Tuesday, September 14, 2010

Os negros nos quadrinhos brasileiros


Os negros nos quadrinhos brasileiros/
On Black Identity in Brazilian Comics
Nobuyoshi Chinen
Faculdades Oswaldo Cruz São Paulo - SP
Prepared for delivery at the
2009 Congress of Latin American Studies Association
Rio de Janeiro, Brazil
June 11-14, 2009
A presença do negro nos quadrinhos brasileiros
Introdução
Antes de tecer considerações sobre a forma como se dá a presença de personagens negros nos quadrinhos brasileiros, um ponto que merece atenção é a ocorrência de uma situação bastante peculiar, marcada por dois paradoxos:
O primeiro é que o Pererê, de Ziraldo, historicamente, o mais bem sucedido personagem negro das nossas HQs não é um ser, humano ou animal, mas uma entidade mitológica, pertencente ao folclore nacional. Ou seja, o negro mais famoso dos quadrinhos brasileiros é alguém que não existe, que não serve de modelo ou ideal ao leitor negro.
O segundo paradoxo é que o termo “gibi”, que se tornou sinônimo de revista em quadrinhos no Brasil, no sentido original significa menino ou moleque negro, definição consignada em dicionários como o Aurélio e o Michaelis. O irônico é que mesmo tendo figurado em um dos principais títulos do gênero por mais de 10 anos, nem por isso teve presença garantida nas páginas internas da publicação que ele próprio batizava, pois o personagem-mascote aparecia apenas na capa, junto ao logotipo da revista.
Esse cenário, estabelecido, como citado, sobre duas situações paradoxais, serve como pano de fundo para se verificar a baixa representatividade, ou seja, a desproporção numérica de personagens negros nos quadrinhos nacionais em relação à população, e a representação, ou seja, o modo como tais personagens são representados.
Num País que, pelas estimativas do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, tinha já em fins de 2008, uma população formada majoritariamente por descendentes de negros, ou seja, cerca de 90 milhões de pessoas, a desproporção com que este segmento é representado nas mais diversas manifestações artísticas e culturais chega a ser nítida.
A primeira dificuldade em se proceder a um estudo que tente demonstrar a existência ou não de alguma espécie de preconceito em qualquer tipo de meio de comunicação é estabelecer justamente o limite do que pode ser considerado preconceito.
Antes de fazer uma afirmação precipitada e passível de ser interpretada como injusta, é indispensável buscar referências que fundamentem os argumentos.
Há alguns meses, o ator Milton Gonçalves envolveu-se em uma polêmica ao defender o direito de fazer o papel de vilão na novela A Favorita, produzida e exibida pela Rede Globo. Em reportagem publicada no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, de 22 de junho de 2008, Gonçalves fala a respeito de seu personagem, um político corrupto. Alguns leitores escreveram para o jornal recriminando-o por essa atitude e que esse tipo de comportamento só prejudicava a imagem dos negros, de modo geral. Segundo essas mensagens, Gonçalves estaria prestando um desserviço à causa negra, que por décadas vem lutando para que os negros deixem de fazer papéis subalternos como os de empregadas domésticas, motoristas particulares ou de bandidos e malfeitores.
Nesse caso, mostrar um negro como sendo mau caráter, em uma novela de grande audiência seria racismo? O próprio ator nega.
Gonçalves, um artista com reconhecido histórico de atuação pela conscientização e defensor da causa negra, argumenta que é mais que tempo de o negro conquistar o
direito de fazer papéis de relevância, o que inclui o de vilão da novela, e que pior do que relegar uma determinada etnia a papéis de pouco destaque ou importância, talvez seja nem sequer dar espaço a eles.
Alguns podem, deliberadamente, distorcer a realidade e alegar que os negros não são vítima de preconceito nas novelas, nos filmes ou em outras manifestações artísticas e culturais. Mas, seria o caso de responder que não são tratados com preconceito, justamente, porque as oportunidades são mínimas ou nem sequer têm a chance de aparecer. No estudo “Personagens do Romance Brasileiro Contemporâneo”, a professora Regina Dalcastagné relata a pesquisa, por ela coordenada e conduzida com o apoio de 17 alunos da UnB, em que foram analisados 258 romances publicados entre 1990 e 2004 pelas editoras Record, Rocco e Companhia das Letras, consideradas as mais expressivas do mercado editorial de ficção nacional no período.
De um total de 1.245 personagens listados nas 258 obras, apenas 7,9% são negros, sendo somente 5,8% protagonistas. Em 73,5% dos casos, os personagens negros são pobres e 12,2% deles, miseráveis.
Padrão semelhante do observado em obras literárias pode ser constatado não apenas em outros produtos de ficção cultural, mas em registros artísticos de fatos, pretensamente, históricos. Em matéria de 20/11/2005, do jornal O Estado de S. Paulo, o professor de história da Universidade Federal de São Carlos Marco Antonio Villa aponta como a iconografia oficial omitiu a figura do negro, mesmo quando este esteve presente e desempenhou papel de destaque em determinados acontecimentos históricos.
Villa menciona os famosos quadros “Independência ou Morte”, de Pedro Américo e “Proclamação da República”, de François-René Moreaux, como exemplos clássicos de cenas que passaram para a história como imagens sínteses de momentos relevantes do Brasil e nas quais não há a presença de um negro sequer.
Mais grave ainda, segundo o professor, são os quadros que retratam a Guerra do Paraguai, como o célebre “Batalha do Avaí”, também de Pedro Américo, em que são representados oficiais e soldados brasileiros e paraguaios, mas, novamente, nenhum negro aparece, quando é notório que grande parte do contingente do exército nacional era constituída por soldados negros. Segundo mostram as conclusões de sua pesquisa, foi promovida uma “limpeza étnica” nos quadros que, hoje, simbolizam e sintetizam momentos-chave da história nacional. Para Villa, os negros foram intencionalmente suprimidos e as marcas de sua presença, em alguns casos fundamental, foram oficialmente omitidas e não deixaram registro. Uma injustiça como essa é difícil de ser reparada, pois, embora se saiba que retratos oficiais tenham a notória intenção de distorcer a realidade para fins políticos, são esses quadros que estão expostos em museus e são reproduzidos nos livros didáticos e ajudam a compor o imaginário coletivo a respeito de personagens e fatos históricos.
No caso dos quadrinhos, esse padrão também se repete. No Brasil, a bibliografia sobre quadrinhos ainda é bastante escassa em comparação com países como França, Estados Unidos e Espanha. Os livros teóricos de referência existentes, de modo geral, se restringem a citar os personagens negros, sem se aprofundar na sua “biografia” nem na análise semiológica de sua caracterização.
Dentre os títulos, apenas um (CIRNE, 1982) inclui um capítulo inteiro, ainda que de apenas três páginas, sobre o tema: “O negro nas estórias em quadrinhos”. É um
capítulo curto, mas elucidativo em que o autor lamenta a escassez de personagens negros e enumera não mais do que meia dúzia deles. Para Cirne:
No Brasil, o que nos parece bastante grave para um país que oficialmente não reconhece o preconceito racial, os heróis negros são exceções, nem sempre honrosas (vide Pelezinho, de Mauricio de Sousa). A verdade é que a nossa galeria de personagens negros é bastante pequena: Benjamim (Luís Loureiro), Lamparina (J. Carlos), Azeitona (Luiz Sá), Pererê (Ziraldo), Preto-que-Ri (Henfil) – e mais um ou outro exemplo.
Mesmo considerando que o livro foi publicado há mais de 26 anos, já então, os quadrinhos tinham um histórico quase centenário de publicação regular no país.
O livro de Cirne traz, ainda, um capítulo sobre Pererê, analisado como exemplo de brasilidade nos quadrinhos. Este personagem, aliás, é o que mais mereceu a atenção dos pesquisadores. O próprio Cirne, em um dos pioneiros estudos nacionais sobre os quadrinhos, (CIRNE, 1971), faz uma extensa análise do Pererê, desde considerações sobre o elemento folclórico que deu origem ao protagonista a uma descrição de cada personagem da série, passando por uma avaliação do contexto político e social do período em que o personagem foi lançado. Em outros dois livro do mesmo autor, (CIRNE, 1973 e 1990), há capítulos dedicados ao Pererê. No primeiro, utilizando uma das histórias com o personagem para analisar a narrativa dos quadrinhos e como se estabelece a relação espaço-tempo, nessa linguagem.
Existe até um livro inteiro dedicado ao Pererê (PIMENTEL, 1989), reforçando a popularidade desse personagem entre o público. A análise, fruto de um trabalho acadêmico do autor, se dá sob o ponto de vista ideológico e semiológico. Elementos que, de certa forma, são indissociáveis, pois o significado de um signo é fortemente influenciado pelo contexto ideológico em que é veiculado.
Uma análise mais detalhada, certamente, permitirá detectar um número de personagens mais expressivo do que o levantado por Cirne, cuja lista se ateve aos protagonistas ou os de maior fama ou repercussão. O próprio Mauricio de Sousa, citado como autor do Pelezinho, antes de adaptar o jogador para os quadrinhos já incluía em sua família de personagens o menino negro Jeremias. Mesmo assim a relação não aumentaria a ponto de alterar, em termos estatísticos, a proporção de negros nas HQs.
Preconceito desde a origem
A origem das histórias em quadrinhos é tema sobre o qual não existe um consenso, até pela divergência de opiniões a respeito do que constituiria uma história em quadrinhos.
Segundo pesquisadores europeus como Pierre Couperie, os quadrinhos nasceram na Suíça, em 1827, com Rodolphe Töpffer (COUPERIE, 1973). Segundo a professora brasileira Sonia Luyten, para os japoneses, os primeiros registros do que seria o manga, denominação usada para definir os quadrinhos nipônicos, datam de fins do século XIX quando o termo foi usado pela primeira vez por Hokusai, famoso gravurista, autor de vários trabalhos na técnica do ukiyo-e, muitos deles de caráter cômico (LUYTEN, 2000). Pesquisadores brasileiros defendem que o pioneiro foi Angelo Agostini, que em 1865 publicou as primeiras séries quadrinizada.
Já os americanos, corroborados por um conselho de especialistas reunidos na Itália para dar uma palavra final sobre o assunto (MOYA, 2003), os quadrinhos tiveram início em 1896, com o personagem Yellow Kid, de Richard Felton Outcault.
Independentemente de qual tenha sido o primeiro, é consenso entre os estudiosos brasileiros e estrangeiros que os quadrinhos foram uma evolução das charges humorísticas que já eram comuns entre os séculos XVIII e XIX. Sintomaticamente, a denominação inglesa para elas é comics (cômico) ou funnies (engraçado). A palavra mangá significa desenho sem compromisso.
É importante pontuar essa origem dos quadrinhos como material produzido com a intenção de provocar riso, pois é interessante compreender os mecanismos que levam uma pessoa a rir. Muitas das técnicas de comédia, sabidamente, recorrem ao preconceito. Basta assistir aos programas humorísticos da TV ou listar as categorias de piadas mais comuns: de português, de corno, de viado, de loira. Ri-se do outro, da sua exposição a situações ridículas, de sua condição supostamente inferior, seja física quanto intelectual. Embora uma característica do humor judaico seja a de fazer piadas de si mesmos, na maioria dos casos, ri-se do outro simplesmente pelo fato de ser diferente. Bergson em seu livro O Riso, Ensaio sobre a Significação da Comicidade, enumera os diferentes modelos de comicidade. O primeiro deles é o das formas, o visual. O autor comenta, com total naturalidade, que rimos dos negros porque parecem um branco com uma máscara ou o rosto sujo de fuligem.
“...E por que se ri de um negro? Pergunta difícil, parece, pois psicólogos como Hecker, Kraepelin e Lipps a formularam e responderam de maneiras diferentes. Não sei, porém, se ela não foi respondida certo dia diante de mim, por um simples cocheiro, que tachava de “mal lavado” o cliente negro sentado em sua carruagem. Mal lavado! Um rosto negro seria, portanto, para nossa imaginação, um rosto lambuzado de tinta ou de fuligem. E, conseqüentemente, um nariz vermelho só pode ser um nariz sobre o qual foi passada uma camada de vermelhão. Portanto, o disfarce passou algo de sua virtude cômica para outros casos em que não há disfarce, mas poderia haver (BERGSON, 2004).
Freud dedicou especial atenção ao estudo das piadas com o intuito de estudar o prazer provocado pelo riso. Em seu livro “Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, ele analisa uma série de anedotas e procura explicar como é construído o efeito cômico em cada um dos exemplos. Na parte em que busca analisar as razões pelas quais esse efeito é obtido, Freud contextualiza:
Embora, quando crianças, ainda sejamos dotados de uma poderosa disposição herdada para a hostilidade, logo aprendemos por uma civilização pessoal superior, que o uso de uma linguagem abusiva é indigno; e mesmo onde a luta pela luta permaneceu permissível, aumentou extraordinariamente o número de métodos de luta cujo emprego é vedado. Já que somos obrigados a renunciar à expressão da hostilidade pela ação - refreada pela desapaixonada terceira pessoa em cujo interesse deve-se preservar a segurança pessoal - desenvolvemos, como no caso da agressividade sexual, uma nova técnica de invectiva que objetiva o aliciamento dessa terceira pessoa contra nosso inimigo. Tornando nosso inimigo pequeno, inferior, desprezível ou cômico, conseguimos, por linhas transversas, o prazer de vencê-lo - fato que a terceira pessoa, que não dispendeu nenhum esforço, testemunha por seu riso. (FREUD, 1905)
Para Freud, rir do outro é a maneira civilizada de agredi-lo, uma vez que a sociedade e seus códigos morais impedem o indivíduo de se manifestar como bem entender. A possibilidade de rir da autoridade, do inimigo, do mais fraco é fonte de prazer que explica o sucesso das sátiras e das caricaturas de políticos, por exemplo.
Muitos dos códigos utilizados na figuração cômica estão baseados na distorção fisionômica, no exagero e nos estereótipos. Na definição de Mazzara, estereótipo é..
... um conjunto coerente e bastante rígido de crenças negativas que um certo grupo compartilha em relação a outro grupo ou categoria social. (MAZZARA, 1999)
Obviamente, numa forma de expressão que se utiliza de meio de comunicação de massa, como os quadrinhos, a intenção é fazer com que o leitor rapidamente identifique o personagem retratado, sem precisar de maiores explicações. Na necessidade de apresentar um negro, um oriental, um judeu, somente por meio de traços, modos e sotaques a simplificação e a estilização acabam sendo uma exigência da limitação das técnicas de reprodução gráfica. Mas, essa generalização muitas vezes esbarra no arriscado limite que é tornar-se ofensivo. Ainda segundo Mazzara:
O que marca a diferença é o grau de intensidade de ambos processos: na ausência de outra informação, um certo grau de generalização permite formular previsões; um grau excessivo impede de captar as matizações individuais ou talvez a absoluta falta de correspondência entre o indivíduo real e o que é traçado pelo estereótipo; é necessário um mínimo de coerência e estabilidade para que o estereótipo seja útil na interpretação dos outros. (MAZZARA, 1999)
John e Selma Appel, no livro Comics da Imigração na América, fazem um amplo levantamento das formas como irlandeses, escoceses, negros e, principalmente, os judeus eram retratados nas charges de jornais e revistas americanas do fim do século XIX.
Durante os primeiros anos dos quadrinhos, esses estereótipos foram usados sem o mínimo pudor. Segundo Fredrik Strömberg, num raro e interessante estudo da representação de personagens negros nos quadrinhos (STRÖMBERG, 2003), reproduz e comenta como no decorrer dos anos, os personagens negros foram representados. No livro, as primeiras ilustrações datadas entre o fim do século XIX e o começo do XX, os negros são associados à imagem de selvagens nativos, com ossos atravessados no nariz como adereços e vestindo tangas ou saias de palha. Na seqüência são mostrados serviçais homens e mulheres, invariavelmente trabalahndo para um patrão branco. Strömberg chega a estabelecer as diferentes categorias de negros, agrupando-os conforme sua representação e função nas HQs. São citados no livro diversas séries conhecidas e autores prestigiados. Will Eisner, um dos maiores autores de quadrinhos de todos os tempos, deu ao seu personagem Ebony White traços grotescos e um sotaque sulista recorrentes em várias representações gráficas dos negros americanos, até as primeiras décadas do século XX. Note-se que Ebony era o assistente de Spirit, o herói da série e tinha, portanto um papel de destaque que não era comum se atribuir a um negro. Eisner, segundo Strömberg, se defendia dizendo que era assim que eram representados na época e não se concebia proceder de outra forma.
Essa generalização, essa maneira como todos faziam e aceitavam que fosse feito pode ser classificada naquilo que para Erving Goffman está no gérmen dos estigmas. Para esse autor:
A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Os ambientes sociais estabelecem as categorias em que as pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas. As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos os permitem um relacionamento
com “outras pessoas” previstas sem atenção ou reflexão particular. (GOFFMAN, 1978)
Na conceituação de Goffman, as pessoas ditas “normais” criam uma expectativa em relação a todas as outras pessoas, levando em conta uma série de atributos que caracterizariam essas outras pessoas. Em síntese, estabelecem estereótipos que ajudam a construir uma imagem mental de alguém antes mesmo de conhecê-lo. Quando essa imagem que constitui a identidade social virtual não corresponde à identidade social real, cria-se o estigma. Na explicação de Eisner, a sociedade aceitava que para a representação normal de um negro, deveria-se retratá-lo como um sujeito ignorante, submisso e subalterno.
Eisner, por ter origem judia, sabia muito bem o que é preconceito e parte de sua obra mais recente tem tons autobiográficos que relatam passagens em que ele mesmo foi vítima de discriminação.
Em tempos recentes, o personagem mexicano Memín Pinguín foi alvo de duas polêmicas envolvendo preconceito e discriminação. O primeiro episódio ocorreu em 2005 quando o serviço do correio mexicano resolveu homenagear o personagem estampando-o em uma série de selos. Criado originalmente na década de 1940 por Alberto Cabrera, Memín Pinguín era um personagem secundário até 1963, quando foi lançada a revista com o mesmo nome do personagem, reformulado sob os traços de Sixto Valência e que fez grande sucesso. Os selos foram criticados pelo governo dos Estados Unidos provocando uma declaração do presidente George W. Bush que, por meio do seu porta-voz Scott McClellan, considerando o personagem extremamente estereotipado e, em tempos politicamente corretos, absurdamente ofensivo. Os mexicanos tiveram de responder que se tratava de um personagem de grande sucesso, querido pelo público e que, ao contrário das acusações, era um exemplo de herói de ficção e que a reação se devia a um desconhecimento das peculiaridades e gostos da população mexicana e, portanto, um desrespeito à sua cultura. Em 2008, novo incidente: Memín Pinguín foi acusado de racismo por uma consumidora negra que, ao se deparar com um exemplar da revista com o personagem na prateleira de uma das lojas da rede Wal-Mart, questionou se aquele personagem era um ser humano ou um macaco. O caso ganhou repercussão nacional e o protesto teve o apoio de personalidades de defesa dos negros. Apesar do Wal-Mart prontamente se dispor a recolher a publicação de suas unidades, o episódio causou um mal-estar entre os Estados Unidos e o México, país cuja população negra tem representatividade mínima. Mais uma vez, os mexicanos tiveram de explicar que o Memín era um dos mais famosos e queridos personagens dos quadrinhos e que sua imagem era herdeira de um contexto em que tal representação não era considerada racista. O mexicano Memín Pinguín e o americano Ebony seriam, portanto, desculpáveis por pertencerem a um contexto histórico em que era permitido representar os negros de forma estereotipada?
De acordo com Tomaz Tadeu de Lima, identidade e diferença são construções que dependem da linguagem para se definir. A forma como são usados símbolos e palavras inclui ou exclui os indivíduos dentro de determinados conceitos e categorias.
... aquilo que dizemos faz parte de uma rede mais ampla de atos lingüísticos que, em seu conjunto, contribui para definir ou reforçar a identidade que supostamente apenas estamos descrevendo. Assim por exemplo, quando utilizamos uma palavra racista como “negrão” para nos referir a uma pessoa negra do sexo masculino, não estamos simplesmente fazendo uma descrição
sobre a cor de uma pessoa. Estamos na verdade, inserindo-nos em um sistema lingüístico mais amplo que contribui para reforçar a negatividade atribuída à identidade “negra” (LIMA, 2000).
No processo de construção de sua identidade, o indivíduo adota o referencial de que dispõe, pois sendo o modelo dominante e consensual, passa a ser o ideal buscado mesmo que não corresponda à sua realidade. Esse é um problema particularmente grave quando se trata de crianças e adolescentes, cuja elaboração da personalidade pode entrar em choque com os padrões de cor, credo ou valores de seu grupo. Jeffrey Brown, no livro Black Superheroes, Milestones Comics, and Their Fans, reproduz um anúncio da BOCA – Black Owned Communication Alliance em que um garoto negro diante do espelho mira e vê um super-herói branco que nada tem a ver com sua própria imagem, mas acaba servindo-lhe de modelo aspiracional (BROWN, 2001). Outro autor que reforça esse desconforto é William H. Foster III, cujo livro Looking for a Face Like Mine é justamente um manifesto em favor de produções quadrinhísticas com as quais os leitores negros como ele possam se identificar. Foster é professor de comunicação, estudioso dos quadrinhos e mantém uma exposição itinerante com materiais sobre os negros nos quadrinhos americanos.
Personagens negros nos quadrinhos brasileiros
A título de ilustração, uma vez que os quadrinhos constituem uma linguagem híbrida em que texto e imagem têm peso e valor equivalente, é útil citar alguns personagens negros para colaborar na compreensão de como eles são representados. Os exemplos apresentados foram selecionados propositadamente para se refletir sobre a questão do preconceito ou a ausência dele, a partir da citada lista sugerida por Moacy Cirne, acrescida de outros. A ordem em que são apresentados procurou seguir a linha seguida por Fredrik Strömberg no livro Black Image in the Comics, que desenha uma evolução significativa na forma como os negros eram representados em outros tempos e como o são na atualidade.
Apesar de Athos Eichler identificar o personagem Giby, criado por J. Carlos em 1907 para a revista O Tico-Tico, como sendo o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros, há poucos registros sobre ele e Benjamim figura como o primeiro negro dos quadrinhos a fazer sucesso entre o público leitor. O Tico-Tico, desde o seu primeiro número de 11 outubro de 1905, publicava as aventuras de Chiquinho e seu cão Jagunço, em histórias decalcadas por ilustradores brasileiros das páginas do personagem americano Buster Brown e o cachorro Tige, criado por Richard Felton Outcault, em 1902 para o jornal The New York Herald. Entre os principais artistas responsáveis por recriar os desenhos, estava Luis Loureiro que, com a popularidade da série, criou um novo personagem para acompanhar Chiquinho: Benjamim. A caracterização física de Benjamim seguia o padrão estereotipado da época com olhos saltados e lábios grossos. Seu papel também não fugia às funções às quais os personagens negros de então eram relegados: o de serviçal, garoto de recados e engraxate da casa, a quem se permitia brincar com o filho do patrão, mas não ir muito além disso. Sua função era de criar situações engraçadas decorrentes de sua ignorância ou falta de modos. Se o Buster Brown original sempre finalizava com uma lição de moral, sua versão nacional prescindia desse expediente. Por compor junto com Chiquinho, a série mais popular de O Tico-Tico, Benjamim figurou em inúmeras páginas e capas da publicação, sendo
desenhado sucessivamente, por diferentes artistas como A. Rocha, Alfredo Storni, Paulo Afonso, Oswaldo Storni e Miguel Hochmann, até o seu encerramento na década de 1960. Foi, portanto, um dos mais longevos personagens do quadrinho nacional.
Azeitona é o menino negro que, junto com seus amigos Reco-Reco e Bolão compõe um famoso trio de personagens criado em 1931 por Luiz Sá. Publicados durante 30 anos na revista O Tico-Tico, tiveram grande popularidade nas décadas de 1930 e 40. Azeitona carrega nos traços todos os estereótipos possíveis: lábios grossos, olhos saltados, nariz grande e largo. Chama a atenção o seu cabelo, que se resume a um tufo no alto da cabeça, com um laço vermelho. Criado numa época em que não existia a vigilância do politicamente correto, utilizavam-se todas as possibilidades de se fazer humor, mesmo que para isso fosse necessário brincar com as características físicas dos personagens.
Poderíamos acusar seu autor de racismo. No entanto, seus dois companheiros Reco-Reco e Bolão não mereceram tratamento melhor. Bolão é um menino gordo e Reco-Reco, um magrelo com esparsos fios de cabelo. Em comum, são todos obtusos e nenhum dos três é tratado com maior ou menor desprezo, arrogância ou zombaria pelos demais. Ou melhor, todos são igualmente debochados, dependendo de qual deles é a vítima da brincadeira dos outros dois.
Outro personagem negro que teve origem nas páginas d’O Tico-Tico foi Lamparina, criada em 1928 por J. Carlos, um dos mais talentosos e prolíficos artistas gráficos do Brasil. Se nas outras séries o negro era retratado com traços fisionômicos exagerados, Lamparina era o próprio estereótipo do aborígene africano com braços excessivamente longos, modos e atitudes simiescos e até uma tanga de pele de felino. Além desses elementos visuais de viés nitidamente preconceituoso, as enrascadas em que Lamparina se metia reforçavam ainda mais o aspecto pouco refinado de sua inteligência e raciocínio.
A concepção de personagens nos moldes dos citados seria inadmissível nos dias de hoje, pelo menos não da forma exagerada como costumava ocorrer. Os estereótipos ainda persistem, mas no nível da estilização de traços, sem a intenção clara de ofender ou humilhar. É o que se pode notar na representação de Jeremias, personagem da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa.
Ele tem participação tímida nas aventuras e são raras as ocasiões em que aparece nas histórias, sempre em papel de coadjuvante. Jeremias integra uma categoria que poderia ser chamada de terciária, uma vez que em primeiro plano está o quarteto formado por Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Em papéis secundários aparecem Zé Luís, Anjinho, Xaveco. Também nesse caso, Jeremias é representado por características exageradas, mas igualmente o são os brancos Cebolinha, cujo cabelo se resume a cinco traços, a Mônica que tem dentes tão grandes que lhe saem da boca. O traço caricatural não tem como prescindir da estilização extrema e por isso, muitos autores não se furtam a exagerar propositalmente, em busca do efeito cômico. O mesmo ocorre com o Pelezinho e Ronaldinho Gaúcho, ambos criados pela equipe de Mauricio de Sousa. Embora se trate de dois negros que protagonizam suas próprias revistas, é o caso de se questionar se eles foram transformados em personagens de quadrinhos por serem negros ou por serem celebridades esportivas.
Como caso mais emblemático, temos os personagens negros do Henfil, cujo estilo é conhecido pela economia de traços, mas nem por isso menos expressivos. Sua galeria de personagens reúne tipos como os Fradins, Zeferino, Orelhão, Caboco
Mamadô e até um com o simpático nome de Preto-que-Ri. Henfil foi um dos mais renomados cartunistas do Brasil e teve atuação importante durante a época da ditadura militar (1964-1984). Seus cartuns e HQs refletiam uma postura engajada, de resistência ao regime e denúncia contra os problemas sociais. Conhecido por não fugir da polêmica, Henfil era provocativo, sarcástico e contundente, mas talentoso e sincero. Por meio de seus personagens Henfil denunciava a hipocrisia e os falsos valores morais da sociedade da época. Um dos temas que explorou foi o racismo, algo que, em tese não existia entre os brasileiros, mas que se revelava nos pequenos detalhes e nas sutilezas dos relacionamentos.
Nos três exemplos, a representação gráfica utiliza os estereótipos correntes nos quadrinhos mais racistas. No entanto, pelo contexto em que são situados, o modo como se relacionam os outros personagens e a intenção dos autores, principalmente, o Henfil elimina todas as possibilidades de que sejam considerados preconceituosos.
Além de Henfil, outros autores incluíram personagens negros em suas HQs, muitas vezes para denunciar uma condição social de exclusão. É o caso de Edgar Vasques que, em sua série Rango, criada em 1960, e que teve grande repercussão durante as décadas de 1970 e 80. Rango era um miserável, que vivia, literalmente, no lixo e tinha como companheiros de infortúnio um garoto negro e um personagem sul-americano que poderia ser um boliviano ou peruano. As tiras de Rango exploravam as mazelas da população menos favorecida e atacava os responsáveis pela condução da economia do País, que vivia sob uma forte ditadura militar.
Superada a fase de protesto político e execração do racismo explícito, o contexto de promoção da integração racial e respeito à diversidade fez com que alguns autores mais engajados criassem personagens com o objetivo declarado de valorizar a etnia negra.
O exemplo mais interessante nesse aspecto é a menina Luana. Criada em 2000 por iniciativa de Aroldo Macedo, um dos criadores da revista Raça, voltada ao público negro, Luana nasceu como um projeto voltado para crianças negras com a intenção de lhes elevar a auto-estima e combater o preconceito. Luana é uma garota simpática, extremamente ativa, praticante de capoeira. Ela é a líder de uma turma de crianças que entre uma aventura e outra aborda temas da cultura afro-brasileira como história e religiosidade. Além de ser a protagonista de uma coleção de gibis em histórias roteirizadas por Dejair da Mata e desenhadas por Mingo de Souza, Luana também figura em diversos livros infantis.
Outra publicação a ter um negro como protagonista é o recente álbum Aú, o Capoeirista, de Flávio Luiz, lançado no final de 2008. Dirigido a um público adolescente, essa HQ mescla humor e aventura de forma bem equilibrada e tem produção impecável, com papel de qualidade, capa dura plastificada e impressão que valoriza o uso das cores. Ambientada em Salvador, na Bahia, a história tem muitos personagens negros e aborda vários elementos da cultura local como a música e a culinária, mas sem cair na exploração do exotismo. Apesar de exímio lutador, Aú vale-se de sua astúcia e inteligência para solucionar os problemas. Tanto no aspecto visual quanto na elaboração do roteiro, esse trabalho é muito semelhante a obras similares da Europa, onde o formato álbum é predominante.
O quadrinhista Laerte, um dos mais talentosos autores de quadrinhos nacionais, também criou uma série com uma protagonista negra. Suriá, a Menina do Circo, foi criada para o suplemento infantil do jornal Folha de S. Paulo, e narra as aventuras
de uma trapezista mirim às voltas com animais, reais e de fantasia, em seu cotidiano de circo.
Resgate histórico
Uma outra vertente dos quadrinhos de personagens negros é representada por alguns trabalhos que visam a narrar episódios da história do Brasil sob um novo prisma para resgatar a importância da participação dos negros nesses acontecimentos. Como visto na parte inicial do presente trabalho, houve uma tentativa institucionalizada de “embranquecer” fatos relevantes da história do País, omitindo-se os negros da iconografia oficial. O quadrinhista Mauricio Pestana, que desenvolve um importante trabalho em prol da valorização dos negros e de denúncia das desigualdades, publicou em 2007 o álbum Revolta dos Búzios que reconta o levante, que ocorreu em 1798, também conhecido como Revolta dos Alfaiates ou Conjuração Baiana com destaque para seus líderes que pertenciam à comunidade negra de Salvador, fato que nossos livros de história não costumam explicitar.
Na mesma linha de concepção, foi publicado em 2008 o álbum Chibata, versão quadrinizada da famosa Revolta da Chibata de 1910, liderada pelo marinheiro João Cândido, que ficou conhecido como Almirante Negro. O próprio fato histórico foi ocultado durante muitos anos, por imposição da Marinha, e havia sido resgatado pelo jornalista Edmar Morel, em 1958, mas com a ditadura militar também foi censurado.
Esses trabalhos mais recentes demonstram que a representação do negro nos quadrinhos já tem novos contornos e, diferentemente dos super-heróis da editora americana Milestone, os protagonistas são mais vinculados à realidade.
Bibliografia:
ANSELMO, Zilda Augusta. Histórias em Quadrinhos. 1ª ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 1975. 180p.
APPEL, John et APPEL, Selma. Comics de Imigração na América. 1ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1994. 216p.
BERGSON, Henri. O Riso. Ensaio sobre a Significação da Comicidade. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 152p.
BROWN, Jeffrey. Black Superheroes, Milestones Comics, and Their Fans. 1ª ed. Jackson: Unversity Press of Mississippi, 2001. 232p.
CAGNIN, Antonio Luís. Os Quadrinhos. 1ª ed. São Paulo: Ática, 1975. 244p.
CAVALCANTI, Ionaldo. O Mundo dos Quadrinhos. 1ª ed. São Paulo: Símbolo, 1977. 256 p.
CIRNE, Moacy. Biblioteca de Caicó. 1ª ed. Rio de Janeiro: Liv. José Olympio, 1983. 96 p.
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Fonte:
http://lasa.international.pitt.edu/members/congress-papers/lasa2009/files/ChinenNobuyoshi.pdf

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