Sunday, March 22, 2009

O Tico-Tico nasceu no dia 11 de outubro de 1905


A revista O Tico-Tico é, sem dúvida, um título emblemático das publicações voltadas à infância, mas que muita gente grande também curtiu.

No início do século XX, o Brasil ainda tinha uma grande influência européia, em particular da cultura francesa, e veio justamente deste país a inspiração para se lançar O Tico-Tico, seguindo a linha da revista La Semaine de Suzette.

O Tico-Tico nasceu no dia 11 de outubro de 1905, com tiragem de 21 mil exemplares. Com o sucesso, logo chegaria a 30 mil, na 11ª edição. A revista trazia já nos primeiros números quatro páginas em cores, sendo as demais com impressão monocromática, em tom de vermelho, azul ou verde, em vez de preto.

Não se tratava de uma revista como as de hoje, dedicadas inteiramente a um personagem ou grupo de heróis. Era uma publicação que reunia diversas expressões culturais, com ênfase na literatura, mas que abria um generoso espaço para os quadrinhos, arte que começava a se firmar no país.

Os editores procuravam enriquecer o acervo cultural de seu jovem público com informações diversas e entretenimentos, como poesias, contos, jogos, atrações educativas, referências a datas históricas, além de textos sobre as séries mais populares do cinema, partituras, letras de músicas e até peças teatrais.

Os leitores se encontravam na seção de correspondência, trocavam experiências, tinham suas fotografias e desenhos publicados. Os passatempos traziam enigmas, adivinhações e concursos que desafiavam a perspicácia do público. Gaiola do Tico-Tico e Lições do Vovô traziam informações científicas, de moral e cívica, artes, geografia e matemática.

O caráter didático da publicação estava presente em toda sua linha editorial, mas de maneira natural, inserida nos contos, brincadeiras, jogos e quadrinhos, colaborando na formação de várias gerações de crianças e jovens.

Para ampliar o estímulo à leitura, O Malho, editora da revista, criou a Biblioteca Infantil de O Tico-Tico, com a participação de grandes escritores brasileiros. A leitura agradável em livros ricamente ilustrados atraía os fãs divertindo e educando. Luiz Sá chegou a escrever para a coleção as histórias de Réco-Réco, Bolão e Azeitona, personagens que ele já imortalizara nas histórias em quadrinhos.

Os personagens mais queridos dos filmes de faroeste também tinham lugar na revista, com pequenos textos ilustrados. Tom Mix, Roy Rogers e Rin-Tin-Tin faziam a festa dos garotos em sua materialidade impressa.

A diversão era um elemento importante para a sedução da gurizada e para a facilitação da aprendizagem. Os jogos de recortar e montar abriam possibilidades narrativas múltiplas, fazendo com que os leitores criassem suas próprias versões para os textos apresentados.

Em 1918 foi publicado o primeiro jogo de recortar e colar, com uma história completa de Chiquinho, personagem de quadrinhos muito apreciado.

É bom lembrar que os quadrinhos no Brasil surgiram ainda no século XIX, nas mãos do ítalo-brasileiro Angelo Agostini. Dentre outros, o autor criou As aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma viagem à Corte, cujo primeiro capítulo foi publicado na revista Vida Fluminense, em 30 de janeiro de 1869.

A importância da obra de Agostini é tão grande que Nhô-Quim passou a ser o símbolo de nossos quadrinhos e o dia 30 de janeiro a data comemorativa das HQs nacionais. Sempre atuante na florescente imprensa brasileira, ele foi o criador gráfico do logotipo de O Tico-Tico, no qual participou também com capas, ilustrações e histórias em quadrinhos, a exemplo de História do Macaco e Chico Caçador, publicada na nona edição e a História do Pai João.



Os quadrinhos brasileiros eram, portanto, uma realidade quando do lançamento de O Tico-Tico e o seu reconhecimento estava isento do preconceito que recairia sobre essa arte anos mais tarde.

Ao lado da literatura, dos textos educativos e dos jogos didáticos, os quadrinhos em O Tico-Tico tinham uma linguagem envolvente para o público infantil, facilitando a leitura textual e contribuindo para a disseminação dos códigos visuais que viriam a predominar no decorrer do século.

Os cartunistas brasileiros figuram desde o primeiro número da revista. João Batista Ramos Lobão publicou nesta edição a história em quadrinhos Manda quem pode, composta por seis quadros com texto-legenda. A historieta, na qual alguns garotos reclamam uma publicação impressa para si, seria uma resposta à demanda do público, que cobrava um título dedicado à infância.

Muitos fatos curiosos ocorreram na longa trajetória de O Tico-Tico. A primeira edição, lançada em 11 de outubro de 1905 foi atribuída a uma quinta-feira, quando o certo seria quarta-feira - data em que chegava às bancas. O erro viria a ser corrigido apenas na edição do cinqüentenário da revista.

Outra curiosidade é que um dos personagens mais queridos da revista era tida como brasileiro, mas teve sua origem nos Estados Unidos. Chiquinho, seu cãozinho Jagunço e a garota Lili eram, na verdade, uma cópia de Buster Brown, Tige e Mary-Jane, de Richard F. Outcault, autor do também conhecido Yellow Kid, ou Garoto Amarelo.

O fato é que Chiquinho, apesar de seu um decalque, já trazia alguns elementos originais, modificando as características de Buster Brown. Com a Primeira Guerra Mundial, quando os quadrinhos norte-americanos deixaram de chegar ao Brasil, o personagem ganhou ainda mais brasilidade. Emprestaram seu traço ao encapetado guri os desenhistas Luís Gomes Loureiro, Augusto Rocha, Paulo Affonso, Alfredo Storni, seu filho Osvaldo Storni e Miguel Hochman.

Aliás, coube a Luís Gomes Loureiro a tarefa de adaptar Buster Brown para a realidade brasileira, situando-o no ambiente local e dando-lhe um lastro de cultura nacional. Um de seus grandes méritos foi a criação da personagem Benjamin, que acompanhava as aventuras do protagonista.

Benjamin, que estreou em 1915, era um moleque negro inspirado num criado da casa de Loureiro. Nas palavras do próprio autor, em entrevista concedida à Revista da Semana, em 31 de março de 1945, o terrível infante tinha os plano mais demolidores para as molecagens da turma, o que levava Chiquinho a temer que as idéias do negrinho dessem na clássica surra de escova com que o pai coroava sempre as suas aventuras.

Chiquinho tornou-se um personagem muito querido dos leitores de O Tico-Tico. Uma prova inconteste de sua adaptação à realidade brasileira é que, mesmo depois da morte de Outcault e do desaparecimento de Buster Brown, ele continuou sendo produzido no país, tornando-se uma das marcas da revista.

O decalque das historietas era prática comum na época, sendo as revistas infantis francesas e a difusão dos quadrinhos norte-americanos a fonte para todo tipo de adaptação e cópia. Este procedimento, contudo, não deixou de trazer bons frutos para os quadrinhos nacionais, revelando artistas como J. Carlos, Max Yantok, Léo, Théo, Lino Borges, Luiz Sá, Daniel Cícero, Percy Deane, Messias de Mello, André Le Blanc, entre outros.

Em O Tico-Tico foi publicada também a série O talento de Juquinha, do carioca José Carlos de Brito e Cunha, mais conhecido por J. Carlos, considerado um dos maiores nomes dos quadrinhos e do humor gráfico brasileiros. Ele esteve à frente da revista desde o início e foi um de seus maiores ilustradores, criando ainda os personagens Jujuba e seu pai, Carrapicho e a negrinha Lamparina, que é considerada sua maior criação nas HQs.

Alfredo Storni apresentou As mentiras de Manduca. Max Yantok publicou a partir de 1910 Kaximbown, tornando-se um de nossos principais caricaturistas. Alfredo Storni trouxe seu desastrado Zé Macaco, ao lado de Faustina, personagens criadas em 1908 que se tornaram muito populares. Mas, sem dúvida, um dos grandes destaques da revista foi a série Réco-Réco, Bolão e Azeitona, obra imortal de Luiz Sá, com seu inconfundível traço sinuoso.

O cearense Luiz Sá estreou na edição 1331, em 8 de abril de 1931, colaborando com a publicação por três décadas. O talentoso artista destacou-se pela originalidade de seu traço e pela graciosidade de suas criaturas. Além de publicar inúmeras ilustrações e desenhar capas para O Tico-Tico, criou outros personagens, como o papagaio Faísca, o detetive Pinga-Fogo e a negrinha Maria Fumaça.

Além do já comentado Buster Brown, O Tico-Tico introduziu no Brasil a vigorosa produção de quadrinhos norte-americanos. Como registra o pesquisador Roberto Elísio dos Santos, o personagem Little Nemo, de Winsor McCay chegou ao País em 1910, cinco anos após sua criação, no número 258 da revista. Mickey Mouse, de Walt Disney, foi publicado com exclusividade a partir de 1930, com o título As aventuras do Ratinho Curioso. Também circularam o Gato Félix, de Pat Sullivan, Krazy Kat, ou Gato Maluco, de George Herriman, Popeye, de Elzie Crisler Segar e Mutt e Jeff, por Bud Fisher.

Como se vê, foi em O Tico-Tico que o Brasil passou a conhecer alguns dos personagens que viriam a se tornar clássicas dos quadrinhos mundiais.

Mas houve também antecipação. Em janeiro de 1911, como lembra Roberto Elísio, Alfredo Storni criou o casal Zé Macaco e Faustina, dois anos antes do surgimento da famosa dupla Pafúncio e Marocas (Bringing up Father, no original), do norte-americano George McManus.

Zé Macaco e Faustina eram um casal marcado pela feiúra e pela idiotice, que se esforçava para aparentar boa educação, inteligência e por estar na moda.

Max Yantok sofreu uma importante influência dos quadrinhos de cunho pré-surrealista de Little Nemo. Na edição 304, de 2 de agosto de 1911, saía a primeira aventura de Kaximbown, desse autor brasileiro. O personagem era um grã-fino metido a intelectual e aventureiro que portava seu inseparável cachimbo. Na companhia de Pipoca, seu criado, fazia viagens de aventuras e descobertas por lugares míticos como a Pandegolândia.

Yantok criaria ainda vários tipos cômicos, como o Barão de Rapapé, o palhaço Tony Malasorte, Pandareco e Chico Preguiça, demonstrando fôlego e criatividade.

O encanto de O Tico-Tico transcendia o público infantil, sendo leitura prazerosa de grandes nomes das artes e da cultura nacionais ao nível de Rui Barbosa e Coelho Neto. A revista trazia, além dos desenhos, os contos, as lendas e outras narrativas literárias escritas por Olavo Bilac, Oswaldo Orico, Josué Montello, dando outra dimensão ao universo onírico das crianças.

Toda uma geração se deslumbrou com o mundo encantado da revista, a exemplo de Herman Lima, Ledo Ivo, Lygia Fagundes Telles, Ana Maria Machado, Gilberto Freyre, Érico Veríssimo e Carlos Drummond de Andrade, então jovens que viriam a ser autores consagrados das letras do País. Drummond, em carta a Álvaro de Moya, confessa a saudosa lembrança que sentia da revista que o ajudou a aprender a ler e a ver figuras, no lendário ano de 1910.

Sem dúvida o humor, mas também o caráter didático serviu par dar prestígio à revista e garantir seu reconhecimento e importância no meio intelectual. Já a partir do número 3 começaram a ser narrados, em forma de quadrinhos, fatos da história do Brasil.

Leônidas Freire publicou O descobrimento do Brasil, história ilustrada com legendas, como era comum aos quadrinhos da época. É do mesmo autor a série História Ilustrada - Páginas Relembradas, publicada na década de 1910, que abordava o regime escravocrata que vigorou no país até o final do século XIX.

Roberto Elísio aponta mais um trabalho importante de cunho pedagógico publicado em O Tico-Tico. Trata-se da série em quadrinhos A vida de Floriano Peixoto, com texto de A. Plessen e ilustrações de Cícero Valladares.

As aventuras também fizeram parte do editorial da revista, com personagens estrangeiros, mas com a participação significativa de brasileiros. Como relata Roberto Elísio, a série Quadrilha Negra, adaptação do conto policial de Mac Flexters, foi desenhada por Oswaldo Storni, bem como Terras Estranhas, O outro mundo e Aventuras de Pernambuco o marujo, personagem criado pelo cartunista Belmonte. Entre outros autores, Carlos Thiré também participaria da revista, com a HQ O tesouro do faraó, publicada na década de 1930.

Apesar do sucesso incontestável da revista por décadas, a entrada dos quadrinhos norte-americanos de forma massiva por intermédio das distribuidoras, os conhecidos syndicates, fez a preferência do público começar a mudar, sobretudo quando surgiram os suplementos e revistas povoados de super-heróis, entre as décadas de 1930 e 1950.

A ingenuidade e o encantamento começaram a perder espaço para as aventuras heróicas e maniqueístas dos superseres, retrato de uma nova época em um mundo em ebulição.

O Tico-Tico resistiu até fevereiro de 1962. As edições semanais foram dando espaço às mensais e depois bimestrais, aos almanaques e especiais dirigidos a pais e professores, até que, finalmente, com a marca excepcional de 2097 edições e quase 57 anos de existência, encerrou uma saga ainda não igualada pela revistas infantis nacionais.

Henrique Magalhães é professor, pesquisador de quadrinhos e diretor da editora Marca de Fantasia, que publica quadrinhos nacionais e excelentes livros teóricos


Fonte:
http://www.universohq.com/quadrinhos/2005/ticotico.cfm

1 comment:

Dourado said...

sabe todos os desenhistas do Tico-Tico?

abraço

http://agaqueretro.blogspot.com.br/