Monday, September 13, 2010

A banda desenhada portuguesa: um universo paralelo


Apresentação

Após décadas (senão séculos) de desconhecimento mútuo, vive-se hoje uma (re)aproximação dos povos peninsulares. Cremos que para além da aproximação necessária criada pelo mercado comum (em que os bancos, as tiendas, os trade marks nos super mercados são cada vez mais de origem espanhola) existe também uma aproximação cultural (voluntária), em que destacamos o número crescente de jovens portugueses a escolher o espanhol (castelhano) como segunda língua nas escolas. Do lado de Espanha sentimos, ao atravessar a fronteira, que a presença de Portugal se vai notando mais nas livrarias e tiendas culturais, sobretudo nas estantes de literatura e música. Os comics (banda desenhada) portugueses, que são ainda um universo desconhecido para maioria dos aficionados em Espanha, viram também nos últimos anos algum brilho no mercado espanhol sobretudo com o sucesso do José Carlos Fernandes com a sua Peor banda del mundo e também com as edições do Miguel Rocha e do Diniz Conefrey. A ver se com este trabalho damos seguimento aos bons ventos que daí sopram para a banda desenhada portuguesa e exportamos mais um pouco desta nossa herança cultural para as bibliotecas públicas e para o público em geral.

Aos leitores obrigado pela atenção e pelo esforço da leitura em português (mas somos incapazes de o fazer em espanhol, facto que aproveitamos para pedir desculpa) e obrigado ao excelente portal @bsysnet pelo espaço concedido aos desconhecidos cómics portugueses.

Alfabeticamente vossos:

Marcos Farrajota, trabalha na Bedeteca (Ayuntamento de Lisboa) desde o ano 2000. É responsável pela selecção das exposições e trabalhos de novos autores de bd a publicar, bem como pela selecção de conteúdos no site www.bedeteca.com. Formador de banda desenhada. Trabalhou com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas na promoção da leitura de bd, com diversas acções de formação dirigidas a profissionais de bibliotecas (2003-2004). Autor, editor, animador e crítico de banda desenhada e fanzines. Escreve regularmente para diversos jornais e revistas independentes sobre banda desenhada e música. Tem formação académica em Gestão de Empresas, vá-se lá saber porquê?

Adalberto Barreto, bibliotecário na Bedeteca de Lisboa desde 1998. Trabalhou com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas na promoção da leitura de banda desenhada, com diversas acções de formação dirigidas a profissionais de bibliotecas (2003-2004). Responsável pela Biblioteca de Banda Desenhada da Bedeteca e pelo Processamento Documental da banda desenhada na Rede de Bibliotecas de Lisboa (BLX). Tem diversos artigos publicados, nomeadamente nos sites @bsysnet, Bedeteca, Associação Portuguesa de Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas (BAD) e no BD Jornal. Misteriosamente é diplomado em Direito e Pós-Graduado com o Curso de Especialização em Ciências Documentais. Nas horas vagas tem um blogue sobre bibliotecas, banda desenhada e um "montão de coisas mais".

Introdução

Apesar da história da banda desenhada portuguesa remontar ao génio incontornável de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), o certo é que passadas as épocas douradas chega-se aos anos 70 do século XX sem mercado nem indústria de cómics. O nosso eterno estado geográfico periférico acompanhado do historial de isolamento imposto pelo fascismo (1926-1974) faz com que Portugal seja mais um país insular que continental. É uma metáfora que complementa outra: os trabalhos de cómics portugueses são barcos perdidos num Atlântico que raramente estabelecem laços entre eles ou que encontram uma continuidade de trajecto.

Será justo achar positivo o facto de não termos indústria nem mercado? Por um lado é aflitivo assistir o desnorteio de alguns autores-capitães face ao oceano, por outro os cómics portugueses não deixam de ter uma riqueza de obras e autores justamente pela ausência de vícios da formatação. Um mercado obriga sempre a uma formatação de estilo ou tema! Cada autor português tem encontrado o seu caminho individual.

Mas não somos totalmente aliens! Felizmente para um país com problemas de analfabetismo, um historial de repressão e geograficamente longe da sofisticação da Europa central, os cómics portugueses sempre acompanharam o zeitgeist dos cómics no mundo.

Os pioneiros

Tudo começou com a caricatura política e social na imprensa que emergia no século XIX. Houve cómics e proto-cómics antes de Rafael Bordalo Pinheiro, é claro, mas poucos ultrapassaram o seu génio e criaram obra consistente. Tal como aconteceu nos EUA ou na Europa, houve um início dos cómics nos jornais políticos vindos da tradição da caricatura. E claro, houve repressões e perseguições, facções políticas na imprensa até acabar com a ditadura de Salazar. tado Novo

Um aparte. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), em 1875 criou o Zé Povinho, uma personagem que merecia eclipsar a importância do Yellow Kid nos cómics. Zé Povinho (a tradução para castelhano seria algo como Pepe Pueblo ou Pepe Pueblito) ainda hoje é um ícone nacional, imortalizado por fazer um manguito (gesto de recusa pouco educado com os braços) e representar o povo eternamente explorado e atraiçoado pelas classes políticas. Se o Yellow Kid foi eleito para representar o nascimento dos cómics pela popularidade da personagem e uso de balões, então o nosso Zé bem podia estar à frente dos norte-americanos. Aliás, esta vontade em associar os cómics aos heróis, balões e índices de popularidade é, na nossa opinião, o pior que podia ter acontecido aos próprios cómics-que acabaram por ser considerados quase universalmente como uma arte menor. De qualquer forma, regressando ao nosso Rafael, é importante recordar que em Espanha Bordalo Pinheiro colaborou com as revistas El mundo cómico e Ilustración española y americana (1873).

Sugerimos:


Pinheiro, Rafael Bordalo, 1846-1905

Bandas desenhadas de Rafael Bordalo Pinheiro : histórias em quadradinhos d' Comércio do Porto Ilustrado e Diário de Notícias Ilustrado : 1892 - 1904 / org. e introd. de Carlos Bandeiras Pinheiro. - Lisboa : Aventura Gráfica, 1996. - [24] p. : il., banda desenhada

972-97170-0-1

A crise dos cómics adultos

São estas crises dos cómics que levam nos finais do século XIX e início do séc. XX à mudança da edição para um público mais novo. Nos Estados Unidos os cómics implantaram-se nos jornais para um público generalista, na Europa houve um boom da imprensa infantil. Nesta separação os cómics portugueses acabaram por ficar ao lado da Europa e manteve os cómics infanto-juvenis por falta de opção. A crítica política foi abolida, e sobreviveram os cómics (e áreas paralelas como a ilustração e a caricatura) na imprensa, direccionados para a infância ou para a crítica de costumes. Alguns dos grandes artistas plásticos de Portugal do século passado fizeram cómics. Por exemplo, o arquitecto e realizador de cinema, Cottinelli Telmo (1897-1948) fundou o jornal ABCzinho, Stuart de Carvalhais (1887-1961) inventou a série Quim e o Manecas (na tradição dos rapazes traquinas Max und Morritz e dos Katzenjammer Kids) que durante décadas se revelou muito popular. Almada Negreiros (1893-1970) e Carlos Botelho (1899-1982) também fizeram cómics, de destacar o último que de uma forma algo visionária realizou reportagens em banda desenhada sobre acontecimentos na cidade de Lisboa no jornal Ecos da Semana.

Sugerimos:


Telmo, Cottinelli, 1897-1948

O Pirilau que vendia balões e outras histórias de Cottinelli Telmo / org. e introd. de Carlos Bandeiras Pinheiro e João Paulo Paiva Boléo. - Lisboa : Baleiazul, 1999. - 170, [1] p. : il., banda desenhada

972-8515-14-6


Carvalhais, Stuart, 1887-1961

O Quim e o Manecas contra a terrível quadrilha do "Pé Fatal" / Stuart ; org., pref., notas de Carlos Bandeiras Pinheiro e João Paiva Boléo. - [Lisboa] : Círculo de Leitores, cop. 1997. - 10, [22] p. : il., banda desenhada

972-42-1492-3


Lisboa. Câmara Municipal. Bedeteca

A cidade nos Ecos da Semana de Carlos Botelho / [org.] Bedeteca da Câmara Municipal de Lisboa ; coord. João Paulo Cotrim. - Lisboa : C.M., 1998. - 124, [4] p. : il., banda desenhada

972-8487-06-1

I - Botelho, Carlos, 1899-1982

A ditadura

Salazar (ditador durante o Estado Novo) isolou o país, censurou os mass media. A arte mais ousada saiu da banda desenhada (e do país) para voltar mais tarde. Tal como nos anos 50 nos EUA ou em França, os cómics portugueses também tinha um código de conduta. As Instruções sobre a literatura infantil (1950).

A banda desenhada portuguesa tal como no resto do mundo foi transformada num médium destinado ao público infanto-juvenil predominando as duas linhas mais conhecidas de cómics popular: o estilo realista/naturalista explorado no género de aventuras, que no caso português significou na sua maioria cómics enquadrados nos temas de história ou adaptação literária desde que enaltece o espírito nacionalista e o estilo caricatural que é usado no humor ou ainda na aventura humorística. Dentro da linha "realista" houve autores que foram "mestres" desse tipo de desenho embora castrados tematicamente. José Ruy (1930), José Garcês (1928), Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), Fernando Bento (1910-1996) são os nomes mais conhecidos desta geração. Os dois primeiros ainda estão activos, continuando a desenvolver trabalho na essência histórico/didáctico. Contudo a sua época de ouro terá sido nos anos 40 e 50 em jornais como O Mosquito (nome que para algumas gerações é sinónimo de banda desenhada, tal como em Espanha aconteceu com o Tbeo) ou o Mundo de Aventuras. Eduardo Teixeira Coelho acabou por fazer uma carreira internacional. Nos anos 40 colaborou com a revista espanhola Chicos tendo realizado dois cómics para este periódico: El hechicero de los matabeles e Un jinete del oeste. Mais tarde foi para França e Itália trabalhar, tendo sido no ano passado (2005) nomeado para o Prémio de Clássicos no importante Festival de Angoulême. Como curiosidade é de referir que Emílio Freixas nas suas Lecciones del dibujo artístico qualificou Eduardo Teixeira Coelho como "verdadero poeta de la línea". Fernando Bento, por sua vez, conseguiu criar obra em ambos os géneros. O realista e o cómico. O facto do país estar economicamente fechado e politicamente isolado proporcionou a existência de um período (anos 40 - 50) em que era possível as revistas trabalharem quase exclusivamente com autores portugueses, embora nunca se tivesse criado um verdadeiro mercado exclusivo para os autores nacionais muito menos uma indústria. De qualquer forma as eventuais hipóteses de tal suceder viriam a cair nos anos 60 com a invasão dos cómics franco-belga.

Sugerimos:

Rui, José, 1930-

Fernão Mendes Pinto e a sua peregrinação adaptada em banda desenhada / José Ruy. - 3ª ed. - Lisboa : Meribérica-Liber, [1987]. - 55 p. : il., banda desenhada


Teixeira, José Carlos

Contos de Eça de Queiroz / adapt. José Carlos Teixeira ; il. E. T. Coelho. - 3ª ed. Lisboa : Vega, 1993. - 65, 82] p. : il., banda desenhada

972-699-030-0

I - Coelho, Eduardo Teixeira, 1919-2005


Reis, António do Carmo, 1942-

História de Portugal em banda desenhada / argum. A. do Carmo Reis ; des. José Garcês. - 2ª ed. Porto : Asa, 2004. - 255 p. : il., banda desenhada

972-41-3657-4

Garcês, José, 1928-

I - Coelho, Eduardo Teixeira, 1919-2005


Bento, Fernando, 1910-1996

Diabruras da prima Zuca / Fernando Bento ; selec., org., restauro e introd. Manuel Caldas. - Lisboa : Baleiazul, 1998. - 43 p. : il., banda desenhada. - (Bedeteca ; 3)

972-97247-7-6

Fonte:
http://www.absysnet.com/recursos/comics/esp2ptgal.html

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