Thursday, August 19, 2010

Mangá pode ser um recurso dinâmico para auxiliar alunos no aprendizado do idioma japonês




Revista mensal You, publicada pela Shueisha, uma das 3 grandes editoras do mercado de mangá

Moyoko Anno, autora de histórias para meninas, hoje, publica Hataraki Man (ao lado) em revista de mangás para homens

Acima, Kumo wo Koroshita Otoko, de Ichiko Ima, autora que tem se inspirado em lendas do Japão e da China

(Reportagem: Erika Horigoshi |
Contextualizar melhor uma situação prática, ter contato com expressões idiomáticas e onomatopeias. Verificar, com o auxílio visual, a aplicação de determinadas regras e formas de tratamento que a linguagem oral acompanha. Essas são apenas algumas das finalidades com as quais o mangá, os famosos quadrinhos japoneses, pode ser utilizado para incentivar alunos a estudar e a aprimorar o estudo da língua japonesa. “O mangá utiliza um recurso visual bastante expressivo, é rico em sinais, expressões faciais dos personagens, metáforas e onomatopeias. Desde que ele não seja a única forma de aprendizado e que faça parte de um estudo orientado, há muitos pontos positivos”, explica a professora Leiko Matsubara Morales, do Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo (USP).

Das bancas para as escolas

A ideia é boa e, como dizem os professores, produz um resultado eficaz. Entretanto, antes de levar o mangá para a sala de aula, é necessário considerar alguns fatores importantes, a fim de não prejudicar o processo de aprendizado do aluno. “O mangá, tal como é vendido no mercado, sem nenhum tipo de adaptação para servir como material de ensino, é um recurso extra, mas não serve como livro-texto principal, especialmente para os níveis básicos, assim como os gibis brasileiros não servem como livro-texto principal para ensinar o português a estrangeiros que não tenham nenhuma noção do idioma”, ressalta a diretora-geral de ensino da Aliança Cultural Brasil-Japão, Jaqueline Nabeta.

De acordo com Jaqueline, é necessário fazer adaptações dos quadrinhos japoneses para sua utilização em aula, ou até mesmo o desenvolvimento de um “livro-mangá-didático”, como alguns títulos já existentes no mercado editorial. “Nunca usei o mangá propriamente dito em sala de aula. O material que empreguei foi um livro desenvolvido com as características do mangá, como os desenhos, por exemplo. O apelo visual é muito bom, além de deixar a aula mais divertida”, conta.

Já a professora Ayako Akamine, do Centro de Línguas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) teve uma experiência interessante com seus alunos envolvendo o Shôjo Mangá (os quadrinhos para meninas no Japão) para tratar do cotidiano familiar e da relação com amigos no arquipélago. “Em uma turma do nível básico 2, utilizei duas páginas de um shôjo mangá. Como a história tratava do cotidiano vivido entre amigos e familiares, acabei usando [os quadrinhos] como um instrumento para exemplificar o uso da linguagem informal”, lembra. No entanto, a professora faz uma observação: “Cabe ressaltar que a narrativa possuía uma linguagem simples e era bem próxima à realidade”.

Ferramenta de ensino

Se bem administrado, o mangá pode se converter no maior auxiliar do professor em sala de aula. E isso também pode se aplicar àqueles que querem aprender a língua japonesa por conta própria. “Para quem estuda como autodidata, [o mangá] tem sido uma ótima ferramenta para acelerar o processo de aprendizado para aquisição de vocabulário”, enfatiza Leiko. Mas a professora da USP observa também um fator importante, se esse processo for marcado por uma ampla influência do mangá sobre o aprendizado do aluno: “Muitas vezes, há pessoas que acabam adquirindo o japonês muito informal e coloquial, deixando de evoluir no domínio da forma padrão da língua”.

Jaqueline, por sua vez, destaca prós e contras que devem ser considerados para um ensino eficiente. “O mangá é um bom recurso para ensinar onomatopeias em japonês e para elucidar diferentes escritas do idioma [os silabários hiragana, katakana e mesmo o kanji] e suas utilizações. No entanto, é preciso atentar para casos de pessoas que acabam falando bem o japonês, mas só sabem se expressar como um personagem de mangá ou de animê.”

O equilíbrio para o aproveitamento do mangá como um incentivo a mais na hora de estudar japonês está, em grande parte, nas mãos do professor. “Existem diversos tipos de mangá, cada qual explorando situações e universos diferentes, com a vantagem de estarem contextualizados em imagens. Dessa forma, há como utilizá-los para ilustrar o uso da língua japonesa em determinados contextos, bem como algum aspecto cultural ou social – o que exige do professor um preparo cuidadoso na seleção do material, sempre considerando sua adequação ao nível do curso e à quantidade de informação nela inserida”, analisa Ayako.


É bom ressaltar
• Os recursos visuais das histórias em quadrinhos japonesas permitem a contextualização das situações do cotidiano e aproximam do universo do aluno situações não necessariamente familiares a ele.

• O apoio do mangá em sala de aula pode aumentar o interesse de aprendizado por parte dos alunos.

• Essas HQs proporcionam a exploração eficaz de onomatopeias e gírias, sugerindo aplicações práticas para cada uma delas.

• O mangá pode ser uma ótima ferramenta para auxiliar o aluno na ampliação do vocabulário.

• Trata-se de uma fonte de estudos interessantes, que exemplifica o emprego do padrão informal da linguagem e desse tipo de tratamento social no Japão.


Procure evitar
• As histórias em quadrinhos japonesas devem ser sempre um apoio, e nunca servir como o livro-texto principal para o ensino do idioma.

• É preciso alertar o aluno para a necessidade de assimilar a linguagem padrão do japonês, e não apenas o universo coloquial do idioma que o mangá lhe oferece.

• Não se deve perder de vista o fato de que o mangá, tal como é vendido no mercado atualmente, não é adaptado para material de ensino; cabe ao professor estabelecer um objetivo claro para o seu emprego em sala de aula.

• Ao optar pela utilização do mangá como apoio ao ensino do idioma japonês, o professor deve considerar que o desafio a ser proposto aos alunos deve estar condizente com o nível da turma.

• Recomenda-se que a utilização de fontes auxiliares para o incentivo ao estudo do idioma não se restrinja apenas ao mangá. O ideal é que o aluno tenha bem clara a noção de que a linguagem empregada nos quadrinhos corresponde a somente um tipo de utilização da língua no Japão.

Fonte:
http://www.zashi.com.br/zashi_especial/509.php

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