Tuesday, August 31, 2010

Diretório geral das histórias em quadrinhos no Brasil


A nona arte
Edição Impressa 110 - Abril 2005
(Página 3 de 3)
Chegou-se também a se pensar numa emenda à Constituição que "combatesse os excessos das editoras de quadrinhos". Lacerda, embora contrário à medida, atacou com ainda mais força: "A idéia dessas revistas é que o crime seja uma condição normal de vida. Há a idéia de que a vida passa num plano superior a todas as contingências humanas e, ao mesmo tempo, ignorante de todas as onipotências divinas. Deus não admite super-homens, supermacacos ou super-Robertos Marinhos". A luta esquentava. Orlando Dantas, de O Diário de Notícias, e Samuel Wainer, de Última Hora, dedicaram várias páginas para mostrar que os quadrinhos eram "fábricas de criminosos mirins" e os gibis, "verdadeiros manuais de crime". "Por causa de uma desavença entre Marinho e Dantas pela liderança no mercado de jornais, institucionalizou-se a repressão aos quadrinhos no país. Não creio que padres e professores conseguissem fazer tanto barulho e pressão se os adversários de Marinho não o tivessem atacado por causa de suas revistas em quadrinhos."

Uma reportagem da época contava como, num reformatório, ofereceu-se a um adolescente negro, Lilico, o "terror dos subúrbios", livros de Monteiro Lobato. "Isso é coisa para fedelho. Eu quero Gibi, O Guri. Quero histórias com tiros e facadas", teria respondido o moço, assegurava o artigo. "O preconceito atual às HQs é uma herança maldita desses tempos. Ainda hoje é muito grande, mesmo nas faculdades de comunicação", lamenta Gonçalo. Depois dos moralistas, os quadrinhos sofreram o ataque nacionalista. Em 1961, os quadrinhistas nacionais, entre eles Ziraldo, autor de Pererê, e Mauricio de Sousa, pai da Mônica, exigiram do governo uma lei de nacionalização das HQs, que incluía reserva de mercado de 70% para os brasileiros. O primeiro a abraçar a causa foi Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, que subsidiou HQs nacionais. "Parte dos textos das revistas era panfletária e comprometida com as idéias nacionalistas de Brizola."

Em 1963, Goulart assinou um decreto-lei que "disciplinava a produção de revistas em quadrinhos no país", ato confirmado pelos militares em 1966, mas jamais aplicado. "Os artistas nacionais também quiseram criar em sua associação um departamento de censura aos quadrinhos americanos", revela Gonçalo. Entre os "censores" estava Ziraldo, tão combatido durante a ditadura. "Tudo foi fruto de uma falta de visão profissional que permanece entre nós. Há quem ainda diga que os syndicates dominam o mercado e asfixiam nossos pobres artistas. Ora, eles desapareceram do mercado e nem por isso a situação é boa. Os quadrinhos passam por seu pior momento em mais de um século de história", avisa. "Nos anos 1970, a revista que vendesse menos do que 200 mil exemplares sumia. Nos 1990, a 'linha vermelha' estava nos 55 mil e, agora, as editoras imprimem de 2 mil a 5 mil."

Gonçalo lamenta o que chama de "arrogância" de muitos quadrinhistas nacionais que escondem suas deficiências atrás da suposta "ameaça estrangeira". "Eles desprezam a qualidade dos roteiros e não buscam meios profissionais de produção. Ainda somos amadores, provincianos." Se o tal "imperialismo" das HQs é duvidoso, um fato é inegável para o autor: "Os quadrinhos foram muito importantes na difusão da cultura americana no país. Nossas crianças cresceram lendo quadrinhos americanos". E, talvez, tenham ganhado outros vícios. Selma Regina Oliveira, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), defende em sua tese de doutorado, Mulher ao quadrado, que os quadrinhos americanos ajudaram a reforçar estereótipos sexistas ao mostrar mocinhas indefesas, virginais, sempre precisando da ajuda dos super-heróis, por sua vez homens fortes, deuses perfeitos. Mesmo vilãs fascinantes como a Mulher-Gato, diz, dependem no final de um Homem-Morcego para sair das enrascadas. "A mulher má dos quadrinhos é mais instigante que a boazinha, mas o homem fica sempre com a última", nota a pesquisadora. Há muito balão a ser decifrado e, ao contrário do que mamãe dizia, parece ter chegado a hora de pegar os gibis e estudar.

O Projeto

Diretório geral das histórias em quadrinhos no Brasil

Modalidade

Linha Regular de Auxílio à Pesquisa

Coordenador

Waldomiro de Castro Vergueiro - ECA/USP

Fonte:
http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=23&bd=1&pg=3&lg=

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