Monday, August 30, 2010

Quadrinhos na aula e no jornal



A Folha podia ter analisado livro qualificado por autoridades como "um horror'; não há horror absoluto quando se trata de arte



NA TERÇA-FEIRA , reportagem revelou a compra para distribuição a alunos da terceira série do ensino fundamental da rede pública estadual de ensino em São Paulo de livro de histórias em quadrinhos com palavras de baixo calão e alusões sexuais.

Embora o texto não fizesse acusações aos autores ou editores do álbum, que foi produzido há sete anos e tinha como alvo o público adulto, não poucos leitores ficaram com má impressão deles. Fez bem o jornal na sexta em dar na seção "Tendências/Debates", artigo que explicitava o óbvi quadrinhos não são só para crianças.

Podia ter feito mais do que isso. Podia ter analisado o livro, que foi qualificado por autoridades públicas como "um horror". O "horror" depende de qual é o destinatário do trabalho artístico, entre outros elementos. Não há horror absoluto quando se trata de arte.

Também poderia ter discutido a utilização de HQs como instrumento pedagógico, como fez a educadora Doralice Araújo em seu blog http://portal.rpc.com.br/ gazetadopovo/blog/namira/.
Leitora diária e muito crítica da Folha, Doralice Araújo levanta assunto importante para o jornal: "Mesmo os cadernos jornalísticos que publicam tiras ou charges pouco apropriadas aos pequenos leitores devem ficar atentos, porque ao contrário de disseminar a leitura desse gênero fazem uma associação com o ignóbil, o chiste abusado e a insolência disfarçada em risos e insultos descabidos".
Recebo muitas reclamações de leitores contra HQs consideradas ofensivas, sexistas, de mau gosto, publicadas pelo jornal, em especial no suplemento Folhateen.

Indaguei da Redação como ela harmoniza a denúncia das HQs na rede de ensino com as suas próprias, acusadas de propriedades similares. Recebi a resposta (com a qual concordo) de que são coisas muito diversas: "As HQs do Folhateen são voltadas para adolescentes, dentro de um produto (o jornal), comprado pelo leitor".

Este caso me dá a chance de saldar antiga dívida com alguns leitores que há muito me pedem para abordar o tema das HQs do jornal. Alexandre Carvalho, Antonio de Padua Correa, Delano Valadares, Maurício Ferraro foram alguns dos que se queixaram do que consideram "falta de criatividade" nas tiras da Folha nos últimos meses.

Os autores discordam. Angeli diz que eles estão é se renovando e que "mudar em uma coluna diária é como trocar de roupa andando, à vista de todo mundo". Laerte acha que as pessoas estranham o que não é o esperado, mas que é bom que "haja lugar para a tira tradicional e para o experimento". Concordo com eles.



(*) Carlos Eduardo Lins da Silva é o ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2008. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

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O ARTIGO

O óbvio: quadrinhos não são só para crianças


PAULO RAMOS e WALDOMIRO VERGUEIRO

Por trás dessa questão, parece estar um olhar ainda estreito sobre as histórias em quadrinhos, herdado das décadas de 1940 e 1950

REPORTAGEM DESTA Folha publicada na última terça-feira (dia19) revelou que uma obra em quadrinhos com palavrões e conotação sexual seria distribuída pelo governo paulista a alunos do terceiro ano do ensino fundamental. Em nota, a administração estadual reconheceu a falha e mandou recolher os 1.216 exemplares adquiridos.
O governador José Serra prometeu punição aos responsáveis e instaurou uma sindicância. Em entrevista ao telejornal "SPTV - 1ª Edição", da TV Globo, classificou o livro em quadrinhos como um "horror", obra de "muito mau gosto".
É preciso olhar criticamente esse noticiário, pois corre o risco de haver generalizações e reprodução de discursos antigos a respeito das histórias em quadrinhos. É o caso da associação delas somente às crianças.
A obra em pauta -"Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol"- não é direcionada ao público infantil. O álbum foi pensado para o leitor adulto, como confirmam o organizador da publicação, o ilustrador Orlando Pedroso, e outros desenhistas do livro.
O governo de São Paulo acerta ao não distribuir a obra a estudantes de nove anos. Nessa idade, o aluno não está preparado para uma leitura nesses moldes. Seria um desserviço pedagógico. Mas parece estar por trás dessa questão um olhar ainda estreito sobre as histórias em quadrinhos, herdado das décadas de 1940 e 1950.
Tal olhar ainda está presente também em parte da imprensa. Reportagem sobre o assunto, exibida na edição noturna do "SPTV", começava com a frase "as histórias são em quadrinhos, mas o conteúdo não tem nada de infantil". É um discurso que enxerga a linguagem como feita exclusivamente para crianças. É claro que o conteúdo não é infantil: a obra foi direcionada ao leitor adulto. A falha, assumida pelo governo do Estado, foi direcioná-la ao ensino fundamental.
Os quadrinhos, assim como a literatura, o teatro e o cinema, possuem uma diversidade de gêneros. Um deles é o infantil, do qual faz parte a Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. Mas há muitas outras produções, direcionadas a diferentes leitores. Inclusive aos adultos, como provam muitas livrarias e as tiras publicadas neste jornal.
O mesmo discurso tende a ver os quadrinhos de forma infantilizada ou não séria. Essa generalização evidencia desconhecimento sobre as histórias em quadrinhos e sua produção e afastou das escolas, por décadas, essa forma de leitura.
Os primeiros passos para a inclusão "oficial" dos quadrinhos no ensino ocorreram no fim do século passado com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e, pouco depois, nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o atual secretário estadual da Educação, Paulo Renato Souza, era ministro da Educação e do Desporto. Os parâmetros traziam orientações para as práticas pedagógicas dos ensinos fundamental e médio.
Outra medida que levou as obras em quadrinhos às escolas ocorreu na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A partir de 2006, publicações em quadrinhos foram incluídas na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), que distribui livros para escolas de todo o país. A prática foi repetida nos anos seguintes e também no edital deste ano.
Em 2008, a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", do Instituto Pró-Livro, revelou que as histórias em quadrinhos encontram forte eco entre os brasileiros. É o gênero mais lido entre os homens e o sétimo mais listado pelas mulheres. Especificamente entre estudantes até a quarta série, os quadrinhos são o terceiro item mais mencionado (36%).
São corretas as iniciativas de levar histórias em quadrinhos à sala de aula e ao roteiro de leitura dos estudantes. No entanto, há dois cuidados que deveriam ser óbvios, mas que o noticiário recente revelou que não são. O primeiro é haver uma seleção do material, de modo a separar as obras de melhor qualidade e destiná-las a seu público ideal. "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" tem qualidade. Mas não é destinada ao leitor juvenil.
O segundo cuidado é o de não associar as histórias em quadrinhos somente ao público infantil. Do contrário, corre-se o risco de repetir a falha agora vista e de generalizar discursos adormecidos, que são despertados em situações-limite como essa.





PAULO RAMOS, 37, é jornalista e professor adjunto do curso de letras da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo). É autor de "A Leitura dos Quadrinhos".
WALDOMIRO VERGUEIRO, 52, é professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP e coordenador do Observatório das Histórias em Quadrinhos, da mesma universidade. É organizador do livro "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula".


Fonte:
http://www.lucianopires.com.br/idealbb/view.asp?topicID=11260

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