Thursday, September 30, 2010

A adolescência dos quadrinhos




Com o intuito de atrair o público jovem, mercado de quadrinhos retrata a adolescência de seus personagens infantis. Nem todos os leitores, porém, aceitam a nova fase.

Crianças, filhotes de animais e plantas. Todos crescem. Os personagens das revistas infantis também crescem. Também? Há pouco tempo eles eram os mesmos de 50 anos atrás. A baixinha gorducha e dona da turma, o sujinho, a comilona e o que falava elado. A pequerrucha de cachinhos e líder do grupo e o gorducho. Se você pensou em Turma da Mônica e Luluzinha, parabéns. Você acertou. Além de ficarem mais velhos, os personagens emagreceram junto com a turminha. A tendência pode até parecer novidade, mas não é algo tão recente assim.

A professora Selma Martins, doutora em Letras e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), lê os quadrinhos desde a infância e lembra outras “turmas” que agora também vivem na adolescência. Entre elas, os Jovens Titãs, o Batman do Futuro e o Homem-Aranha na versão mangá. A diferença, segundo a especialista, é o “rejuvenescimento” e não o crescimento dos dois últimos.

O jornalista Paulo Ramos, criador do Blog dos Quadrinhos[1], explica que a tendência vem de fora, especificamente, de editoras norte-americanas. Era comum criarem um parceiro mirim para o super-herói, como por exemplo, o Robin. “Um herói adolescente – e outro personagem da mesma faixa etária – estimulam o leitor mais jovem a se identificar com o que lê”, exemplifica.

Na avaliação do professor Nildo Viana, doutor em Sociologia, “a transformação de personagens infantis em jovens ou adolescentes, é marcado por uma estratégia mercadológica”. Na infância ou juventude, muitos são leitores de determinados quadrinhos e, ao se tornarem adultos, mantém certa nostalgia. O conteúdo ali abordado, contudo, se torna muito pobre e desinteressante. “Daí a necessidade de mudar elementos para manter o público”, destaca.

O pesquisador compara o caso dos super-heróis que, a partir dos anos 1970, ganharam maior complexidade e até caráter político como o Batman, o Lanterna Verde, o Arqueiro Verde, a Mônica e a Luluzinha. “As editoras querem conquistar um novo público infantil e, em alguns casos, manter o público que agora se torna jovem, adequando os personagens às novas temáticas”, esclarece.

Turma da Mônica Jovem

Para atingir esse alvo, foi lançada em agosto de 2008 a Turma da Mônica Jovem. Uma aposta de seu criador, o artista Maurício de Sousa, que vingou. A revista é líder de vendas no mercado brasileiro de quadrinhos. O primeiro número esgotou 57% da tiragem inicial logo na primeira semana de lançamento. Com o sucesso, a editora Panini Comics aumentou a tiragem de 80 para 230 mil exemplares, superando o lançamento da primeira edição em 1970, que chegou à casa dos 200 mil.

O publicitário Marcelo Engster[2], “quadrinhólatra” de carteirinha, rejeita a Turma da Mônica Jovem. “Grande parte das características fundamentais do sucesso da Turma da Mônica foram destruídas. Mesmo assim, tenho de considerar, obviamente, que não faço parte do público-alvo da revista”, admite.

O autor das séries Combo Rangers, Raimundo, Cidadão do Mundo e as Princesas do Mar, Fábio Yabu[3], um admirador inveterado de Mauricio de Sousa, não aceita a forma como a turminha cresceu. Por ocasião do lançamento da Turma da Mônica Jovem, Yabu publicou um desabafo em seu blog[4].

Como todo leitor e fã dos quadrinhos da Mônica, o artista sonhava ver o “crescimento” da turminha. Seus sonhos eram baseados em vislumbres que o autor dava em historinhas aqui e acolá. Entretanto, o que aconteceu com os personagens não corresponde às suas expectativas. “A turma adolescente não aproveita em nada a essência viva dos personagens”, critica o ilustrador.

Na opinião dele, o Cebolinha não é mais “sarcástico e genial, com seus planos infalíveis”, a Mônica perdeu o “carisma” e “renega que já foi baixinha, gorducha”. Ele enumera as mudanças ocorridas e chega à conclusão de que o futuro da turminha amada por ele e por muitos não foi retratado com dignidade.

As mudanças físicas nos personagens são algumas das mudanças mais marcantes. A Mônica, por exemplo, emagreceu e ganhou curvas delineadas. O Cebolinha, que agora quer ser chamado de Cebola, tem mais que os cinco míseros fios de cabelos e uma quedinha pela Mônica. A antiga rivalidade não existe mais – em uma das edições chegam até a protagonizar uma cena de beijo. Magali ainda tem fascínio por comida, porém cuida do peso, e o Cascão toma banho por amor à Cascuda.

Essas novidades não agradaram muito quem cresceu lendo os gibis da turminha. A estudante do ensino médio Paula Prearo conta que estranhou a transição das personagens para a adolescência por causa do estilo mangá. Para ela, “bastaria que a turminha tivesse crescido como adolescentes normais e que dessem continuidade a aventuras da infância sob o ponto de vista da faixa etária”, sugere.

O estilo mangá

O mangá, um dos gêneros da literatura japonesa, é caracterizado por histórias/sagas de personagens em quadrinhos. Ao contrário do Brasil, no Japão os quadrinhos têm um público-alvo mais abrangente. Lá, os mangás são lidos por crianças, jovens e adultos. Em terras brasileiras, o estilo tem uma aceitação considerável entre adolescentes e jovens.

Segundo o professor de História em Quadrinhos, Denis Basílio de Oliveira, que também faz parte do Observatório de História em Quadrinhos da USP, os jovens foram conquistados pelos mangás porque perceberam que esse gênero respeita sua inteligência e traz narrativas que prezam pela qualidade dos desenhos. Oliveira acha que as editoras apostaram no gênero por esta razão. “Como se viu, lançar a Turma da Mônica Jovem e a Luluzinha Teen e Sua Turma no estilo mangá foi certeiro”, reconhece.

Para o jornalista Roberto Pereira Saito[5], que já produziu revistas em quadrinhos, a Turma da Mônica Jovem e a Luluzinha Teen e Sua Turma não são mangás de verdade. “As editoras querem vender essa ideia. O mangá é um estilo mais dinâmico, mais esguio, com muito mais ação e violência”, distingue. Para ele a Turma da Mônica em formato mangá não passa de histórias da Tina e do Rolo mais sofisticadas e com mais movimento. Ramos compartilha da ideia de Saito e acrescenta que o artista Mauricio de Sousa teve o cuidado de inserir na capa de Turma da Mônica Jovem a expressão "em estilo mangá", como uma forma de fazer com que a revista fosse vista e vendida como tal.

Na opinião da professora Selma, o estilo marca essa publicação seguindo a tendência de mercado de "amangazar" tudo para atrair público. Ela relembra o fato ocorrido com as editoras americanas que lançaram versões mangás de seus heróis, o que não deu certo. “Elas usaram apenas as características do traço e diagramação e não adaptaram o fluxo da narrativa, que é o verdadeiro coração do mangá”, compara.

Luluzinha Teen

Também lançada no estilo, Luluzinha Teen e Sua Turma veio na esteira do sucesso da Turma da Mônica Jovem. Criação da cartunista norte-americana Marjorie Henderson Buell (1904-1993), Luluzinha foi uma personagem de muito sucesso no Brasil. Estreou no País em meados dos anos 1950, pela revista O Cruzeiro, e somente em 1974 chegou à editora Abril, até sumir das bancas no início da década de 1990.

Fisicamente, a Luluzinha adolescente não tem nada daquela menina de cachinhos. Pelo contrário, a personagem não resistiu à ditadura da chapinha. O Bola, como é chamado agora, não é mais gordo ou balofo, maneira pela qual a Luluzinha se dirigia a ele. A Aninha se tornou viciada em games e a Glorinha considera-se uma garota fashion.

Além do sucesso nas vendas, a Luluzinha Teen também alavancou críticas severas por parte de cartunistas americanos. Um deles, Jerry Beck, professor de história da animação nas faculdades de Nova York e Los Angeles, critica a Luluzinha Teen e Sua Turma. “O fato de a Luluzinha se tornar adolescente viola a intenção da revista original. Supõe-se que a Luluzinha tem uma inteligência além da sua idade”, explica Beck, que também é produtor de desenhos animados nos canais de TV paga Nickelodeon e Disney Channel.

O alcance do público-alvo

A lógica da adolescência desses quadrinhos, em particular, diz respeito às tendências do mercado, cujas temáticas estão presentes no dia a dia do público alvo dessas revistas. As histórias mencionam celulares, e-mails, internet, DVD, etc. A Luluzinha Teen possui um blog no qual interage com os leitores[6].

Um exemplo é a participação do leitor sugerindo histórias que podem ser publicadas. Para cada postagem, há mais de 90 comentários, dada a repercussão do projeto. Além disso, todos os personagens têm Twitter. As duas revistas citadas nesta reportagem fazem uso da metalinguagem. “Trata-se de uma forma eficiente que as HQs se apropriam para comunicar”, adianta Oliveira. A professora Selma sustenta a mesma opinião, uma vez que a metalinguagem apela muito mais ao adolescente do que à criança.

Os estudantes do ensino médio, Luan Alvares e Isabel Bezerra, cresceram lendo a Turma da Mônica, mas pararam ao se tornarem adolescentes. Ambos se empolgaram com a versão jovem e retomaram a leitura da revista. Os adolescentes reconhecem o falso estilo mangá, porém gostaram da nova cara da turma. Já as irmãs Alana e Thabata Marcondes, do mesmo nível escolar, concordam que os personagens além de não serem mais engraçados, são fúteis e um insulto ao mangás.

Para aqueles que não se conformam com a adolescência da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa disse em entrevista ao site da Editora Abril que isso é perfeitamente normal. O pai da turminha amada compara esta atitude ao que acontece em toda família, quando os pais percebem que a criança cresceu, já está namorando, quer ficar fora de casa mais tempo e prefere mais a companhia dos amigos que a dos pais. No mais, ele assegura que a Turma da Mônica continua para os que não querem vê-la crescendo.


Fonte:
http://www.canaldaimprensa.com.br/leitura.asp?id=0049

No comments: