Thursday, August 19, 2010

Quadrinhos na Universidade


Amanda Meirinho

Tem gente que entra no mundo dos desenhos para não morrer virgem.
Outros porque simplesmente não sabiam fazer outra coisa além de rabiscar por aí.
Uns usam os desenhos para ensinar Física (!) em escolas carentes. Uns, que não
sabem desenhar, roteirizam ou fazem piada da própria vida com as palavras. De
qualquer jeito, uma coisa é certa: ninguém é inocente nesse universo de tiras, charges,
e histórias em quadrinho.


Irreverência, ética, censura prévia: nas páginas de jornal é preciso pensar
muito antes de publicar uma charge. Numa palestra que reunia Aroeira, Alviño, Arnaldo
Branco e Leonardo, a discussão não poderia deixar de cair nesses temas-chave. Afinal,
dizem que essa geração de desenhistas modernos só pensa em “zoar”. Ora essa... e
poderia ser diferente? Juntando dois desenhistas dessa geração moderna com dois
mestres na charge jornalística, um papo animado que rendeu vários conceitos-chave.
Sem papas na língua, Aroeira solta frases como “o papel social do chargista é provar
que esses filhos da puta não são tão sérios quanto parece; portanto, podemos zoá-los
e quem sabe derrubá-los”.
Arnaldo Branco, interrogado diversas vezes sobre seu personagem de
maior sucesso, o Capitão Presença (super-herói cujo único poder é fornecer maconha
para os que não têm), mostra-se um tanto encabulado. Afinal, considera a gênese da
sua criação imbecil demais para ter rendido tanto bafafá. A mesa porém respondeu:
comportamento é política! E é seguindo essa linha que são discutidas as personagens
de Alviño, chargista de esportes que trabalha principalmente com o elemento “torcedor”,
e as personagens de Leonardo, que muitas vezes fogem totalmente ao seu controle.
Arrancar uma gargalhada ou uma lágrima não é fácil não!
Já quando o papo é underground, nada melhor que incluir um nome das
antigas entre os editores e colaboradores de três produções independentes. Sérgio
Cabral, ex-membro do Pasquim, contou com fala baixa e mansa anedotas do tempo
da irreverente publicação, relembrando os tempos da ditadura militar e fazendo troça
dos censores. Como precisou sair cedo, a mesa acabou sendo dominada pelos expoentes
da nova geração. Os rapazes da Mosh!, Lobo e Renato Lima, apresentaram o discurso
de quem sabe o que faz, contando a história de sua publicação, nascida de maneira
totalmente independente em um curso de extensão da universidade Estácio de Sá e
agora uma espécie de cult entre os roqueiros, principalmente do Sul e Sudeste do
país. Chegaram até a levar o prêmio de melhor revista independente do Brasil!
A galera da Tarja Preta, encabeçada pelo editor Matias Maxx (que é,
aliás, modelo, para a criação do Capitão Presença) e Arnaldo Branco, bateu um papo
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não tão objetivo quanto o dos rapazes da Mosh!, centrando-se principalmente na
questão da liberação das drogas e a irreverência nas criações que não são apoiadas
por burocratas e marketeiros. Por vezes soaram confusos, porém, quem conhece
sua publicação entende bem sua “zoação”.
Luimar Duarte conversou sobre sua revista, a Banda Grossa, que é
promovida pela Semana de Quadrinhos, revelando que grande parte dos criadores
dos trabalhos mais chocantes da revista, baseada no mais puro escracho, é feita por
alunos do curso de HQ por ele ministrado – alguns ainda nem entrados na puberdade.
Agora, para falar de história, educação e cultura nas HQs, nada melhor
do que chamar especialistas no ramo. Valdomiro Vergueiro, professor da ECA-USP, e
Moacy Cirne, professor da UFF, dividiram a mesa com Chico Caruso e discutiram a
crescente crise de identidade da cultura brasileira no mundo das HQs. Caruso, que se
manteve calado a maior parte do tempo ante a discussão teórica dos dois mestres,
mostrou seu projeto de alavancar o interesse de crianças carentes por matérias
“impopulares” como Física (Caruso é formado na disciplina) através da criação de
HQs entre os alunos. Moacy várias vezes perdeu-se em divagações sobre a cultura
brasileira, principalmente sobre o Nordeste, sua terra natal, e a crescente americanização
de cidades como Natal, enquanto Vergueiro centrou-se nas teorias de Stuart Hall
sobre a identidade cultural na pós-modernidade.
A exposição foi complementada por Octavio Aração e Carlos Patati,
ambos grandes conhecedores da história da HQ no mundo, na palestra cujo tema era
“Linguagem e estética na HQ e artes seqüenciais”. Perceber a falta de uma produção
nacional forte em HQ fora de Turma da Mônica e criar uma identidade totalmente
inovadora a partir dela são o grande desafio dos artistas. Patati, em discurso forte e
marcante, relatou sua experiência como roteirista, Aragão apresentou sua graphic
novel The Long Yesterday (paródia dos filmes noir americanos), e foram assim ilustrando
suas contribuições para a perpetuação da HQ, sem ser a de humor, em território
nacional. Dividiram a mesa com Anna Fortuna, escritora do Pasquim XXI e criadora
da escrachada mulher-cartum, e Adão Iturrusgarai, criador da popular Aline, a menina
de dois namorados.
Ana revelou sua dificuldade de fazer rir apenas com texto, ao passo que
Adão, que passou a maior parte do tempo esboçando personagens a partir de
espectadores na platéia, apresentou um discurso simples, um tanto atrapalhado, no
qual ressaltou a casualidade de suas criações. Arrancou inesperadamente gargalhadas
da platéia quando foi levada à baila a questão de sua personagem, o caubói gay Rock
Hudson, e a recente produção Brokeback Mountain: com certeza, uma das palestras
mais divertidas do evento.
ECO-PÓS- v.8, n.2, agosto-dezembro 2005, pp.148-155 151
Para falar sobre HQs, cinema e internet, nada melhor do que chamar
Miguel Paiva, cujas obras Radical Chic, Ed Mort e o Gatão de Meia-Idade já se
tornaram filme e séries televisivas, Maurício Ricardo, o criador das divertidas charges
e paródias animadas no site da UOL, e Túlio Navega, que possui um blog centrado
em HQ no globo.com. Paiva comentou que muitas vezes, para o cinema, falta senso
de humor, afirmando que é dificílimo manter engraçada uma piada transferida do
papel para a telinha sem perder o conteúdo. Maurício Ricardo mostrou alguns de
seus trabalhos no datashow do auditório, esbanjando bom humor e feeling para a
animação em flash via Internet, e Navega, um tanto tímido, discutiu seu papel como
formador de opinião via blog.
Quando perguntados a respeito da inspiração, Maurício lembrou uma
famosa frase de Henfil: “Inspiração é um cachorro preto chamado deadline”. Tem
de ter culhões para admitir isso diante de um auditório recheado de aspirantes a
profissionais no mercado de HQ.
Resta sempre a eterna discussão levada à baila por Marcelo Marão,
professor da PUC-Rio, Marcos Magalhães, organizador do Anima Mundi, Antonio
Moreno, professor da UFF, e Allan Sieber, colaborador, desenhista e roteirista dos
estúdios Tosco Graphics, das revistas Tarja Preta, F!, Sexy, Trip, etc.: seria a
animação uma evolução dos quadrinhos? A discussão tomou um viés por demais
didático, graças à exposição do professor Antonio Moreno, porém explicativo. Afinal,
é preciso conscientizar o público quanto às diferenças e semelhanças entre os dois
tipos de arte.
“Cinema é arte coletiva, animação é individual”, disse Marcos
Magalhães. Com certeza, essa frase resume de maneira geral a grande discussão da
última palestra. A platéia se mostrava interessada principalmente nos trabalhos de
Sieber, mais populares entre os jovens, que, assim como os outros artistas, não
sabia exatamente se expressar.
Por fim, tivemos o show informalíssimo dos Optimistas, banda que
contava com a presença dos palestrantes Aroeira e Marcos Magalhães, dentro do
diminuto espaço do Sujinho. Mesmo depois de tanta chuva, frio e cansaço, a galera
ainda teve forças para se divertir. Com certeza, foi um gran finale tão bom ou
melhor do que se poderia ter imaginado.


Fonte:
http://www.pos.eco.ufrj.br/ojs-2.2.2/index.php/revista/article/viewFile/170/157

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