenta consideravelmente e as lágrimas são em forma de cachoeira,
acentuando ainda mais a expressão. Segundo Açunciara Aizawa Silva, professora de mangá
da história de desenho Ateliê de São Paulo, os desenhos japoneses são classificados por faixa
etária e gênero contemplando vários nomes específicos.
Os principais são o Shonen Mangá, que é o mangá para meninos, e o Shojo Mangá,
que é o mangá para as meninas. A diferença é que o Shonen tem mais ação e o
Shojo tem mais romance. Como exemplo de mangá para meninos, cito Pokémon,
Dragon Ball, Yo Yo Hakusho e para meninas, Sailor Moon. Mas no Brasil, essa
divisão não existe muito, quem gosta de mangá acaba lendo tudo mesmo (SILVA
apud VIEIRA, 2008).
De acordo com Cristiano Seixas, diretor do estúdio de criação e da escola Casa
dos Quadrinhos de São Paulo, a década de 80 teve uma importância bastante significativa,
pois foi nessa época que os primeiros mangás mais representativos chegaram ao país. "Lobo
Solitário, que conta a história de um samurai que vaga com seu pequeno filho depois de brigar
com seu chefe é um clássico e foi um dos primeiros, junto com Akira, a serem publicados no
país". O mangá se difundiu para o mundo todo a partir da década de 90, com a ajuda dos
animes, que são os desenhos animados da televisão japonesa.
Cavaleiros do Zodíaco foi a produção que abriu as portas definitivamente para
a entrada de outros quadrinhos japoneses. Esse desenho até hoje faz sucesso e é lembrado por
todos. Exibido há cerca de dez anos nas televisões brasileiras, ele exerce de alguma forma o
crescimento dessa busca pelo mangá, que teve maior reconhecimento há cinco anos com a
chegada de vários outros títulos no país.
A linguagem, os personagens e a narrativa própria do mangá, conquistaram
cada vez mais adeptos no Ocidente. Rogério de Campos, sócio-proprietério e diretor editorial
da Conrad, editora que publica nove títulos de mangá, entre eles, Pokémon, Cavaleiros do
Zodíaco e Dragon Ball, afirma que metade das pessoas que não acompanham regularmente
esses desenhos japoneses tem uma visão preconceituosa sobre esse tipo de produção. Ele diz
que “Existe um clichê de que os mangás são violentos, o que não é verdade. Ao contrário dos
quadrinhos ocidentais, que se baseiam em lutas, tiros e explosões, os japoneses, mesmo os de
ação, podem ter vários episódios sem uma luta sequer".
2.2 Maurício de Soua e suas criações
Mauricio de Sousa é um dos mais conhecidos cartunistas brasileiros e o criador
das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica e de outras dez turmas, incluindo a Turma
do Chico Bento, Turma do Bibu, Turma do Horácio, Turma do Penadinho, Turma da Tina,
Turma do Papa-Capim, Turma da Mata, Turma do Piteco e Turma do Astronauta. Hoje, aos
71 anos de idade, é considerado o maior cartunista brasileiro e seus personagens e quadrinhos
têm fama internacional, tendo sido adaptados para o cinema, para a televisão e para vídeogame,
além de terem sido licenciados para comércio em uma série de produtos com a marca
dos personagens. Casado atualmente com Alice Keiko, tem dez filhos, onze netos e um
bisneto. Muitos de seus personagens foram inspirados em seus filhos, os mais famosos são
Mônica e Magali, que possuem os mesmos nomes das filhas do cartunista.
Mauricio de Sousa nasceu em 1935, na cidade de Santa Isabel, interior do
estado de São Paulo. Filho de Antonio Mauricio de Sousa, poeta e barbeiro, e Petronilha
Araújo de Sousa, poetisa. Quando ainda tinha poucos meses, seus pais foram morar em Mogi
da Cruzes onde estudou e começou a desenhar cartazes e ilustrações para rádios e jornais. Em
São Paulo, foi trabalhar no jornal Folha da Manhã como repórter policial e também fazendo
algumas ilustrações. Começou a desenhar histórias em quadrinhos em julho de 1959 quando o
jornal aprovou seu primeiro personagem, o cãozinho Bidu e seu dono Franjinha, que deram
origem aos primeiros personagens conhecidos da era Mônica. Nos anos seguintes, Mauricio
criou outras tiras de jornal – Cebolinha, Piteco, Chico Bento, Penadinho – e páginas tipo
tablóide para publicação semanal – Horácio, Raposão, Astronauta – que invadiram dezenas de
publicações durante 10 anos. Bidu é o símbolo da empresa de Mauricio, a Mauricio de Sousa
produções. Em 1963 Mauricio de Sousa cria, juntamente com Lenita Miranda de Figueiredo,
a Folhinha de São Paulo página direcionada especialmente ao público infantil. No mesmo
ano, Mauricio cria também o personagem Mônica inspirada em sua segunda filha. Mas foi em
1970 que a primeira revista Mônica foi lançada com tiragem de duzentos mil exemplares, dois
anos depois foi lançada a revista Cebolinha e nos anos seguintes Chico Bento, Magali,
Pelezinho e outras. Nos anos 80, foram lançados filmes e desenhos da Turma da Mônica, que
compreendem os personagens Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão. Em 1993, foi construído
em São Paulo o Parque da Mônica, um parque de diversão com os personagens da Turma da
Mônica.
Os quadrinhos de Mauricio de Sousa têm fama internacional e foram adaptados
para o cinema, para a televisão como desenhos animados e para videogames. Além disso,
possuem uma série de produtos com a marca dos personagens que são licenciados para o
comércio. A Turma da Mônica também possui histórias em quadrinhos e outros produtos
licenciados em vários países. Nos Estados Unidos – Monica’s Gang – na Itália – La Banda di
Monica – na Indonésia - Monika dan kawan kawan – na Espanha – Mónica y su pandilla.
Atualmente, seus personagens continuam a fazer muito sucesso. Mais adiante, trataremos com
mais detalhes os que consideramos importantes. No dia 18 de julho de 2009, comemorou
cinquenta anos de carreira, fazendo uma exposição em São Paulo em que lançou várias
edições comemorativas, livros de contos e religiosos. Apesar das novas publicações, a Turma
da Mônica continua sendo, mesmo com o passar dos anos, o maior sucesso de Mauricio de
Sousa.
A Turma da Mônica corresponde a um grupo de personagens de histórias em
quadrinhos que vivenciam situações cotidianas de crianças de sete anos de idade. As histórias
se passam na cidade de São Paulo, no bairro do Limoeiro, uma possível referência ao bairro
do Limão na Zona Norte da cidade. Porém, para criar o bairro do Limoeiro, Mauricio de
Sousa disse que se inspirou em um bairro da cidade de Campinas chamado Cambuí, como
este era na década de setenta. O Limoeiro é um local com muitas árvores, um campinho onde
os meninos brincam, um lixão que era muito visitado pelo Cascão, e quase não havia ruas
asfaltadas. Iremos, agora, descrever os personagens e suas principais características.
Personagem criado em 1963 e baseado em uma filha homônima de Mauricio de
Sousa, Mônica é uma menina de sete anos que se autodenomina dona da rua onde mora. Tem
personalidade forte, é muito decidida, mas, ao mesmo tempo, carinhosa e apegada ao seu
coelho de pelúcia, Sansão, usando-o, às vezes, como arma. Está sempre usando um vestido
vermelho e sua melhor amiga é sua vizinha Magali. Com grande espírito de liderança, é dona
de uma força física um pouco exagerada para sua idade. Odeia que façam comentários sobre
sua altura e seus dentes, chamando-a de baixinha ou dentuça, quando isso ocorre Mônica usa
seu coelho, Sansão, para atacar seus amigos. Seu principal provocador é o Cebolinha, vizinho
e integrante da Turma. Sua revista própria foi lançada em 1970, e é uma das revistas de
histórias em quadrinhos que mais vendem no Brasil, segundo Mauricio de Sousa. Ela é o
personagem mais conhecido do cartunista e a sua característica marcante é seu nervosismo e o
hábito de usar Sansão para revidar as provocações de Cebolinha.
Cebolinha é um personagem inspirado em um garoto de Mogi das Cruzes
conhecido como Cebola que trocava a letra “r” pelo “l”. Criado em 1960, é um garoto que faz
travessuras e tem o pensamento fixo de obter o lugar de Mônica, como dono da rua. Possui
apenas cinco fios de cabelo espetados, o que caracteriza ainda mais seu nome. Inteligente e
malandro adora fazer brincadeiras maldosas com os amigos tendo como principal alvo a
Mônica. Cascão é o seu parceiro de aventuras, e articula em vão o que Cebolinha chama de
“planos infalíveis” para conseguir o lugar de líder da Turma, ou para descobrir de onde vem a
força física da Mônica, mas sempre acaba levando coelhadas da furiosa garota. Possui um
problema de dilaslia, em que troca a letra “r” pela letra “l” e, esta é sua característica
marcante. Teve sua própria revista lançada em 1973.
Cascão é o melhor amigo de Cebolinha. O personagem nasceu em 1961,
baseado nas observações que Mauricio fazia de um menino da cidade de Mogi das Cruzes,
que andava sempre sujo e detestava banho. Foi então que surgiu o Cascão que tem pânico a
água e dá a entender que nunca tomou banho. Originalmente, o personagem era de um menino
que vivia em um deposito de lixo, mas foi mudando para um garoto que recicla objetos velhos
para fazer brinquedos. Mauricio afirma que “no início teve receio da reação do público para
com este personagem com uma certa mania de sujeira”, porém a aceitação foi imediata e sua
popularidade cresceu tanto que, desde 1982, tem sua própria revista. Possui uma
personalidade alegre, e como melhor amigo de Cebolinha sempre o acompanha em seus
projetos engenhosos contra a Mônica. Sua característica marcante é o pânico que tem de água.
Criada em 1963, o personagem Magali também é baseado em uma das filhas de
Mauricio de Sousa. Além do mesmo nome, tem em comum o mesmo jeito de ser e um
enorme apetite. É um dos personagens mais simpáticos da Turma, é uma menina doce, meiga,
mas com uma imensa fome. Gosta de comer muito e devora toda comida que vê, inclusive a
comida dos amigos, tornando-se, às vezes, muito egoísta. Sua fruta favorita é melancia,
detalhe em comum com a filha de Mauricio que, quando pequena, comia uma melancia
inteira. O personagem, portanto, segue alguns de seus hábitos alimentares. Outro fator em
comum é que a Magali, filha de Mauricio, possuía um gato siamês e o personagem Magali
também possui um gato, porém da raça angorá, chamado Mingau. Magali teve sua primeira
revista lançada em 1989. Ela é o único personagem que não briga com a Mônica, e sua
característica marcante é o apetite exagerado.
Outro grupo de personagens que é muito conhecido e apreciado pelo público
brasileiro é a Turma do Chico Bento. As histórias acontecem em uma cidade do interior de
São Paulo, tipicamente caipira, com nome fictício de Vila Abobrinha, onde grande parte da
cidade é composta por fazendas. Além das fazendas, a pequena Vila contém a escola da
professora Maroca, a igreja do Padre Lino e alguns armazens. Originalmente, os principais
personagens eram o Zé da Roça e o Hiro (na época Zézinho e Hiroshi). Chico Bento era
apenas um coadjuvante que apareceu nas tiras em 1963. A primeira revista foi lançada em
1962 com o título “A Turma da Roça”.
Chico Bento é um dos personagens mais queridos e conhecidos de Mauricio
de Sousa. Representante do povo interiorano do Brasil é um menino caipira de
aproximadamente sete anos de idade que anda sempre descalço, com roupas simples e chapéu
de palha. Acorda antes do sol nascer e vai ajudar seu pai a trabalhar na roça. É um pouco
preguiçoso e muito mentiroso, apesar de suas travessuras, é um menino bondoso que ama a
natureza e os animais. Não se cansa de roubar as goiabas de seu vizinho Nhô Lau e sempre
vai atrás de novas aventuras. Vai à escola, mas não gosta de estudar, tem se destacado apenas
nas redações. Sua fala é apresentada com erros de ortografia retratando o dialeto caipira. Foi
inspirado em um tio-avô de Mauricio de Sousa sobre quem ouvia muitas histórias contadas
por sua avó.
A Turma do Chico Bento é composta por muitos personagens, citaremos
apenas os mais importantes. Rosinha é a namorada do Chico, e diferentemente dele, não anda
descalça, e sim, muito bem arrumada com seus vestidos de quermesse. Zeca é o primo da
cidade que sempre está de visita na roça onde o personagem do Chico Bento vive. Zé Lélé é
outro primo do Chico Bento, e um componente importante para o humor das histórias com
sua grande ingenuidade. Zé da Roça era o personagem principal nas primeiras tiras. Hoje, é
amigo de todos na roça e possui um português mais parecido com a fala da capital, São Paulo.
Hiro, ou Hiroshi é um nissei (descendente de japoneses) e mantém as tradições orientais de
seus ancestrais. Também possui uma fala sem sotaque caipira. Como uma fazenda tradicional,
Chico possui muitos animais e alguns são de estimação, como a galinha Giselda, a vaca
chamada Malhada e o porco Torresmo.
2.3 Turma da Mônica jovem
Em agosto de 2008, Mauricio de Sousa lançou na Bienal do Livro de São Paulo
uma nova revista, a Turma da Mônica Jovem, uma evolução dos personagens que agora são
adolescentes. A nova revista se apresenta em formato semelhante ao dos mangás originários
do Japão. Segundo Mauricio de Sousa, o sucesso da publicação foi muito grande, com mais
de quatrocentos e dez mil exemplares vendidos contra duzentos mil que costuma vender a
revista da Mônica ainda criança. Em entrevista a revista Veja, Mauricio de Sousa fala que “a
mudança do personagem foi uma forma de se adaptar às transformações de uma sociedade em
que a infância é cada vez mais curta”. (VEJA, fev. de 2009)
O primeiro exemplar da revista obteve um sucesso de vendas inesperado,
esgotando cinquenta e sete por cento da tiragem inicial de oitenta mil exemplares apenas na
primeira semana de lançamento. Segundo a editora multinacional italiana Panini Comics, que
desde janeiro de 2007 possui os direitos de publicações da Turma da Mônica, foi necessário
aumentar a tiragem para duzentos e trinta mil exemplares devido ao sucesso inicial de vendas.
As edições posteriores tiveram uma tiragem, em média, trezentos e setenta e cinco mil
exemplares, e as quatro primeiras edições venderam juntos mais de um milhão e meio de
exemplares. Em caráter de comparação, o jornal O Estado de São Paulo tem uma tiragem de
duzentos e sessenta mil, O Globo alcança trezentos e sete mil. A nova fase da Turma da
Mônica tem sido o maior sucesso da história em se tratando de quadrinhos no Brasil, é o que
afirma a editora das revistas de Mauricio de Sousa.
Mauricio de Sousa afirma em entrevista a revista Veja que “as crianças
passaram a considerar a Turma da Mônica coisa de criança e então começaram a comprar
Mangás japoneses”. Pensando em uma maneira de não perder esses leitores, resolveu oferecer
a eles um pouco do universo jovem. Os personagens são os mesmos, porém as histórias
mudaram. Além de passarem para a fase da adolescência, os personagens estão inseridos em
histórias mais focadas em relacionamentos, protagonizam cenas de ciúme, sentem atração
pelo outro sexo, ficam inseguros em meio ao grupo e lutam com forças sobrenaturais,
característica proveniente do estilo mangá. Possuindo cento e vinte páginas, o formato é um
pouco maior que os gibis tradicionais, a história nem sempre termina ao final da mesma
revista, e mantém o preto e branco dos mangás. Iremos abordar, agora, os personagens e suas
novas características.
O personagem Mônica cresceu e agora é uma adolescente. Mesmo assim, ainda
tem seu coelho de pelúcia Sansão e ainda o usa quando é necessário. Continua uma garota
meiga e alegre, mostrando-se madura e segura. Magali ainda é sua melhor amiga. Desde que
era criança, Mônica é a líder do grupo, e isso continua, mas com uma pequena diferença: ela
tem tido um grande amor por seu amigo Cebola e não consegue esconder esse sentimento.
Mônica continua dentuça e quanto ao seu peso, desde que tinha 12 anos, ela faz regime.
Cebolinha agora prefere ser chamado simplesmente de Cebola e continua um
garoto esperto e muito inteligente. O cabelo cresceu, mas mantém a velha forma. Não faz
mais "planos infalíveis" para derrotar a Mônica e se tornar o dono da rua, ele quer conquistar
o mundo com os seus projetos para um planeta melhor. Não troca mais os “r” pelo “l”, desde
quando passou a fazer um tratamento com uma fonoaudióloga, mas quando fica nervoso
acaba trocando as letras, isso acontece normalmente durante os jogos de video game e na
frente de meninas, principalmente de Mônica. Escondia o seu amor pela Mônica na infância,
mas em Turma da Mônica Jovem não consegue mais esconder esse sentimento.
Cascão é um garoto com um estilo bem peculiar e muito difundido entre a
juventude chamado skatista, no qual seus adeptos adotam um estilo de vestimenta, maneiras
de falar, além de praticarem o esporte na prancha com rodinhas. Agora ele toma banho; não
gosta disso, mas toma por causa de Maria Cascuda, por quem é apaixonado. Adora praticar
esportes, sendo um de seus favoritos o parkour2, também é a estrela do time de futebol do
Colégio do Limoeiro. Cascão ainda tem seu quarto bagunçado, para desespero de sua mãe, e é
fã de quadrinhos e ficção científica.
Magali ainda é comilona, mas de uma maneira saudável. Preocupa-se com sua
alimentação e pratica esportes, ela joga softbol3 na escola e tem uma queda pelo professor
Rubens, de Ciências. Continua sendo a melhor amiga de Mônica. É meiga, carinhosa e adora
2 Parkour, em português, arte do deslocamento. É uma atividade cujo princípio é mover-se de um
ponto a outro o mais rápida e eficientemente possível, usando principalmente as habilidades do corpo
humano. Criado para ajudar a superar obstáculos de qualquer natureza no ambiente circundante —
desde galhos e pedras até grades e paredes de concreto — e pode ser praticado em áreas rurais e
urbanas.
3 O softbol foi inventado por George Hancock em 1887 nos EUA. Foi criado como uma variação mais
leve do baseball (soft é “leve” em inglês), por isso tornou-se uma modalidade mais popular entre as
mulheres.
gatos, para desespero de seus pais, pois a família de felinos cresceu após a adoção de Aveia,
uma gatinha.
3 A relação da criança e do adolescente com as histórias em quadrinhos: algumas
reflexões
Nesta parte, abordaremos rapidamente a relação da criança e do adolescente
com a linguagem e com as histórias em quadrinhos. Refletiremos, primeiramente, sobre
algumas teorias de aquisição da linguagem e, em seguida, o uso da linguagem pelos
adolescentes, não apenas como forma de expressão, mas como um meio de manter a
identidade e consciência grupal. Posteriormente, abordaremos como isso é marcado nas
histórias em quadrinhos e a sua relação de influência e identificação estabelecida com a
criança e com o adolescente.
Segundo a psicologia, existe um período sensível para a linguagem,
aproximadamente entre os dois anos de idade e a puberdade. Alguns estudiosos do assunto
dizem que esse período consiste no tempo em que a experiência linguística tem um impacto
particular e significativo no nível linguístico. É nesse período que o cérebro está amadurecido
e flexível, pronto para adquirir a linguagem.
Já o estudioso Noan Chomsky, em seus estudos de aquisição da linguagem, diz
que cada pessoa nasce com um equipamento mental que lhe possibilita descobrir as regras
para absorver sentenças aceitáveis. Segundo Chomsky, as crianças são pequenos cientistas
que testam suas hipóteses quando expostos a determinada linguagem, descartando antigas e
adotando novas quando necessário. Essa teoria é chamada de Inatismo:
Chomsky (1965) propõe que a criança tem um dispositivo de aquisição de
linguagem (DAL) inato que é ativado e trabalha a partir de sentenças e gera como
resultado a gramática da língua à qual a criança está exposta (SANTOS, 2004, p.
220).
Outro grande estudioso da linguagem e do pensamento infantil, Jean Piaget,
vincula a linguagem relacionada à cognição, dando grande valor à experiência. Ele afirma que
a criança vai construindo seu conhecimento com base nas experiências do mundo físico, da
interação entre o mundo e a criança. Sua teoria é chamada de Cognitivismo e contempla
alguns estágios de desenvolvimento cognitivo: sensório-motor (zero a dois anos), préoperatório
(dois a sete anos), operações concretas (sete a doze anos) e operações formais.
Para Piaget, a criança possui um discurso egocêntrico, ou seja, a criança fala consigo mesma,
uma fala não socializada. Nesse sentido, podemos citar:
Não há intenção de se comunicar, não há preocupação com o interlocutor (nem se há
interlocutor), ela não tem nenhuma função social. Segundo Piaget, a maior parte dos
discursos de crianças em idade pré-escolar é egocêntrico. Por volta dos sete anos
esse discurso tende a diminuir, até desaparecer, enquanto o discurso socializado
ganha espaço (SANTOS, 2004, p. 223).
A socialização do indivíduo através da linguagem é um importante processo
para analisarmos nas questões dessa pesquisa. Essa interação é que possibilita a averiguação
dos processos de pensamento e expressão que a criança faz a partir do momento que começa a
se socializar e a se sentir inserida do meio em que vive. Ao abordarmos a questão da
linguagem do adolescente, veremos que a socialização também constitui um fator relevante e
é evidenciado através da linguagem, como forma de inserção em um grupo.
A partir dessas afirmações, não podemos deixar de citar o estudioso Lev S.
Vygotsky que, assim como Piaget, estava interessado na relação entre língua e pensamento
com uma maior atenção na função social da fala. Vygotsky afirma que “no processo de
desenvolvimento cultural da criança toda função aparece primeiro no nível social e mais tarde
no nível cultural” (SOUSA et al, 2000, p. 26). Sua teoria é chamada de Interacionismo e
também dá importância ao interlocutor no processo de aquisição da linguagem, apontando
para o papel do adulto como quem cria uma intenção comunicativa, como o facilitador desse
processo de aquisição. Outro aspecto importante é que para Vygotsky a fala egocêntrica tende
a ser interiorizada como o passar do tempo, diferentemente da afirmação de Piaget, de que a
fala interiorizada não tem função no pensamento e desaparece quando a criança se socializa.
Segundo a estudiosa Raquel Santos:
Para Vygotsky, a fala egocêntrica é um instrumento de que a criança faz uso para
buscar e planejar a solução de um problema, e tende a ser interiorizada.(...) A fala
egocêntrica também fuciona como auxiliar externo para que a criança solucione
tarefas, serve para ajudar a criança a superar dificuldades.(...) à medida que a criança
cresce, esse discurso (fala) tende a internalizar-se (SANTOS, 2004, p. 224).
As teorias de aquisição da linguagem citadas acima abrangem diferentes
aspectos e características em seus processos, mas, de alguma maneira, todos comprovam que
o cérebro da criança trabalha focado em adquirir novos conhecimentos linguísticos desde que
ela nasce, e que esses conhecimentos são um reflexo do meio em que se desenvolve. Existe
uma importância do meio para a aquisição da linguagem, da aprendizagem através das
relações sociais, pois esta contribui para a construção do conhecimento e pela conquista do
mundo a sua volta.
Ao analisar alguns fatores que levam a criança a interagir com o mundo
externo, percebemos que a leitura constitui um processo produtivo e necessário para o
conhecimento de mundo e para contribuição no aprendizado. Segundo a estudiosa Valéria
Aparecida Bari, as histórias em quadrinhos constituem uma forma importante na formação de
leitores:
Na verdade, os quadrinhos se tornaram quase sempre o primeiro contato de várias
gerações de crianças com o aprendizado da leitura e da escrita e de entretenimento,
além de um objeto de grande valor afetivo, sempre ligado à infância.(...) A Leitura
de histórias em quadrinhos forma leitores que gostam de todo tipo de leitura, com a
vantagem de criar também a cultura de leitura infantil e comunidades leitoras de
grande abrangência (BARI apud JUNIOR, 2008).
A estudiosa também afirma que as histórias em quadrinhos auxiliam muito na
memorização, habitua as crianças à leitura e estimulam a reprodução e produção própria de
suas histórias. Nesse sentido, também sabemos que as histórias em quadrinhos estimulam a
imaginação, como afirma o cartunista José Alberto Lovetro:
Outro fator importante que acontece com os quadrinhos, é a possibilidade de
podermos imaginar as vozes dos personagens. É diferente de um livro, por exemplo,
que não nos oferece esse tipo de apelo visual. Quando lemos e vemos o personagem
daquela fala a tendência é interpretá-lo com maior dramaticidade e convicção
(LOVETRO, 1995, p. 94).
Lovetro também afirma que o impacto visual é o que impulsiona a vontade de
ler, pois existe uma identificação com o personagem e, consequentemente, à vontade de ler
suas histórias. Essa formação de texto e imagem, acrescidos do teor cômico, característico das
histórias em quadrinhos, acaba atraindo o leitor e motivando a leitura, não só de crianças, mas
também de adultos e adolescentes. Lovetro diz que o “encanto do desenho” atrai alunos de
diversas idades em várias cidades do país, independente do sexo ou idade. Nesse ponto
também queremos abordar os aspectos que envolvem a linguagem na fase da adolescência.
A fase da adolescência é o próximo ponto crucial para entendermos a
socialização do indivíduo. Essa fase compreende desde a transição da criança para a
puberdade, período que se inicia aproximadamente aos dez anos, até os dezenove anos,
período em que o indivíduo é considerado pronto para entrar no mundo adulto. É uma fase
complexa em que as mudanças trazem sentimentos oscilantes, como da intensa depressão à
mais profunda felicidade, da total segurança à indecisão, e tudo isso reflete na linguagem.
Segundo Bulhões:
[...] é importante analisar a influência que os vocábulos usados por seus
representantes exercem nas várias camadas da sociedade, pois eles passam a fazer
parte do linguajar cotidiano e interferem na comunicação.
A linguagem de uma faixa etária tão expressiva como a dos adolescentes oferece
material bastante rico para os estudantes linguísticos. Daí a importância de focalizar
os neologismos presentes no léxico desse grupo, que se associa a aspectos
semânticos, discursivos, gramaticais e estilísticos da língua portuguesa (BULHÕES,
2007, p. 53).
Para refletirmos sobre a linguagem usada pelos adolescentes, é necessário que
consideremos os aspectos físicos, sociais e psicológicos para um melhor esclarecimento dos
fatores que influenciam a essência da comunicação dessa faixa etária. Primeiramente, nos
fatores biológicos e fisiológicos, temos a puberdade que é um período transitório de muitas
mudanças, e levam a criança a adquirir características de um adulto. Muitos estudiosos
acreditam que as mudanças psicológicas é que ativam as mudanças fisiológicas, como afirma
Tânia Zacury em seu livro Encurtando a adolescência:
A televisão parece ser outro fator determinante. Nossos filhos assistem hoje, desde
muito pequenos a programas e filmes, dirigidos a adultos, com temática complexa.
A exposição continuada a este tipo de programação faz com que as crianças adotem,
muito cedo, posturas, comportamentos gestos, formas de vestir, andar e agir – e até
pensar – de adultos (ZACURY, 1999, p. 20).
A puberdade precoce é um assunto atual que envolve muitos fatores. Nesta
pesquisa é apenas citado como referência a comportamentos apresentados pelos adolescentes
que acabam ativando muitas mudanças, tanto no físico como na linguagem. Na verdade, o
fator psicológico está extremamente relacionado ao social, pois o adolescente, mediante o
desafio do mundo adulto, necessita ser aceito, adotando certos hábitos para que, de algum
modo, se diferencie dos outros. Ao adotar uma linguagem peculiar, o indivíduo encontra uma
forma de explicitar-se de uma maneira única e que apenas os falantes de determinada variável
poderiam interagir de forma clara.
A gíria, portanto, se torna um tipo de senha, na qual o falante deve manejar
para conseguir acesso a certos grupos. Atualmente, a gíria é uma variável muito conhecida e
valorizada, usada pela maioria dos falantes adolescentes. É uma linguagem jovial que, ao ser
usada, coloca o falante em um nível de indivíduo atualizado, que está consciente das
inovações sociais vividas no cotidiano. Por outro lado, também é rejeitada em certos
ambientes, em que seu uso acaba prejudicando o falante por ser uma linguagem informal,
como por exemplo, no trabalho, ao falar em público ou, até mesmo, mediante pessoas que não
fazem uso dessa variante.
A gíria, segundo a estudiosa Simone Bulhões, além de manter a identidade e
consciência de grupo, tem o objetivo de auto-afirmação, que leva o adolescente a buscar
meios para impor sua expressão linguística.
4 Análise
Neste item, analisamos em primeiro momento a linguagem inserida em dois
contextos diferentes. No primeiro caso, usaremos como corpus a Turma da Mônica que vive
na cidade, são crianças com sete anos de idade. Em seguida, o corpus analisado será a
linguagem do Chico Bento, uma criança na mesma idade das demais, porém, que vive na
roça, ou seja, em um contexto social diferente do restante da Turma. Por último, analisaremos
a linguagem da Turma da Mônica Jovem, um grupo de adolescentes com idade média de
quinze anos e que vive na cidade.
Pretendemos com essa análise, identificar as variações linguísticas presentes
em diferentes faixas etárias e em diferentes regiões e/ou contextos sociais. Outro ponto
importante de nossa análise será demonstrar como acontece o preconceito linguístico em
torno do usuário de variantes linguísticas menos prestigiadas. Segue abaixo o primeiro
exemplo que iremos abordar.
4.1 A linguagem infantil
Nos quadrinhos que seguem, podemos observar a estrutura da linguagem
específica da criança. Em um primeiro momento, podemos identificar a inocência das
crianças quando conversam com o Ano Novo. Na imaginação da Turma, ele deixa de ser
apenas uma situação e se materializa conversando com eles, ou seja, está próximo a elas em
um mesmo contexto. Para a organização de nossa análise, apresentaremos a história em
quadrinhos de forma fragmentada, entremeada por nossos comentários, mas fazem parte de
uma mesma história.
Figura 1 – Diálogo inicial com o Ano Novo
Fonte: Acesso em: 20 set. 2009
Durante a conversa, o Ano Novo quer saber se eles já fizeram suas promessas
para o início de um novo tempo. Nesse momento, podemos perceber como a criança é simples
em sua fala, eles contam seus planos exatamente como imaginam, sem a preocupação com a
maneira de falar. Essa falta de preocupação para com a maneira de falar é que faz com que a
fala da criança seja espontânea, ela não se preocupa com as normas impostas pela gramática
ou pela sociedade.
Figura 2 – Promessas para o Ano Novo
Fonte: Acesso em: 20 set. 2009
No próximo quadrinho, segue uma discussão entre as crianças que interferem
no que foi dito pelo outro. A criança de sete anos está num processo de exteriorização da fala,
portanto, é sincera e fala o que pensa. No diálogo abaixo, cada personagem questiona a
promessa feita pelo amigo. Percebemos também que existe uma entonação de voz que indica
uma alteração no humor, podemos verificar isso pela estrutura da linguagem do balão.
Figura 3 – Início da discussão
Fonte: Acesso em: 20 set. 2009
Esse diálogo passa de uma simples divergência para uma discussão em que há
ataques mútuos, um exemplo disso é a fala do personagem Cebolinha em relação ao
personagem Mônica: “Ah, ah! A golducha?!“. Essa fala é característica de uma criança num
momento de provocação. Após essa fala a discussão fica mais intensa e percebemos o início
de uma briga. O embate deixa de ser verbal para se tornar físico. No quadrinho abaixo,
Mônica decide revidar as provocações feitas e, como é característico de seu personagem, parte
para agressão física. Outro aspecto que observamos é a linguagem formal falada pelos
personagens. Assim, como o estudioso Chomsky afirma que a criança desenvolve a
linguagem a que está exposta, podemos presumir que esses personagens vivem em um
ambiente em que a comunicação se dá pela norma culta. Também podemos presumir que o
autor dos quadrinhos considere interessante que os personagens, sendo crianças, não possuam
uma linguagem muito contaminada, ou seja, ainda sem o uso de termos provenientes do
convívio com os diversos tipos de variação, pois o seu contexto social é apenas com crianças
da mesma faixa etária.
Figura 4 – Conclusão da história
Fonte: Acesso em: 20 set. 2009
Nessa fase da criança, identificamos também, uma forma de preconceito
linguístico no momento em que elas passam a frequentar a escola e se deparam com
professores que fazem com que as mesmas acreditem que o modo de falar aprendido em casa
ou em sua comunidade está errado e que a maneira correta é somente aquela proposta pela
gramática e pelos livros didáticos. Quando isso acontece, a criança é forçada a abandonar a
linguagem adquirida e orientada a utilizar somente a linguagem ensinada pela escola.
O ideal, nesse momento, seria que o professor auxiliasse o aluno na
aprendizagem da norma culta e mostrasse a ele a importância de saber alternar suas falas de
acordo com cada situação.
4.2 O dialeto caipira
Nas histórias do Chico Bento, podemos encontrar uma forma original de se
expressar típica do caipira do interior. Em meados dos anos 80, a forma de falar do
personagem causou grande polêmica por reproduzir o dialeto caipira ao invés da norma culta
do português. Muitos alegavam que a forma de Chico Bento se expressar ensinava as crianças
a falarem errado. Nesse sentido, faremos alusões às falas do quadrinho seguinte.
Figura 5 – Quadrinho do Chico Bento
Fonte: Acesso em: 20 set. 2009
Podemos observar nos quadrinhos, um contraste entre uma criança da cidade e
outra do interior. A primeira e principal diferença entre os dois personagens é a forma de falar
que cada um deles apresenta.
O personagem de Zeca (o primo da cidade), fala “corretamente”, ou seja, faz
“corretamente” a conjugação de verbos e pronuncia adequadamente todas as palavras
enquanto que Chico Bento reproduz formas que são típicas do caipira como: a redução do -r
no infinitivo, ele pronuncia “fazê” ao invés de fazer, “cantá” ao invés de cantar, “prová” ao
invés de provar. Outros aspectos importantes da linguagem do personagem que também
reproduzem o dialeto caipira são: a alternância da vogal e em i; da vogal o em u; do l em r,
por exemplo: “... im verso i prosa...”, “É qui hoje di minhã...”, “cumigo”, “impricô”. Além
desses aspectos, outra coisa que podemos verificar no personagem que o diferencia também
do primo da cidade é a pronúncia de expressões como: “Num é lindo?”; “nóis brigamo”.
O preconceito verificado nesse quadrinho trata-se da forma como os
personagens são apresentados. O primo da cidade além de falar bem, mesmo sendo criança, é
bem vestido, aparece usando sapatos e, na maioria das vezes, carregando objetos de última
geração como disckman, CD’s, notebooks, e outros. Já o personagem Chico Bento, aparece
sempre com uma roupinha velha, descalço e sempre carregando objetos que são típicos de sua
comunidade como enxadas, violão, vara de pesca, dentre outros.
Dessa forma, podemos constatar que quando o preconceito linguístico em torno
do dialeto caipira acontece, ele não está somente na forma de falar do indivíduo, mas passa a
ser um preconceito social contra o falante.
4.3 O uso de gírias pelos adolescentes
Com a finalidade de exemplificar e analisar o uso de gírias na linguagem dos
adolescentes utilizaremos, agora, alguns quadrinhos retirados da revista da Turma da Mônica
Jovem.
Nessa nova fase da Turma da Mônica, encontramos grandes mudanças não só
na estrutura da revista e dos quadrinhos, mas também nos novos hábitos e na linguagem dos
personagens que agora caracterizam a maneira do jovem se relacionar com a sociedade
atualmente. Ao analisar a revista, verificamos o quanto a nossa linguagem cotidiana está
repleta de gírias e neologismos, uma variação linguística que domina a linguagem da grande
maioria dos adolescentes. Nas tiras a seguir, poderemos identificar a mudança linguística
ocorrida na fala de cada personagem e poderemos perceber o quanto isso é comum na fala dos
adolescentes nos dias de hoje.
No quadrinho seguinte, analisaremos a fala do personagem principal, a
Mônica. Ela está com nova aparência e totalmente moderna, pois se tornou uma adolescente.
O mesmo ocorre com seu linguajar que mudou para se adaptar ao meio social em que ela vive
agora. Mônica e seus amigos moram na maior capital brasileira, São Paulo. Diante disso,
podemos afirmar que os personagens representam a fala de pessoas que vivem em um
ambiente onde se valoriza a tecnologia e outros avanços da modernidade. É exatamente nesse
contexto que averiguamos o aparecimento excessivo da gíria.
Figura 6 – Quadrinho Mônica adolescente
Fonte: Revista Turma da Mônica Jovem, n° 10
Na fala da Mônica temos a expressão “descupaí pessoal”, que pode ser
entendida sem nenhuma dificuldade por qualquer falante do português brasileiro. Ao
analisarmos mais profundamente o termo utilizado, podemos entender a expressão
“desculpaí” como um pedido de desculpas a alguém e verificamos, também, o neologismo
formado a partir da junção entre as palavras “desculpa” e “aí”. Em seguida, Mônica usa a
expressão “não vai rolar” que pode ser entendida como o descumprimento de algum
compromisso ou simplesmente pode ser usada para informar que alguma coisa deixará de ser
feita, ou seja, não acontecerá. Podemos afirmar que tais expressões não são estranhas ao
falante de língua portuguesa, pois a maioria das pessoas convive diariamente com expressões
como essas.
Apesar de valorizada entre os jovens, a gíria, muitas vezes, é rejeitada por
outros falantes que não a utilizam. Por se tratar de uma linguagem informal a gíria não é
aceita em certos ambientes, principalmente locais ligados a trabalho e exposição em público.
Esse fator constitui um preconceito linguístico, pois o falante passa a ser visto de maneira
diferente simplesmente porque ele fala de uma forma diferente a dos demais. Assim como a
linguagem do caipira, a gíria é outro exemplo de variação linguística que sofre muito
preconceito por ser vista como uma linguagem inferior quando comparada à norma culta.
Figura 7 – Quadrinho Mônica e Cebola
Fonte: Revista Turma da Mônica Jovem, n° 10
Nesta tira, encontramos a palavra “desencana”, também muito utilizada por
adolescentes e que é o mesmo que dizer “fica despreocupado”, “fica tranquilo”. Outro fator
que queremos abordar nesse quadrinho é o contexto da situação que ocorre muitas vezes na
fase adolescente. O personagem Cebolinha, ou melhor, Cebola quando criança possuía um
problema de dislalia, em que ao falar trocava as letras “r” pelo “l”. Na nova fase da Turma,
esse personagem fez um tratamento com fonoaudiólogos, mas nos momentos em que fica
nervoso ou envergonhado não consegue controlar e acaba trocando as letras. Isso ocorre
principalmente quando ele está perto de meninas, neste caso a Mônica. Podemos verificar que
ao invés de pronunciar a palavra “pra” pronuncia “pla”. Observamos frequentemente esse
tipo de comportamento nos adolescentes, quando se encontram em alguma situação que lhes
traga insegurança, a primeira reação é percebida na fala, na maneira de se expressar
linguisticamente. Este é o contexto verificado nesta tira, quando o personagem Cebola recebe
um elogio da Mônica, ele se vê em uma situação inesperada e traduz na fala todo seu
nervosismo.
Outro quadrinho pode ser observado e analisado.
Figura 8 – Quadrinho Mônica e Magali
Fonte: Revista Turma da Mônica Jovem, n° 10
Nesta tira, observamos o uso de expressões como “superfã” e gírias como
“pagar mico”. Essas expressões são mais típicas do universo adolescente e expressam
situações com que eles convivem no cotidiano. A primeira refere-se a algo ou a alguém a
quem se admira muito, um fã exagerado. Existe nesta palavra novamente um neologismo
formado com a junção das palavras “super” e “fã”. Ao usá-las dessa maneira, o falante
expressa maior intensidade ao que está sendo dito.
Neste quadro, também encontramos um dos recursos visuais utilizados pelo
mangá para expressar os sentimentos dos personagens. Os corações no lugar dos olhos
deixam claro o sentimento de Magali em relação ao professor. Essa característica do mangá
mostra como, muitas vezes, a linguagem visual nos quadrinhos é importante, ela faz com que
o leitor entenda o enunciado através do contexto visual e não apenas através das palavras. Em
todos os quadrinhos escritos com a estrutura do mangá podemos observar o uso desse tipo de
recurso que faz com que o leitor perceba através da fisionomia dos personagens um contexto
que só poderia ter sido entendido a partir da linguagem.
Vejamos no próximo quadrinho uma gíria encontrada na fala do Cascão, que é
o personagem que mais usa gírias nessa fase adolescente.
Figura 9 – Quadrinho Mônica e Cascão
Fonte: Revista Turma da Mônica Jovem, n° 10
Na fala do Cascão, encontramos uma das gírias mais comuns utilizadas
atualmente entre os adolescentes, “se liga”. “Se liga” quer dizer “acorda”, “se atualiza”, o
personagem deixa isso ainda mais evidente quando diz a Mônica que “esporte com bola é
coisa do milênio passado”. O uso da expressão “milênio passado” produz um exagero com
relação ao tempo, ou seja, quer dizer que “esporte com bola é coisa de muito tempo atrás,
coisa que não se usa mais” e por isso inferimos que o personagem do Cascão está querendo
dizer que a Mônica está totalmente desatualizada.
Observamos ao longo desta análise que a gíria é atualmente uma variante muito
comum entre a maioria dos adolescentes e jovens e que é entendida pelos ouvintes, portanto,
todos podem usá-las como meio de comunicação tendo em vista a situação da fala, pois,
quando a gíria aparece em um contexto formal, o falante pode ser vítima do preconceito
linguístico existente com relação a essa variante linguística.
4.4 Cadê o Chico Bento jovem?
Com o objetivo de analisar a linguagem do jovem que convive em um meio
social diferente ao da Turma da Mônica procuramos pelo personagem do Chico Bento jovem,
pois acreditamos que ele contribuiria muito para a realização de uma análise comparativa
entre a linguagem dos adolescentes da cidade e a linguagem dos adolescentes vindos de um
contexto diferente, no caso o Chico Bento, do meio rural. Constatamos, nesse momento, que o
personagem do Chico Bento jovem não foi criado e que muitos leitores das histórias em
quadrinhos cobram isso do cartunista Mauricio de Sousa. Apesar de o Chico Bento não fazer
parte exatamente da Turma da Mônica, pois ele tem sua turma específica, ele é um
personagem muito famoso entre as criações de Mauricio de Sousa e, por conta disso, os
leitores esperavam encontrá-lo também na fase adolescente.
Em resposta aos leitores que cobraram a criação do Chico Bento jovem,
encontramos na revista número dez da Turma da Mônica Jovem a seguinte explicação escrita
pelo próprio Mauricio de Sousa.
Figura 10 – Cadê o Chico Bento Jovem?
Fonte: Revista Turma da Mônica Jovem, n° 10
Já no início da fala de Mauricio de Sousa, podemos verificar um preconceito
existente com relação ao caipira, o cartunista diz que Chico Bento “está tão bem lá na roça
dele”, mas, com quinze anos de criação, o personagem necessariamente precisa continuar
vivendo na roça? Ele não poderia estar agora na cidade? Ou, ainda, a roça não poderia ter um
avanço proporcional ao contexto atual das cidades do interior paulista, que é o contexto vivido
pelo personagem?
O cartunista continua sua explicação dizendo que qualidade de vida está ali, na
roça do Chico Bento, onde a água é pura, as frutas e verduras são colhidas frescas e sem
agrotóxicos, a vizinhança cuida das matas e tudo continua como antes, ou seja, nem mesmo as
características do lugar tiveram mudanças, tudo continua exatamente como antes. Mauricio de
Sousa diz quase no final dessa carta explicativa que não há necessidade de tirar o personagem
desse lugar tão calmo “a não ser que... algo ameace esse pedaço de sertão”, ou seja,
encontramos nessa fala um pensamento típico da sociedade que pensa que o caipira só reage e
evolui por necessidade.
Será que a inexistência do personagem jovem não se dá simplesmente porque a
sociedade atual pensa que o caipira seja incapaz de evoluir? Ou porque seria muito difícil para
o cartunista criar um linguajar específico do caipira jovem? O Chico Bento não poderia ter
estudado e adquirido uma linguagem mais próxima àquela ensinada pela norma culta?
Mauricio de Sousa termina sua explicação deixando em evidência uma
hipótese de que o personagem do Chico Bento jovem poderá ser criado, e diz que para que
isso aconteça, ele precisa antes ser planejado, ou quem sabe, reformulado.
Talvez esteja aí um sinal do que devemos planejar para o Chico, para a Rosinha,
para a Turma da Roça. Uma série de histórias que mostre a possibilidade da
manutenção do jovem na sua própria terra, mantendo suas raízes e usufruindo dos
avanços da ciência, da tecnologia, do conhecimento... e do amor ao planeta,
crescendo e prosperando na terra e com a terra. É o que o meu coração começa a
planejar para o futuro do meu filho... Chico Bento. (SOUSA, 2009, p. 23)
No trecho acima percebemos que a criação de um personagem caipira jovem
implica em muitos fatores, pois o autor necessita “planejar”, talvez de uma maneira cuidadosa
para não tirar as “raízes” dos personagens. Na verdade, observamos a dificuldade em criar um
personagem caipira jovem, em todos os sentidos, tanto visualmente, como em seu linguajar.
Acreditamos que a expressão “manutenção do jovem na sua própria terra” deixa subentendido
que o jovem caipira não usufrui da tecnologia e dos avanços oferecidos aos jovens que vivem
nas cidades. Acreditamos que o personagem de Chico Bento jovem poderia muito contribuir
para uma análise de comparação e de verificação do uso da gíria e do caipira em diferentes
meios.
Conclusão
Atualmente, há uma grande discriminação em relação ao uso de determinadas
variantes linguísticas como a gíria e o dialeto caipira. As escolas tentam ensinar aos alunos
somente aquilo que as gramáticas apresentam como certo e, por conta disso, as variantes
linguísticas, na maioria das vezes, são apontadas como erro, pois são diferentes daquelas
formas tradicionais que aprendemos.
O importante nas escolas seria ensinar aos alunos que o indivíduo (falante) é
um ser único e por isso possui uma forma específica de falar e se expressar. Mas, o que vemos
acontecer é a formação de falantes de norma culta que se julgam melhores do que o outro
simplesmente porque fazem o uso das regras criadas pelas Gramáticas Tradicionais. A partir
desse ponto, o preconceito deixa de ser com a forma de falar do indivíduo e passa a ser social,
ou seja, passa a ser um preconceito específico contra o falante.
Neste trabalho, pudemos constatar que no momento em que um falante de
norma culta discrimina outro falante por sua forma de falar, esse preconceito já não existe
mais só na linguagem, pois ele passa a fazer do outro um ser inferior por possuir em seu
linguajar uma variante menos prestigiada.
Conclui-se, então, que não existe um preconceito puramente linguístico, mas
sim um preconceito social, pois, na maioria das vezes, o falante de norma culta apresenta-se
em um nível social mais elevado se comparado àquele que não se enquadra nos padrões da
Gramática.
Esperamos que essa pesquisa possa contribuir de alguma forma para a criação
de um novo ponto de vista com relação à linguagem e suas variações. No momento em que as
variantes linguísticas deixarem de ser vistas como erro, seus usuários não sofrerão nenhum
tipo de preconceito como os que pudemos verificar ao longo deste trabalho.
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