Tuesday, August 24, 2010

Há um preconceito em relação aos quadrinhos


Por Nahima Maciel

São abordagens muito diferentes entre si os trabalhos propostos pelos artistas Eduardo Belga, Taigo Meireles, Pritama Brússolo, Denise Costa, Moisés Crivelaro, Raquel Nava e Josias Martins em Pele e osso. Em cartaz na galeria Espaço Piloto, a exposição reúne trabalhos resultantes de pesquisa de mestrado no Instituto de Artes da Universidade de Brasília (IDA/UnB), trabalhos cujo diálogo se dá apenas pela característica orgânica presente em cada uma das obras. “Temos uma variação grande de temas”, avisa Belga. “Cada um produziu o que estava pesquisando sem se forçar a uma linha curatorial e a única coisa que conseguimos levantar de comum entre todos é a organicidade.” Obra de Eduardo Belga, que privilegia o grotesco em série inspirada em fábulas e contos infantis Afinidades, no entanto, são bem comuns entre os sete artistas. Belga, Martins, Meireles e Crivelaro são assumidamente figurativos. Peles e ossos de fato povoam suas pinturas. Moisés Crivelaro carrega na tinta expressionista, e Josias Martins tende a uma pintura mais hiperrealista, enquanto Belga privilegia o grotesco em série inspirada na investigação dos textos originais de fábulas e contos infantis.O artista arrisca experiências ao pintar narrativas sequenciais inspiradas em quadrinhos sobre um retábulo, suporte usado tradicionalmente em pinturas religiosas. “Nesse meio de galeria e academia de arte, há um preconceito em relação aos quadrinhos. Estou ansioso para ver a repercussão. Quem trabalha com quadrinhos e vai fazer uma monografia tem que ficar defendendo que HQ é arte. Eu quero pular essa etapa”, diz. No tríptico Estupro gentil, ele aproveita para ousar e inverte a lógica da fábula. “Em vez de um animal contar uma história de homens, é o homem quem conta uma história animalesca”, adianta.Direções variadasNas obras propostas por Raquel Nava e Denise Costa, o diálogo segue os rumos da abstração e a organicidade é explorada com um sentido mais poético. Raquel cobre suas telas de esmalte sintético e deixa a tinta escorrer em direções variadas. A partir desses caminhos naturais, ela cria desenhos com pincel. Com frequência, os traçados lembram órgãos genitais femininos. “Não é uma coisa condicionada. Não faço esboço, sem querer essas formas vão surgindo”, avisa.Denise trabalha com colagens de papéis e pinta na própria parede da galeria. Organiza tudo de maneira a lembrar cortes de camadas de minerais. À artista, interessa o acúmulo de camadas responsáveis pelo crescimento natural das pedras. Estas representam o contrário dos seres orgânicos, cujo desenvolvimento se dá de dentro para fora. “Os minerais me servem de metáfora das nossas experiências de vida que vão se formando e se acumulando”, explica.Pritama Brussolo é autora da única instalação de Pele e osso e a mais literal quando se trata da suposta organicidade que une os trabalhos dos sete artistas. Corpo e escultura, um conjunto de manequins construídos com roupas usadas e cabeças de ossos de animais, nasceu de pesquisa no Instituto de Saúde Mental do Riacho Fundo. Pritama visita o local uma vez por semana para realizar oficinas com os internos e veste os manequins com roupas confeccionadas de acordo com o teor das histórias coletadas. “As esculturas seriam os delírios que eles vão me contando”, diz. “Escolho as roupas em brechós porque quero peças que tenham memória. Cada escultura é uma releitura.”Os ossos utilizados no lugar das cabeças dos manequins também são uma citação referente a ambientes psiquiátricos. Há oito anos, Pritama se deparou com uma história grotesca. Durante escavação nas fundações de uma clínica psiquiátrica desativada pela Secretaria de Cultura, técnicos encontraram corpos de 60 pacientes enterrados como anônimos. “Eles não tinham mais vínculos familiares nem identidade, mas a clínica preferiu enterrá-los lá mesmo para continuar recebendo o INSS”, lembra a artista. Desde então, impressionada pelo descaso, Pritama recolhe ossos de animais pelos locais onde passa e utiliza o material em instalações como Corpo e escultura.Pele e ossoExposição de Eduardo Belga, Taigo Meireles, Pritama Brússolo, Denise Costa, Moisés Crivelaro, Raquel Nava e Josias Martins. Visitação até 14 de agosto, de segunda a sexta, das 9h às 19h, e sábado, das 9h às 13h, na galeria Espaço Piloto (Edifício de Oficinas Especiais, Bloco A, Câmpus da UnB).


Fonte: Correio Braziliense Online
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/07/22/diversaoearte,i=203762/A+PARTIR+DE+PROPOSTAS+AUTONOMAS+SETE+ARTISTAS+DO+DF+DIALOGAM+COM+AFINIDADE+NA+MOSTRA+PELE+E+OSSO.shtml

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